Quando isso veio para o Brasil?
Em 2008, ajudei a elaborar o plano “Copa Verde”. Posteriormente, envolvemos órgãos como o Green Building Council Brasil (GBC Brasil) e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que acabou por vincular o financiamento para a construção de estádios à obtenção dos certificados. Mas queríamos que o banco desse condições mais favoráveis de acordo com a graduação do certificado.
Mas não foi isso que ocorreu.
Infelizmente não. Se você parte para uma graduação básica, os investimentos são muito menores. O BNDES preferiu fazer um pacotaço e oferecer até R$ 400 milhões para quem conseguisse qualquer nível de certificação. O que aconteceu com isso? Todo mundo foi para o básico.
O que diferencia os graus de certificado?
Os 10 pré-requisitos são os mesmos para todos os certificados (simples, silver, gold e platinum). Com 20% de economia você consegue um certificado básico. Uma redução de 30% a 40% gera mais pontos e vai mudando a categoria. No caso do Mané Garrincha, todas as reduções são acima de 50%. O pulo que pretendemos fazer do gold para o platinum, que são quase 20 pontos, deve ser obtido na geração de energia solar.
"Graças ao projeto do Mané Garrincha, conseguimos uma lei para troca de energia. O Leed só certifica se você puder vender o excedente que gera. Foi um parto mudar isso"
Como funciona o processo de certificação?
Há vários pré-requisitos, começando pela escolha do terreno adequado. Se eles forem cumpridos, é necessário, então, gerar um modelo energético (isso porque, ao contrário de uma residência, não há como comparar um estádio com outro). O projeto e a obra recebem pontuações em categorias como reciclagem de resíduos, eficiência energética, economia de água etc. São dez itens. Durante a fase de projetos, você tem um agente de comissionamento que verifica se os sistemas projetados realmente economizam. Com a obra pronta, há uma avaliação para determinar qual grau de certificado será dado ao edifício.
Como estão as negociações para a geração de energia no estádio?
Graças ao projeto do Mané Garrincha, conseguimos uma lei para troca de energia. O Leed (Leadership in Energy and Environmental Design) só certifica se você puder vender o excedente que gera. Foi um parto mudar isso. Conseguimos uma lei federal de compensação que prevê mais ou menos o seguinte: se você gera energia na sua casa de campo, o excedente pode ser compensado na sua residência em São Paulo. Ou seja, o gerador particular de energia não pode vender o excedente, apenas trocá-lo.
Quanto o Mané Garrincha vai gerar?
Você gera 2,5 MW, o equivalente a mais de duas mil residências. O estádio tem sobra de energia, já que o pico de consumo ocorrerá durante os eventos e no horário noturno. Os escritórios, por exemplo, não têm iluminação ligada durante o dia por causa da iluminação eficiente.
Foi difícil convencer as construtoras?
Para a construtora tudo é preço. Se eu vou gastar mais, estou diminuindo o lucro. Mas elas começaram a entender que não existe valor mensurável para a exposição gerada por esses projetos. A Andrade Gutierrez é uma construtora muito conceituada, mas não tinha no portfólio um projeto com certificação Leed. Agora vai poder mostrar isso para o mundo inteiro num evento midiático como a Copa do Mundo.