O crescimento e o desenvolvimento das cidades sempre estiveram intimamente ligados aos avanços de sua infraestrutura, suportados pelas tecnologias marcantes de cada época, como eletrificação, rede de saneamento, construção de edifícios, o surgimento da indústria automotiva e assim por diante. Por exemplo, a possibilidade de construir prédios elevados e a invenção dos elevadores permitiu a formação de centros urbanos com alta densidade populacional. A criação de redes de transporte público e a disseminação dos automóveis permitiu que as pessoas se deslocassem por longas distâncias, não precisando mais morar perto de seus locais de trabalho.
Hoje, com a rápida evolução tecnológica digital, com computadores cada vez mais baratos, menores e poderosos, e a disseminação da internet, abre-se um espaço significativo para a integração entre as tecnologias computacionais e as infraestruturas físicas das cidades, criando-se oportunidades para a criação de cidades mais inteligentes. Uma cidade pode se tornar mais inteligente se integrar sensores e outros dispositivos à sua infraestrutura, otimizando sua operação e mitigando os inevitáveis problemas que a concentração urbana traz em seu bojo, como congestionamentos de trânsito.
De maneira geral, as infraestruturas das cidades foram criadas sob a ótica do mundo analógico, com a tecnologia digital restrita às operações administrativas. A integração do mundo computacional à infraestrutura permite criar um nível muito mais amplo de integração entre os diversos sistemas que compõem uma cidade. Estes diversos sistemas sempre atuaram de forma isolada, sem maiores integrações entre si. Por exemplo, o sistema de transporte não interage com o sistema de educação, embora exista inter-relacionamento entre eles.
"Os projetos de criação de metrôs, VLTs e BRTs que estão ocorrendo devido à Copa do Mundo e a Olimpíada são uma oportunidade para estas infraestruturas já nascerem com o mundo digital e físico integrados"
Uma cidade inteligente consegue mapear o deslocamento dos alunos em direção às escolas e, com isso, tomar decisões que afetam a qualidade de vida destes alunos. Um uso mais intenso de banda larga incentiva o home office e, com isso, demanda menos pressão nos sistemas viários, com menos deslocamentos de pessoas em direção aos escritórios. Uma leitura que recomendo é o documento “A Vision of Smarter Cities: How Cities can Lead the Way into a Prosperous and Sustainable Future”, que pode ser acessado em http://www-03.ibm.com/press/attachments/IBV_Smarter_Cities_-_Final.pdf. Outra leitura bem interessante é “How Smart is Your City: helping cities to measure progress”, que pode ser acessado em ftp://ftp.software.ibm.com/common/ssi/pm/xb/n/gbe03248usen/GBE03248USEN.PDF. Estes dois papers mostram como desenhar projetos que conduzem uma cidade na direção de tonar-se mais inteligente, integrando os mundos físicos com os digitais.
Cada cidade tem características ímpares e não existe uma solução única que abranja todas elas. As suas especificidades obrigam a que os gestores de cada cidade desenhem suas estratégias e identifiquem quais as ações de maior prioridade em determinado momento. As cidades dos países desenvolvidos precisam modernizar suas infraestruturas. O desafio é como inserir a tecnologia digital em uma infraestrutura criada há muitas décadas. Nos países em desenvolvimento, muitas infraestruturas estão ainda sendo criadas. Por exemplo: os projetos de criação de metrôs, VLTs e BRTs em muitas cidades brasileiras que estão ocorrendo devido à Copa do Mundo e a Olimpíada. É uma oportunidade para estas infraestruturas já nascerem com o mundo digital e físico integrados.
Por outro lado, esta integração implica em novos desafios. Um deles é como a cidade passa a ser mais dependente do mundo digital, a questão da segurança e controle de acesso a estes meios digitais passa a ser mais prioritário. Com as cidades tendo seus sistemas cada vez mais interconectados, um vírus de software pode afetar a sua operação e causar blackouts que simplesmente a paralisem. Os sensores e outros dispositivos nas extremidades das redes tendem a ser os elos mais fracos da cadeia. É necessário colocar mecanismos de segurança que indiquem que os sensores estejam funcionando adequadamente e que não estejam contaminados por algum vírus. Além disso, em um mundo cada vez mais móvel, com smartphones e tablets se multiplicando a cada minuto, mais pontos de acesso, nem sempre seguros, são inseridos nas redes de informação das cidades. A complexidade dos sistemas integrados aumenta o potencial de danos causados por falhas. Portanto, a integração físico-digital passa por uma análise de riscos bem mais cuidadosa do que habitualmente se faz hoje em dia.
A interação físico-digital também demanda novos enfoques de gestão, desde a sua concepção, integrando diversos atores, que vão dos órgãos públicos envolvidos a provedores de tecnologias e processos, à sua operação, que passa a demandar uma maior integração entre todos estes órgãos. Este talvez seja um grande desafio cultural a ser vencido. Em muitas cidades os órgãos que atuam sobre ela operam de forma isolada sem integração de processos e sistemas. Com a integração físico-digital devem passar a operar transversalmente.
"É indiscutível que a integração físico-digital abre novas oportunidades para a melhoria da gestão das cidades. Por outro lado, cria novos questionamentos que devem ser considerados. Um exemplo é a privacidade"
É indiscutível que a integração físico-digital abre novas oportunidades para a melhoria da gestão das cidades. Por outro lado, cria novos questionamentos que devem ser considerados. Um exemplo é a privacidade. Por exemplo, a instalação de câmeras pelas cidades pode, no início, abrir questões sobre o tema. Mas, significativamente, vemos que à medida que elas se inserem no nosso dia a dia e trazem benefícios palpáveis, a sociedade se acostuma e avalia positivamente. Um bom exemplo é Londres, que já tem 10 mil câmeras espalhadas por suas ruas e a população reconhece seu valor em termos de melhoria de sua própria segurança.
Outro paradigma que começa a ser rompido é a chamada tarifação de congestionamento ou pedágio urbano. Na prática é a adoção de economia de mercado, cobrando dos usuários a utilização de recursos públicos escassos (como o centro de uma cidade) por preços variáveis, de acordo com a demanda. Isto implica em cobrar tarifas menores quando a demanda for menor, por exemplo, fins de semana ou madrugadas, e preços maiores, quando a demanda também for maior. A cidade de Estocolmo na Suécia é um bom exemplo desta prática e um paper demonstrando os resultados dos testes iniciais de sua aplicação pode ser acessado em http://www.stockholmsforsoket.se/upload/Hushall_eng.pdf. Hoje esta tarifação está em pleno uso e é bem aceita pelos cidadãos.
*Cezar Taurion é economista, mestre em Ciências da Computação e gerente de Novas Tecnologias da IBM