Nenhum outro artista plástico brasileiro foi tão apaixonado por futebol quanto o carioca Rubens Gerchman (1942-2008). Pelo menos esta é a impressão que se tem ao conhecer a sua vasta produção de obras sobre o tema: são dezenas de pinturas, gravuras, colagens e desenhos que ocuparam o olhar atento do artista por mais de quatro décadas.
Gerchman, figura de proa da pop arte brasileira dos anos 60, foi cronista visual, um observador da vida e da sociedade brasileira. Pôs sobre o futebol um olhar crítico, revelador do uso do esporte na massificação do ser humano, mas não só isso. Ao mesmo tempo, nunca deixou de expressar seu amor e admiração pelo espetáculo esportivo capaz de mobilizar multidões e elevar o homem comum à condição de herói.
De Garrinha a Ronaldinho, o artista compôs uma verdadeira galeria de craques, sempre em cores fortes, vibrantes, que tanto marcaram sua obra. Os jogadores ora aparecem em "retratos 3 x 4", ora são captados no preciso momento do lance, imprimindo ritmo e movimento à pintura. A seleção do artista reúne o melhor da história do futebol brasileiro: Pelé (retratado várias vezes), Mané Garrincha, Nilton Santos, Domingos da Guia e prossegue pelas décadas seguintes, com Romário, Denilson, Zico e muitos outros. Algumas telas apresentam o time todo, em pose oficial, como em "Os Super Homens" (1965). Ou a torcida, tratada como multidão anônima a lotar os estádios.
Gerchman participou de várias exposições, individuais e coletivas, com o tema "futebol", em museus e galerias de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a partir dos anos 70, até 2006. Na mostra Universo de Futebol, por exemplo, organizada em 1982 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ele pintou na parede do museu um campo de futebol supercolorido, com a torcida em plena animação do jogo. Já na coletiva "Futebol: desenho sobre fundo verde", realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, em 2006, aparece o jogador Ronaldinho Gaúcho, curiosamente fácil de identificar em meio a pinceladas difusas, de estilo expressionista, que marcou as fases finais do trabalho de Gerchman.
Tropicalismo
Gerchman e artistas de sua geração, como Claudio Tozzi, Roberto Magalhães, Glauco Rodrigues, José Roberto Aguillar, Nelson Leirner, Hélio Oiticica, Flávio Império e tantos outros, nos anos difíceis da ditadura se insurgiram contra o status quo, e trouxeram, pela primeira vez, a cultura popular para o campo de criação da arte de vanguarda. Desse período é a misteriosa personagem que Gerchman concebeu, na linguagem apropriada dos quadrinhos, na tela A Bela Lindonéia (ou, A Gioconda do Subúrbio), de 1966. Enfeitiçado por esta pintura, Caetano Veloso compôs a canção "Lindonéia", interpretada por Nara Leão. E também é dessa fase a antológica capa do disco Tropicália, ou Panis et Circensis (1968), outra criação de Gerchman.
Segundo o crítico de arte Jacob Klintowitz, "Gerchman mostra o que ocorre no banco de trás dos carros, numa noite perdida diante da escura paisagem marítima. Ou nos pequenos apartamentos do Catete. E, também, nos estádios, na orla marítima, nos parques da cidade". É ainda do interesse do artista a vida urbana, o amor, o erotismo, presentes em suas obras mais famosas, entre elas a série "Beijos", exposta pela primeira vez em 1989.