Na década de 1980, a cidade de Barcelona, capital da Catalunha, na Espanha, passou por uma revolução estrutural: teve seu porto reformado, o litoral saneado e, desta forma, se credenciou para receber os Jogos Olímpicos de 1992. Quase três décadas depois, o Rio de Janeiro quer trilhar caminho semelhante rumo à Olimpíada de 2016 e, para isso, conta com o sucesso da operação urbana Porto Maravilha.
Compreendendo uma área de cinco milhões de metros quadrados, onde residem 22 mil pessoas, a região portuária do Rio de Janeiro, há muito tempo relegada a segundo plano pelas políticas públicas do governo, será amplamente revitalizada. Revigorando uma área hoje entregue ao abandono, o projeto Porto Maravilha deve conferir, assim, novo significado à relação entre a cidade e a baía da Guanabara.
A operação urbana, que já teve as primeiras obras iniciadas em 2010 e deve ser concluída até 2015, terá como carro-chefe a demolição do elevado da Perimetral, principal via da região portuária. O traçado da avenida, conforme projetado, seguirá em via expressa e subterrânea: túneis de 4 km serão construídos nos dois sentidos da artéria.
Tudo para que, na superfície, uma área amplamente arborizada –15 mil árvores deverão ser plantadas– tome conta da paisagem onde hoje figura o elevado e o cenário de degradação junto às docas do porto. Além disso, 17 km de ciclovias e 650 km quadrados de calçadas devem ser executados, bem como toda a rede de infraestrutura urbana (energia, água, telecomunicações) da zona portuária, que já passa por reconstrução desde 2010. Em setembro último, um dos três túneis previstos projeto também começou a ser erguido.
Para comandar o Porto Maravilha, foi destacada a Cdurp (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro). De acordo com o sociólogo Alberto Silva, assessor especial da presidência da companhia, a requalificação das orlas urbanas pode ser considerada uma “tendência mundial”, a qual o “Brasil, ainda assim, está chegando atrasado”. “As cidades que não conseguirem resolver isso irão continuar com grandes áreas degradadas e subutilizadas próximas ao centro”, diz Silva.
Para ele, Barcelona é parâmetro para a cidade do Rio de Janeiro, mas também cita Lisboa (Portugal), Cidade do Cabo (África do Sul), Roterdã (Holanda), Boston (Estados Unidos), Copenhague (Dinamarca) e Buenos Aires (Argentina) como outros modelos de sucesso na revitalização de zonas portuárias mundo afora. “Uma das motivações do Rio é que se mudou a maneira como se operam os portos. As cidades têm de retomar estas áreas centrais para que elas voltem a ser funcionais”, explica o assessor.
Não bastassem as requalificações das artérias para otimizar o fluxo de tráfego na região central, um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) também está previsto para ser instalado e contornar o perímetro da região portuária. “Os estudos estão sendo finalizados. O que sabemos é que é tecnicamente possível construir modelagem financeira que o viabilize”, afirma Silva.
O financiamento do projeto Porto Maravilha, por sinal, não deve contar com dinheiro público. O investimento, de acordo com a Cdurp, será realizado através de uma operação urbana consorciada, utilizando potencial construtivo de terreno, os Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepac). “O consórcio vencedor, via leilão, é quem vai realizar o investimento e também captar os Cepacs”, explica Silva.
Docas que se transformam em arte
Uma parceria com a Fundação Roberto Marinho também vai conferir viés cultural a uma região que acompanhou a história do Rio ao longo dos séculos. Os Muséus de Arte do Rio (MAR) e do Amanhã serão construídos como parte integrante da operação Porto Maravilha. O MAR será instalado no atual Palacete Dom João VI e contará com um andar dedicado a exposições temporárias de acervos públicos e privados.
Já o Museu do Amanhã está sendo levantado onde hoje figura o desativado Píer Mauá, em uma área de 12 mil metros quadrados. Seu entorno, projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, engloba uma grande área verde e este museu, diferentemente do MAR, será dedicado à ciência.
"Estamos subindo um prédio comparável aos grandes monumentos do Rio de Janeiro”, disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante cerimônia, em novembro, que marcou o início da fase de fundações do museu. “Representa uma cidade que resgata o passado e vislumbrar o amanhã.” Os dois espaços culturais já tiveram suas obras iniciadas em 2010.
O interesse da prefeitura carioca, que conta com o aval dos governos estadual e federal, também é de recolocar o centro da cidade como catalisador de oportunidades de emprego e moradia e transformar a zona do porto no mais novo chamariz turístico da Cidade Maravilhosa. Uma estimativa da Cdurp é de que, em dez anos, a população da região portuária salte de 22 para 100 mil.
Assim, com qualidade de vida, opções culturais, de lazer e de mobilidade, o projeto Porto Maravilha pretende dar nova vida ao centro do Rio de Janeiro. Mais do que tudo, trata-se de uma reparação histórica: se o porto carioca trouxe desenvolvimento ao município durante séculos e depois foi abandonado por décadas, nada mais justo do que o Rio reconhecer a importância do local e resgatar o coração da cidade.