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O mundo precisa ser pensado como sistema de sistemas interrelacionados

Pensar os diversos setores da sociedade como silos isolados apenas leva à ineficiência

Questão do trânsito só terá solução com pensamento integrado (crédito: Arquivo)
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Cezar Taurion*
postado em 10/10/2011 12:37 h
atualizado em 10/10/2011 12:54 h

Nosso mundo convive com uma grande ineficiência em todos os aspectos da nossa sociedade, em seus sistemas, processos e infraestrutura. Muito desta ineficiência pode ser atribuído ao fato de que o mundo construiu seus sistemas, processos e infraestrutura em silos isolados, sem preocupações com seus interrelacionamentos.

Assim, os problemas de trânsito são resolvidos na área do trânsito, sem atentar para as outras entidades que se correlacionam com ele. Mas o mundo está cada vez mais interconectado e interrelacionado e as ineficiências do enfoque isolado ficam cada vez mais aparentes. A complexidade da sociedade humana e, principalmente, a complexidade das grandes cidades não podem mais ser atacadas de forma isolada, como sempre fizemos, mas sim por meio de uma visão de sistemas de sistemas.

O mesmo acontece com as empresas. Uma otimização da cadeia logística de uma empresa pode entrar em conflito com as medidas de otimização do trânsito das grandes cidades. O sucesso, ou seja, a redução da ineficiência dos processos e sistemas que movem nossa sociedade, só será alcançado com a integração deles e de seus atores, sejam estes governos, cidades ou empresas.

"O problema se agrava nos sistemas, processos e infraestrutura dos países e cidades onde o componente político, que enfoca o curto prazo, é mais aparente"

Hoje, a tecnologia nos permite pensar em um sistema de sistemas interconectados. O grande obstáculo não é, portanto, a tecnologia, mas sim nossa maneira de pensar. Geralmente pensamos de forma compartimentalizada, buscando resolver os problemas isoladamente. Uma empresa busca ser eficiente por conta própria, ignorando a possibilidade de parceria colaborativa com outras que estejam enfrentando o mesmo problema. O problema se agrava nos sistemas, processos e infraestrutura dos países e cidades onde o componente político, que enfoca o curto prazo, é mais aparente.

Está ficando cada vez mais patente que nosso mundo e nossa sociedade é um complexo sistema de sistemas interrelacionados. A globalização veio acelerar este processo. De maneira geral, podemos identificar os seguintes sistemas básicos que compõem nossa sociedade:

1) Sistema de infraestrutura;
2) Sistema elétrico;
3) Sistema financeiro;
4) Sistema da cadeia de alimentação;
5) Sistema de comunicação;
6) Sistema de água e saneamento;
7) Sistema de transporte;
8) Sistema de governo e segurança pública;
9) Sistema de saúde;
10) Sistema educacional;
11) Sistema de lazer, entretenimento e vestuário.

Coletivamente, estes sistemas compõem nossa sociedade e representam 100% do PIB (Produto Interno Bruto) global. Cada sistema é um amálgama de entidades públicas e privadas, que abraçam múltiplas indústrias. Por exemplo, o sistema de saúde é composto, entre outros, por médicos, hospitais, clínicas, consultórios, farmácias, indústria farmacêutica, distribuidores de medicamentos, governo e órgãos regulamentadores. O sistema de transporte, que se ocupa em mover pessoas e mercadorias de um lugar para outro, por sua vez, é composto por empresas de transporte de massa (ônibus, metrôs e trens), empresas aéreas, empresas de logística, fabricantes de veículos e aeronaves, agentes de viagens, produtores e distribuidores de combustível e energia, governo e órgãos reguladores.

Todos estes sistemas se interrelacionam em maior ou menor grau, e decisões e ações tomadas no âmbito de um acabam afetando a todos os outros. Existe uma nítida relação de causa e efeito, com resultados sendo sentidos de imediato ou no longo prazo. Um exemplo simples: medidas que impulsionem a venda de veículos afetam o uso de transporte de massa, podem sobrecarregar a infraestrutura viária e, no longo prazo, com maior ocorrência de congestionamentos e aumento da poluição urbana, afetam o sistema de saúde, com maior incidência de doenças respiratórias.

"A ineficiência não reside apenas em um sistema, mas nos seus interrelacionamentos. O trânsito, por exemplo, está diretamente interrelacionado com o planejamento urbano e o deslocamento das pessoas"

Outro exemplo pode ser o próprio trânsito e seus congestionamentos. As horas perdidas todos os dias nos engarrafamentos das grandes cidades implicam em custos bilionários para toda a sociedade. Estes custos podem ser classificados em dois tipos: o tempo ocioso das pessoas no trânsito e os gastos pecuniários impostos à sociedade.

Os prejuízos crescentes dos congestionamentos nas cidades demandam uma nova postura do poder público. As prefeituras e os governos estaduais e federal precisam atuar em parceria para equacionar a crise de mobilidade na principal economia do país. Isoladamente, pouco podem fazer. Uma melhoria no trânsito tem implicações em todos os outros sistemas. Mas esta melhoria só pode ser conseguida com uma visão mais abrangente de sistema de sistemas. A ineficiência não reside apenas em um sistema, mas nos seus interrelacionamentos. O trânsito, por exemplo, está diretamente interrelacionado com o planejamento urbano e o deslocamento das pessoas.

Quando aparece um problema, as empresas e os governos tendem naturalmente a olhar o sistema isoladamente, sem análises dos problemas causados ao sistema pelos seus interrelacionamentos. Nas empresas, esta situação ocorre com frequência. Vamos imaginar que em uma mesma região temos três indústrias: um fabricante de equipamentos eletrônicos e produtos de informática de consumo, um fabricante de eletrodomésticos e um de móveis para escritório. Cada um deles tem problemas de logística para resolver, incluindo-se aí os relativos às exportações de seus produtos para outros estados e outros países.

Mesmo que cada indústria otimize individualmente sua cadeia logística, os sistemas de infraestrutura e transporte como um todo não estarão sendo otimizados. Se estas empresas olharem pela ótica holística de sistema de sistemas integrados e interrelacionados podem colaborar em enviar seus produtos para outras regiões ou países de forma integrada e colaborativa, compartilhando e otimizando não só as suas cadeias logísticas, mas todo o sistema de transporte. Estimativas apontam que, por exemplo, cerca de 10% da capacidade instalada de containers está constantemente ociosa por falha na otimização logística.

"Antes não podíamos eliminar ou reduzir os congestionamentos, pois não tínhamos capacidade de prever e atuar em tempo real sobre o trânsito. Hoje, a tecnologia nos permite isso"

Melhorar o modo como nosso mundo funciona não é uma utopia. Pode e deve ser feito. Não podemos mais desperdiçar os recursos naturais. Não podemos mais aumentar a emissão de gases de efeito estufa. Temos que usar a cada vez maior instrumentação e interconexão de nosso planeta para torná-lo mais inteligente; usarmos a capacidade computacional existente no mundo, aliado a sensores e atuadores que se espalham pelos trilhões de objetos por meio de softwares que permitam analisar e tomar decisões em tempo real; tornar os sistemas, processos e infraestrutura mais inteligentes.

Antes não podíamos eliminar ou reduzir os congestionamentos, pois não tínhamos capacidade de prever e atuar em tempo real sobre o trânsito. Hoje, a tecnologia nos permite isso. Mas, precisamos entender o complexo interrelacionamento existente entre os sistemas e obrigatoriamente mudar nossa maneira de pensar, nos tornando mais colaborativos.

*Cezar Taurion é economista, mestre em Ciências da Computação e gerente de Novas Tecnologias da IBM





 
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