Recentemente li o livro “Os Centros Urbanos: a maior invenção da humanidade” de Edward L. Glaeser, publicado aqui no Brasil pela Campus. Como estou muito envolvido com projetos de cidades inteligentes, ou smarter cities, essa leitura me ajudou a entender um pouco mais dos motivos de certas cidades serem o que são hoje. Cada vez mais nos concentramos em cidades. Nos EUA, por exemplo, 243 milhões de americanos se concentram nos 3% da área do país que correspondem às suas zonas urbanas. Na cidade e no entorno de Tóquio, no Japão, são 36 milhões de pessoas.
Existem inúmeros problemas nas grandes e médias cidades, mas indiscutivelmente elas têm sido os motores das inovações desde o início. A leitura do livro nos ajuda a entender um pouco das diferenças entre as grandes cidades dos países ricos, que estão saindo da era industrial, e as cidades dos países em desenvolvimento, que se expandem muito rapidamente, como aqui no Brasil, na China e na Índia.
Claro que algumas cidades de países ricos não conseguiram se transformar, como Detroit, nos EUA, que se apegou unicamente à indústria automobilística. Ela, que em 1950 era a quinta em tamanho nos EUA, com 1,85 milhão de habitantes, em 2008 tinha 777 mil habitantes e continuava a perder população. O estudo da decadência de Detroit nos ajuda a não repetir o mesmo erro nas cidades brasileiras. Detroit, por depender exclusivamente da indústria automotiva, não criou diversidade e nem investiu intensamente em educação. Com o fim da era industrial e a crise da indústria automotiva americana, entrou em declínio. A indústria em si, cada vez mais automatizada, não é mais a geradora de empregos como anteriormente.
"Detroit, por depender exclusivamente da indústria automotiva, não criou diversidade e nem investiu intensamente em educação"
O livro cita alguns casos interessantes como Bangalore, na Índia. Ela investiu em capacitação e na busca por empresas de uma nova indústria, a de tecnologia da informação. Um núcleo inicial de especialização em engenharia de software atraiu empresas indianas e começou um círculo virtuoso, pelo qual empresas e profissionais inteligentes se juntaram para ficar perto uns dos outros. Este case mostra que o capital humano, bem mais que a infraestrutura física, é o principal componente para o sucesso de uma cidade. Outro caso interessante são as cidades do Vale do Silício, na Califórnia. Estes dois exemplos mostram também que, apesar das interações eletrônicas, o contato pessoal não está e nem deverá ficar obsoleto. A concentração de capital intelectual em uma determinada região é essencial para seu êxito.
Curioso também é o capítulo que o autor dedica às favelas e à pobreza em cidades como Rio e São Paulo. Segundo ele (com razão, aliás), as cidades não estão repletas de pessoas pobres por tornarem elas pobres, mas porque as cidades atraem pessoas pobres com a perspectiva de melhorar sua vida.
O livro também debate aspectos importantes dos desafios das cidades, como segurança e mobilidade urbana. Enfim, é uma boa leitura, embora muito concentrada nos países mais ricos.
Mas, desenvolvendo os temas segurança e mobilidade urbana, como estamos aqui no Brasil? Em breve teremos uma Copa do Mundo e a imagem do país estará literalmente em jogo. Claro que os esforços e investimentos em melhoria da segurança pública e mobilidade urbana não devem ser feitas apenas para a Copa, mas devem ser deixadas como legado.
Em termos de segurança, vemos que falta tecnologia e informação. Um exemplo gritante é que o próprio Ministério da Justiça trata dados sobre homicídios no país com base nas informações geradas pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
"Claro que os esforços e investimentos em melhoria da segurança pública e mobilidade urbana não devem ser feitas apenas para a Copa, mas devem ser deixadas como legado"
Pelo lado da mobilidade urbana, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) lançou um novo estudo, relacionando o crescimento populacional nas regiões metropolitanas brasileiras à necessidade de expansão dos sistemas de transporte em massa. O relatório pode ser lido na íntegra em http://www.copa2014.org.br/midia/site/1-2872011170415-110728_comunicadoipea102.pdf.
É uma leitura que ajuda a entender os desafios da mobilidade urbana nos grandes centros urbanos brasileiros. O estudo mostra que existe uma tendência de aumento da população na periferia das regiões metropolitanas, mas com os empregos ainda fortemente concentrados nos municípios centrais destas regiões, com fortes efeitos sobre a demanda dos meios de transporte. Novas soluções devem ser pensadas, e vemos como bons exemplos os corredores de ônibus, adotados em várias cidades no mundo inteiro.
Estes corredores, ou BRTs (Bus Rapid Transit - http://pt.wikipedia.org/wiki/Bus_Rapid_Transit), apresentam custos bem menores que os metrôs e, na prática, utilizam os principais atributos destes, como operação em vias segregadas, embarques em nível e veículos de grande capacidade.
Mas, o que há de comum nas soluções a serem desenhadas para tornarem as cidades mais inteligentes, com mais segurança e melhor mobilidade urbana? A resposta é o uso otimizado das informações e tecnologias. As cidades que obtém sucesso usam intensamente o conceito de cidades inteligentes como Cingapura, com seu tráfego inteligente, ou Nova York, com seu sistema de apoio à polícia, ou Crime Information Warehouse, que pode ser visto em ftp://ftp.software.ibm.com/software/solutions/pdfs/ODB-0144-01F.pdf.
Para tratar este imenso volume de informações hoje disponíveis, muitas geradas em tempo real, é necessário criar um centro de operações para a cidade. Este centro pode ser específico para um setor, como operações de trânsito, ou mais amplo (cross-domain), apresentando uma visão holística das informações sobre a cidade. Para uma visão mais detalhada de um centro de operações, recomendo a leitura do documento Smarter Cities Series: Introducing the IBM City Operations and Management Solution em http://www.redbooks.ibm.com/redpapers/pdfs/redp4734.pdf.
Este documento mostra o conceito de um centro de operações e suas principais funções, bem como detalha as preocupações necessárias para que tal centro opere com segurança e disponibilidade. Um centro de operações contém informações vitais para a vida da cidade e deve ser protegido contra acessos indevidos e criminosos, além de garantir alta disponibilidade. O documento também apresenta uma visão arquitetônica dos seus componentes tecnológicos essenciais. É uma leitura obrigatória para todo gestor de TI que esteja envolvido em projetos de centros de operação para suas cidades.
*Cezar Taurion é economista, mestre em Ciências da Computação e gerente de Novas Tecnologias da IBM