Depois de observar por dois meses e meio os preparativos de Londres para a Olimpíada de 2012, o secretário Especial de Articulação de Grandes Eventos da prefeitura de São Paulo, Walter Feldman, transformou-se em crítico do modo como o Brasil organiza a Copa de 2014. “O Brasil não fez um planejamento intenso, não fez obras de acordo com projetos executivos, não preparou a ideia da sustentabilidade e do legado. A avaliação, hoje, do mundo, é que o país está patinando na questão da Copa”, afirma o secretário.
Além da falta de planejamento, que coloca os ingleses em patamar diferente ao dos brasileiros, Feldman credita à Fifa, organizadora da Copa de 2014, parte da responsabilidade pelos atrasos. “A Fifa nunca aceitou o Morumbi, mas não deixou isso claro”, diz Feldman. “Agora estamos correndo atrás do prejuízo.” Confira trechos da entrevista.
Como Londres se preparou para 2012?
Quando a candidatura venceu, em 2005, começou um longo processo de planejamento e escolha do local. Identificaram que a região mais deteriorada é a leste, que piorou muito desde a Revolução Industrial do século 19. Agora, esse distrito de Stratford sofreu uma alteração urbana de tal magnitude que, depois dos Jogos, seu parque olímpico vai ser o maior e mais moderno de toda Europa. Além disso, incorporaram o conceito da sustentabilidade, criando uma regra que proíbe a construção de elefantes brancos.
Quais as principais mudanças que ocorreram na região?
A linha do metrô mais moderna da Europa é a da região leste de Londres. Para melhorar a mobilidade, estão sendo feitas novas avenidas para dar acesso à vila olímpica. Além disso, uma quantidade gigantesca de prédios vem sendo alugados, construídos e vendidos na região. A vila olímpica vai adicionar 2,3 mil apartamentos que serão vendidos para a população removida, que terá facilidade de crédito. Outro aspecto importante é que todos os rios eram contaminados e hoje estão despoluídos.
Considerando os atrasos nas obras da Copa, há tempo para termos um legado semelhante?
Em relação à Copa, diria que já perdemos grande parte do resultado que era possível. Veja bem: a Inglaterra começa a se preparar em 2005, faz dois anos de obras e agora tem um ano de testes. O Brasil não fez um planejamento intenso, não fez obras de acordo com projetos executivos, não preparou a ideia da sustentabilidade e do legado. A avaliação, hoje, do mundo, é que o Brasil está patinando na questão da Copa: “vai sair, porque tudo sai”. A Copa do Mundo está muito prejudicada em relação aos aeroportos e à característica da construção dos estádios.
São Paulo é uma das sedes mais atrasadas da Copa, principalmente por conta do estádio. Por que a cidade está nesta situação?
A Fifa nunca aceitou o Morumbi, mas não deixou isso claro. A entidade abriu a possibilidade de reformas atrás de reformas, mas nunca o aceitou. Ela poderia desde o início ter dito “O Morumbi não e ponto final”, e teríamos tido mais dois anos. Quando viram que não dava mais, estávamos em período eleitoral, o que permitiu que o Lula lançasse a ideia de Itaquera sem ter as soluções, avaliar se havia local adequado ou se o dinheiro era possível. Agora estamos correndo atrás do prejuízo.
E a Olimpíada?
A avaliação aqui é que estamos no “dead line” da decisão. Se tomarmos todas as decisões corretas agora ainda é possível construir um modelo semelhante ao de Londres.