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População cresce e se aglomera, levando desafios às novas megacidades

Novos desafios colocados à frente da sociedade não poderão ser resolvidos com soluções tradicionais

Malta: exemplo de "smart city", com soluções integradas (crédito: Divulgação)
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Cezar Taurion*
postado em 31/05/2011 16:50 h
atualizado em 31/05/2011 16:59 h

O crescente aumento da população e da urbanização em termos globais está gerando novos desafios econômicos e sociais. Entre 2009 e 2050, estima-se que a população do mundo aumentará em 2,3 bilhões, ultrapassando o patamar dos nove bilhões de habitantes. Neste mesmo período, a população urbana crescerá em 2,9 bilhões (número que inclui migração das áreas rurais e nascimento de pessoas), atingindo 6,3 bilhões –ou cerca de 70% das pessoas que vivem no planeta.

Muitas cidades já estão ou em breve estarão ultrapassando a capacidade de suas infraestruturas e recursos. Este rápido processo de urbanização vem criando as chamadas megacidades, imensos aglomerados urbanos de pelo menos 10 milhões de pessoas. Hoje, existem 21 megacidades no mundo, concentrando quase 10% de toda a população urbana da Terra. Mas, além das megacidades, começam a surgir megarregiões, que são cidades que se aglutinam, como Jo-Toria, um aglomerado que reúne as cidades de Pretória e Johanesburgo na África do Sul, e megacorredores, que conectam megarregiões, como o megacorredor que compreende Hong Kong-Shenzhen-Guangzhou, na China, com cerca de 120 milhões de pessoas.

Estes aglomerados urbanos são suportados por diversos sistemas, fundamentais ao seu desenvolvimento e operação, que são os sistemas das pessoas (as redes sociais e humanas e os serviços de segurança pública, saúde, educação e lazer), seus negócios (as legislações e políticas econômicas e os ambientes de negócios), e seus sistemas de transporte, comunicação, água e energia.

"Os megadesafios colocados à frente da sociedade e dos gestores públicos não poderão ser resolvidos da forma tradicional"

A eficácia e eficiência desses sistemas é que determina a condição de vida das cidades e seus habitantes. Estes sistemas são, por natureza, interconectados e como tal devem ser estudados, compreendidos e gerenciados. Por exemplo, um sistema administrativo burocrático e ineficiente, que aumente de forma excessiva o tempo necessário para abrir um novo negócio, afeta a economia da cidade, pois desestimula o empreendedorismo e aumenta a informalidade da economia, refletindo-se em menos impostos.

Os megadesafios colocados à frente da sociedade e dos gestores públicos não poderão ser resolvidos da forma tradicional. Diante deste cenário, surgiu o conceito de “smarter cities”, que se baseiam no uso intensivo de tecnologias para criar novas e inovadoras soluções. Estas tecnologias, se aplicadas de forma adequada, podem tornar muito mais eficiente a gestão das cidades.

Um exemplo bastante emblemático para quem vive em cidades, sejam elas mega ou médias, são os frequentes engarrafamentos no trânsito. Com o aumento da população urbana, os sistemas de transporte estão sob crescente pressão e em muitas cidades já estão sobrecarregados. Estima-se que existam mais de um bilhão de veículos rodando nas cidades e este número poderá dobrar em dez anos.

Nos Estados Unidos, as pesquisas afirmam que o desperdício econômico custa 78 bilhões de dólares por ano. Com o uso de formas inovadoras de se olhar o trânsito, podemos sair do modelo reativo de hoje para um modelo preditivo, que usa processos analíticos sofisticados e complexos para modelar os padrões de tráfego e prevenir congestionamentos.

A tecnologia permite hoje criar modelos matemáticos, suportados por dados coletados em tempo real por sensores instalados nas ruas, avenidas e nos próprios veículos, municiando em tempo hábil os operadores do trânsito com informações suficientes para eles evitarem que um engarrafamento venha a acontecer. Esta rede de sensores manterá a comunicação entre estes e destes com os GPSs dos veículos, para oferecerem automaticamente alternativas de trajeto, de modo que o motorista não se atrase no seu deslocamento. Alguns estudos mostram que uma parte significativa dos congestionamentos é causada por motoristas em busca de vagas para estacionar. Com o uso de tecnologias, é possível identificar de forma automática as vagas disponíveis nas ruas e shoppings, direcionando os motoristas até elas.

"É necessário ter um plano diretor para a cidade ser smarter. Adotar tecnologias com ações localizadas pode gerar mais problemas que soluções"

O imenso desafio colocado diante dos gestores é como atualizar os sistemas das cidades, investindo em soluções inovadoras, ao mesmo tempo em que se defrontam com restrições orçamentárias e agendas políticas conflitantes. Em muitas situações, as agendas políticas de curto prazo impedem o investimento em soluções que aparentemente não trazem votos. Um fator importante é que, infelizmente, muitos gestores públicos ainda não compreenderam o valor das tecnologias como base para a criação de novas soluções.

Quebrar esta inércia é um desafio. Muitos gestores públicos não se arriscam como nas empresas privadas por questões legais ou mesmo por preocupações políticas.  Criar soluções inovadoras exige uma nova mentalidade política, inclusive com participação mais intensa e ativa da sociedade pressionando os administradores públicos para obtenção de resultados.

Além do mais, existem questionamentos de por onde começar a fazer uma cidade se tornar “mais inteligente”. Para alguns municípios, o ponto de partida pode ser bastante óbvio, como um trânsito insuportável. Em outros pode ser a segurança pública. Mas em todas é absolutamente necessário ter um plano diretor que desenhe o mapa para a cidade ser “smarter”. Adotar tecnologias via ações localizadas e não integradas pode gerar mais problemas que soluções.

Alguns requisitos são básicos. Nenhuma “smarter city” existe sem uma adequada rede de telecomunicações e suporte computacional. Banda larga com e sem fio é essencial para ligar os sensores, a população e os negócios. Os sistemas das “smarter cities” devem adotar padrões abertos, pois é preciso conectar dispositivos e equipamentos das mais diversas tecnologias e origens. E alguns que ainda não existem hoje…

Os megaproblemas só serão resolvidos com o uso intensivo de tecnologias que permitam gerar mais eficácia e eficiência nos sistemas das cidades. Processos devem ser modernizados, sistemas integrados e pessoas envolvidas nas mudanças. Os processos de mudança devem ser efetuados gradualmente, com os ganhos obtidos revertendo-se em maior capacidade de investimento para outras soluções. Criar uma “smarter city” é uma jornada e não um projeto com início, meio e fim. É uma ação continuada que demanda novas políticas públicas e novos modelos de governança. Mas é também uma questão de sobrevivência.

*Cezar Taurion é economista, mestre em Ciências da Computação e gerente de Novas Tecnologias da IBM





 
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