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Hostels em favelas do Rio atraem turistas do mundo todo

Pacificadas pelas UPPs ou não, comunidades viram opção de estada na cidade. E prometem lotar na Copa

Ligia Mattos: "Jovens da Europa ficam encantados com a vista" (crédito: Vanessa Cristani)
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Vanessa Cristani - Rio de Janeiro
postado em 27/05/2011 15:53 h
atualizado em 27/05/2011 16:14 h

Quem sobe as escadarias sinuosas de uma comunidade no Rio de Janeiro, desbravando ladeiras que parecem não ter fim, para avistar do alto o que a natureza proporciona e que, de certa forma, estava escondido pelos "donos do morro", não tem do que se queixar.

A aventura de se hospedar em albergues dentro de uma favela na cidade não é mais arriscada. Pelo menos não nas comunidades onde as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) passaram a tomar conta, a partir da instituição do programa de pacificação do governo do estado. Criado no final de 2008, o programa consiste em colocar um contingente policial permanente nas favelas dominadas pelo tráfico de drogas, impedindo a disseminação ou o retorno dos narcotraficantes ao local.

Hoje existem 17 comunidades sob regimento das UPPs. Uma delas é o morro Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, na zona sul da cidade. Foi nele que nasceu e se criou a ex-modelo e dançarina Ligia Mattos, de 50 anos, dona da Pousada Favela Cantagalo.

Pousada segura no morro
Após alguns infortúnios na primeira tentativa de montar o hostel, Ligia estreou “pra valer”, como diz, em abril deste ano. Segundo ela, da primeira tentativa, para esta agora, o diferencial foi a segurança no morro. Ela garante que o resultado tem sido positivo e que os hóspedes, na maioria jovens vindos da Europa, ficam deslumbrados com a vista – o morro está situado entre as praias do Leblon e Copacabana.

“Quando tem hóspede, coloco mesas na varanda, de frente para a praia de Copacabana. A vista em nada deixa a desejar para um hotel fora daqui”, diz.
 
Pensando em 2014, ano de Copa do Mundo no Brasil, com a cidade cheia de turistas e hotéis lotados, Ligia comenta que mais dois hostels de amigos seus serão construídos na comunidade. No seu albergue de fachada colorida, a capacidade de quartos não poderá ser aumentada, mas ela espera lotação máxima até lá. “Aqui não tem mais espaço, mas com certeza outros hostels como esse serão construídos”, afirma.

Ela só reclama da falta de garis da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) no morro. “Já perdi hóspedes que chegaram à comunidade e foram procurar outro lugar para ficar por causa da quantidade de lixo por aqui”.

Vista do hostel Favelinha, em Santa Teresa: o primeiro (crédito: Vanessa Cristani)

Hostels diferenciados
De acordo com a Federação Brasileira dos Albergues da Juventude (FBAJ), existem 95 hostels no país, com 5.500 leitos. Estes números, todavia, podem variar, uma vez que alguns hostels incluem-se aí os situados neste novo nicho, segundo informa a Riotur, Empresa de Turismo do Município, veiculada à Secretaria de Turismo, não estão credenciados na FBAJ. Porém, para a Riotur não significa que eles sejam ilegais.

O alemão Holger Zimmermann, 36, proprietário, junto com a ex-mulher Andreia Martins, 35, da Pousada Favelinha, na comunidade Pereira da Silva, em Santa Teresa, no centro da cidade, afirma que seu albergue foi o primeiro dentro de uma comunidade no Rio, ou até mesmo no país.

Inaugurado no réveillon de 2005, o hostel, que tem vista para a baía de Guanabara e o morro do Pão de Açúcar, atrai, segundo Zimmermann, turistas, na maioria vindos de fora, diferentes do padrão “gringo que chega ao Rio à procura de praia e mulheres”, diz.

“Os turistas que chegam ao hostel estão interessados na cultura, em aprender a falar português e fazer contato com as pessoas da comunidade, ajudando na economia do local, já que muitos comem em restaurantes da favela e compram nas lojinhas do lugar”, explica.
 
Já a pousada Casa Alto Vidigal, que fica na favela do Vidigal, em São Conrado, bairro nobre da zona sul, é exceção à regra. Ainda não está pacificada (a Secretaria Estadual de Segurança, por questões estratégicas, não divulga o cronograma de implantação de UPPs), mas recebe turistas de todo o mundo, dispostos a conhecer uma comunidade mesmo sem o respaldo da polícia.

Segundo o dono, o austríaco Andreas Wielend, de 33 anos, que vive há um ano e meio no país, as regras são outras, em relação a uma comunidade pacificada. “Aqui não tem polícia, os traficantes mandam. Tenho que avisar tudo aos clientes. Mesmo assim, é legal e seguro, e nunca aconteceu de alguém roubar um hóspede, até porque a pousada está aberta há um bom tempo”, garante.
 
Copa do Mundo
Segundo a Riotur são esperados para a Copa em 2014 cerca de 200 mil turistas na cidade. Este total, de acordo com o órgão, será na maioria de turistas “volantes”, que vão querer conhecer outras sedes dos jogos, não tendo local fixo para se hospedar.

A cidade do Rio de Janeiro conta hoje com 28 mil quartos de hotéis e a meta da prefeitura é que este número aumente em mais 10 mil. Tanto Zimmermann quanto Wielend esperam que a Copa de 2014 traga ainda mais turistas. Para o dono da Pousada Favelinha, os preços devem aumentar, como acontece durante o carnaval, devido à falta de espaço e à impossibilidade de ampliação da pousada.

Wielend, porém, pensa em construir novos quartos privados. “O hostel estará lotado, com certeza, como ocorre no carnaval. E também na Copa do Mundo espero que ele esteja super cheio. Tomara”, torce o proprietário da pousada Casa Alto Vidigal.





 
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