O objetivo era que ele substituísse o Mineirão durante as obras para a Copa de 2014. Mas uma série de atrasos e mudanças de concepção acabou deixando os principais clubes de Minas sem o Independência, único espaço que poderia comportar partidas oficiais na capital Belo Horizonte durante a interdição do Gigante da Pampulha.
Prevista para ser concluída em outubro passado, a reforma do estádio do América-MG foi adiada para dezembro deste ano. O governo estadual confirmou oficialmente a nova data na última terça-feira (5).
Mas a prorrogação, que leva os times a se deslocaram para estádios de Sete Lagoas, Varginha e Uberlândia enquanto não há espaço adequado na capital mineira, não é a única polêmica envolvendo o Independência. Desde que a reforma foi a anunciada, o custo da obra também sofreu diversas modificações, passando de R$ 46 milhões para não menos de R$ 125 milhões, conforme anunciou o governo.
Para entender melhor a abrangência da reforma e das alterações conceituais realizadas ao longo do caminho, o Portal 2014 entrevistou o arquiteto Leon Myssior, responsável por elaborar o projeto.
Segundo ele, a principal mudança de orientação diz respeito à qualidade da obra que será entregue: em vez de uma estrutura simples, apenas para substituir o Mineirão por alguns anos, um estádio no padrão Fifa, que poderá até mesmo receber seleções estrangeiras durante a Copa de 2014.
Outra vantagem do novo Independência, que fica no bairro do Horto (zona leste), é a localização. Myssior destaca a facilidade de acesso ao estádio, já que há estação de metrô a apenas 600m e diversas linhas de ônibus.
“O metrô deve responder por 60% a 70% do acesso ao estádio. Além disso, desenvolvemos um plano de mobilidade e acesso que mantém até 95% dos automóveis longe do perímetro do estádio, usando o metrô, as 15 linhas de ônibus disponíveis em até 500m de raio do estádio e, mais importante, a utilização do estacionamento do Shopping Boulevard, a cerca de 3 km de distância, como "hub" de estacionamento, com shuttles (vans) transportando as pessoas para o estádio.”
Entre as principais mudanças no Independência está a capacidade, que passará dos atuais dez mil para 25 mil lugares, todos numerados e cobertos. Gramados e vestiários também serão refeitos, e novas torres de iluminação serão instaladas para a transmissão de jogos noturnos.
O estádio contará ainda com 27 lanchonetes, sete lojas, 14 cabines de imprensa, 24 camarotes e três elevadores para atender torcedores com necessidades especiais. No entorno, haverá estacionamento para 500 veículos.
Confira trechos da entrevista:
O custo do Independência subiu de R$ 46 milhões para R$ 125 milhões. Qual o motivo do acréscimo?
O projeto e o orçamento foram concebidos no final de 2008 e início de 2009. Já a licitação aconteceu no final de 2009, com a obra começando em janeiro de 2010. Então, em primeiro lugar, tem que se considerar a mudança no panorama econômico. Projetamos e orçamos o estádio em plena crise mundial, com uma paralisia na construção civil brasileira. Quando a obra começou, a economia estava numa fase vigorosa, com grande demanda de produtos e serviços, o que gerou aumento nos preços.
Além do aumento de custo, a reforma também atrasou. O estádio deveria ser entregue em outubro passado, mas o governo adiou o prazo para dezembro deste ano.
Outro fator que está onerando a obra é a demora na liberação dos recursos do governo federal por meio da Caixa Econômica. O banco aprovou R$ 30 milhões para o estádio, mas até agora liberou pouco mais de R$ 1 milhão. Apenas um exemplo: o estádio foi projetado com pré-fabricados de concreto, sistema que traria mais velocidade e qualidade para a obra, mas a Caixa entende que se deve pagar a estrutura pelo volume de concreto e aço gastos, o que é um absurdo. Trata-se de um processo industrializado, em fábrica, com formas especiais, que exigem transporte e montagem mecanizados. Essa demora no ingresso dos recursos levou a revisão e cancelamento de contratos com fornecedores, com atrasos nas obras e necessidade de renegociação de custos.
Mesmo com a revisão, parece excessivo que o custo tenha triplicado.
Quando fomos contratados para desenvolver o projeto, o governo do estado nos pediu um estádio enxuto, apenas para substituir o Mineirão durante as obras para a Copa. Haveria apenas jogos diurnos, sem iluminação, sem assentos individualizados, mantendo os vestiários existentes, enfim, um estádio de baixo custo, condizente com o orçamento disponível. Além disso, a licitação previa predominante demolição, terraplenagem, fundações, superestrutura e parte da cobertura. Mais tarde, em 2010, a encomenda mudou. O governo decidiu construir um estádio no padrão Fifa, com todas as comodidades de uma arena moderna.
Foi necessário um novo projeto?
Não, mas o projeto subiu alguns degraus em relação ao que era. O governo entendeu que o Independência poderá ser o estádio para os jogos do dia-a-dia de Belo Horizonte, porque tem uma capacidade adequada (25 mil lugares), está numa região que é o novo vetor de crescimento da cidade, na zona leste, e tem acesso fácil, com várias linhas de ônibus. Além disso, poderá ser um dos campos de treinamento para a Copa de 2014 e, por isso, precisa seguir o padrão Fifa. O custo da obra vai fechar em R$ 125 milhões e tudo indica que estará pronta até o final de 2011. O governo terá a concessão por 20 anos e depois o estádio voltará à administração do América Futebol Clube.