Uma pergunta está no ar desde a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014. Quanto vai custar a parada e quais serão os legados para o país? No Rio de Janeiro, provável sede da final, o "pomo da discórdia" envolve a provável demolição do Parque Aquático Júlio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio do Barros, recentemente restaurados para os jogos do Pan 2007. Lideranças da sociedade civil carioca argumentam que não há sentido em remover essas instalações para construir equipamentos que ocuparão a área apenas durante a Copa. A voz mais articulada dessa "frente anti-demolição" vem do arquiteto Antonio Carlos Saraiva, autor de uma proposta que prevê uma série de intervenções no entorno do Maracanã, de forma a preservar as edificações existentes e minimizar as desapropriações. Outro ponto importante: O estádio do Maracanã é tombado pelo Iphan (federal) e o Parque aquático e o Estádio de Atletismo são tombados por decreto municipal. Assim, pela lei, não poderiam ser modificados, muito menos demolidos.
Mas, para o também arquiteto Eduardo de Castro Mello, que assina o projeto aceito pela Fifa para o Maracanã, se o Rio de Janeiro quer a final da Copa no estádio, não há escolha: terá que demolir os equipamentos do Parque Aquático e do Estádio de Atletismo. "Trata-se de uma exigência da Fifa, acatada em todas as outras Copas, de que seja reservada uma área de 25 mil m2 para a montagem de uma construção provisória - para convidados da entidade e patrocinadores - mais 30 mil m2 de área livre no entorno, espaço para estacionamentos e manobra de caminhões, entre outras necessidades do evento. Tudo a, no máximo, 300 m do gramado. É um galpão, uma construção térrea provisória, de estrutura metálica e cobertura de lona, para ser desmontada depois", explica Eduardo, pragmático.
Em maio, logo após o anúncio das cidades-sede de 2014, Castro Mello foi chamado para uma reunião com o governo carioca, onde mais uma vez ouviu da autoridade que o tombamento do Maracanã não é uma preocupação. Segundo ele, há flexibilidade na lei de tombamento, permitindo que a autoridade - em nome do interesse público - possa intervir no edifício e seu entorno. Ele lembra até que, durante o Pan, já foram feitas reformas que alteraram a configuração original do estádio. "Se o espaço do entorno não for liberado para esta construção da Fifa, o Rio não abrigará a final. Depois do evento, aí sim o local poderá ser requalificado e abrigar um grande parque", explica Mello.
Proposta arquivada
Em 2008, logo após a Fifa fazer sua primeira visita ao estádio do Maracanã, o arquiteto Eduardo de Castro Mello foi procurado pelo então secretário de esportes Eduardo Paes (atual prefeito do RJ), que lhe solicitou um rápido estudo sobre a arena carioca. Ato contínuo, Castro Mello foi procurado pela empresa de consultoria Booz & Co, contratada pela prefeitura, que solicitou um estudo que apontasse soluções, com o menor investimento possível, para os problemas apontados pela Fifa no Maracanã. Itens como, por exemplo, a evacuação do público, visibilidade para os torcedores, condições dos vestiários, cobertura etc.
Foi desta forma que a equipe do arquiteto começou a desenvolver o estudo, "escolhido pela administração municipal como a melhor proposta para o Maracanã", lembra Castro Mello. Para as áreas externas, Eduardo contou com a contribuição do arquiteto João Valente, que desenvolveu um projeto já prevendo a demolição do Parque Aquático e do Estádio de Atletismo, segundo exigência da Fifa. Aqui uma explicação é necessária: a federação internacional precisa de áreas bem próximas ao estádio para instalar as edificações provisórias (tendas) para recepção da imprensa e dos convidados VIP da Copa do Mundo.
O projeto de João Valente previa a reconstrução da pista de atletismo e de um novo conjunto aquático numa área próxima ao Maracanã, mas do outro lado da linha férrea, até a Quinta da Boa Vista e próximo ao morro da Mangueira. Ali também seriam construídos estacionamento e áreas comerciais, além de passarelas sobre a linha do trem, criando-se uma extensão do estádio. Seriam agregados ainda um grande terreno do governo e as áreas de uma penitenciária e instalações do exército, hoje ociosas. No entanto o estudo foi considerado de custo muito alto e não chegou a constar da proposta final levada à Fifa. Foi substituído por outro projeto, desenvolvido pela equipe da própria Secretaria de Esportes do Rio de janeiro, sem no entanto definir a área para essa reconstrução.
Castro Mello explica que o Rio, por ser praticamente certa - inclusive no entender da Fifa - a escolha do Maracanã para a abertura ou encerramento da Copa, recebeu um tratamento diferente. Desta forma, a proposta encaminhada à Fifa foi menos um projeto de estádio e mais um conjunto de documentos, um volume completo, propondo a gestão do estádio por uma parceria público-privada (PPP). O documento, que tem a chancela do governo do Rio, inclui o estudo do arquiteto, mas vinculado à proposta de PPP.