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Maracanã: as demolições são inevitáveis?

Governo do RJ defende retirada do parque aquático e do estádio de atletismo

Proposta do governo do Rio em 2008: piscinas e pista olímpica (crédito: Divulgação)
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Regina Rocha/Marcos Sousa - São Paulo
postado em 02/07/2009 12:13 h
atualizado em 09/09/2010 16:47 h

Uma pergunta está no ar desde a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014. Quanto vai custar a parada e quais serão os legados para o país? No Rio de Janeiro, provável sede da final, o "pomo da discórdia" envolve a provável demolição do  Parque Aquático Júlio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio do Barros, recentemente restaurados para os jogos do Pan 2007. Lideranças da sociedade civil carioca argumentam que não há sentido em remover essas instalações para construir equipamentos que ocuparão a área apenas durante a Copa. A voz mais articulada dessa "frente anti-demolição" vem do arquiteto Antonio Carlos Saraiva, autor de uma proposta que prevê uma série de intervenções no entorno do Maracanã, de forma a preservar as edificações existentes e minimizar as desapropriações. Outro ponto importante: O estádio do Maracanã é tombado pelo Iphan (federal) e o Parque aquático e o Estádio de Atletismo são tombados por decreto municipal. Assim, pela lei, não poderiam ser modificados, muito menos demolidos.

Mas, para o também arquiteto Eduardo de Castro Mello, que assina o projeto aceito pela Fifa para o Maracanã, se o Rio de Janeiro quer a final da Copa no estádio, não há escolha: terá que demolir os equipamentos do Parque Aquático e do Estádio de Atletismo. "Trata-se de uma exigência da Fifa, acatada em todas as outras Copas, de que seja reservada uma área de 25 mil m2 para a montagem de uma construção provisória - para convidados da entidade e patrocinadores - mais 30 mil m2 de área livre no entorno, espaço para estacionamentos e manobra de caminhões, entre outras necessidades do evento. Tudo a, no máximo, 300 m do gramado. É um galpão, uma construção térrea provisória, de estrutura metálica e cobertura de lona, para ser desmontada depois", explica Eduardo, pragmático.
 
Em maio, logo após o anúncio das cidades-sede de 2014, Castro Mello foi chamado para uma reunião com o governo carioca, onde mais uma vez ouviu da autoridade que o tombamento do Maracanã não é uma preocupação. Segundo ele, há flexibilidade na lei de tombamento, permitindo que a autoridade - em nome do interesse público - possa intervir no edifício e seu entorno. Ele lembra até que, durante o Pan, já foram feitas reformas que alteraram a configuração original do estádio. "Se o espaço do entorno não for liberado para esta construção da Fifa, o Rio não abrigará a final. Depois do evento, aí sim o local poderá ser requalificado e abrigar um grande parque", explica Mello.

Proposta arquivada
Em 2008, logo após a Fifa fazer sua primeira visita ao estádio do Maracanã, o arquiteto Eduardo de Castro Mello foi procurado pelo então secretário de esportes Eduardo Paes (atual prefeito do RJ), que lhe solicitou um rápido estudo sobre a arena carioca. Ato contínuo, Castro Mello foi procurado pela empresa de consultoria Booz & Co, contratada pela prefeitura, que solicitou um estudo que apontasse soluções, com o menor investimento possível, para os problemas apontados pela Fifa no Maracanã. Itens como, por exemplo, a evacuação do público, visibilidade para os torcedores, condições dos vestiários, cobertura etc.

Foi desta forma que a equipe do arquiteto começou a desenvolver o estudo, "escolhido pela administração municipal como a melhor proposta para o Maracanã", lembra Castro Mello. Para as áreas externas, Eduardo contou com a contribuição do arquiteto João Valente, que desenvolveu um projeto já prevendo a demolição do Parque Aquático e do Estádio de Atletismo, segundo exigência da Fifa. Aqui uma explicação é necessária: a federação internacional precisa de áreas bem próximas ao estádio para instalar as edificações provisórias (tendas) para recepção da imprensa e dos convidados VIP da Copa do Mundo.

O projeto de João Valente previa a reconstrução da pista de atletismo e de um novo conjunto aquático numa área próxima ao Maracanã, mas do outro lado da linha férrea, até a Quinta da Boa Vista e próximo ao morro da Mangueira. Ali também seriam construídos estacionamento e áreas comerciais, além de passarelas sobre a linha do trem, criando-se uma extensão do estádio. Seriam agregados ainda um grande terreno do governo e as áreas de uma penitenciária e instalações do exército, hoje ociosas. No entanto o estudo foi considerado de custo muito alto e não chegou a constar da proposta final levada à Fifa. Foi substituído por outro projeto, desenvolvido pela equipe da própria Secretaria de Esportes do Rio de janeiro, sem no entanto definir a área para essa reconstrução.
 
Castro Mello explica que o Rio, por ser praticamente certa - inclusive no entender da Fifa - a escolha do Maracanã para a abertura ou encerramento da Copa, recebeu um tratamento diferente. Desta forma, a proposta encaminhada à Fifa foi menos um projeto de estádio e mais um conjunto de documentos, um volume completo, propondo a gestão do estádio por uma parceria público-privada (PPP). O documento, que tem a chancela do governo do Rio, inclui o estudo do arquiteto, mas vinculado à proposta de PPP.

Proposta da Artetec para o entorno do estádio (crédito: Artetec)

Início em 1997
O arquiteto Antonio Carlos Saraiva iniciou em 1997 um estudo de reurbanização da área do Maracanã, inicialmente com a proposta de implantar estacionamentos sobre a faixa da ferrovia que corta a região, e que depois incluiu uma nova estação, passarelas e outros itens. Saraiva lembra que em 2007 apresentou ao governo do Estado do Rio, para o então secretário de Esportes Eduardo Paes, um projeto para o complexo do Maracanã, que foi incorporado como proposta do governo. "Mais tarde, o desenho foi complementado com soluções urbanísticas, incluindo uma estação intermodal sobre a linha férrea e passarelas ligando a região (São Cristóvão, Mangueira, Quinta da Boa Vista) ao estádio", lembra Saraiva. Vencedor do Holcim Awards 2008 Latin America, o projeto acabou excluído do edital para reforma do complexo do Maracanã, que ficou disponível para consulta pública entre 22 de abril a 22 de maio de 2009, nos sites www.turismoesporte.rj.gov.br; www.suderj.rj.gov.br e www.planejamento.rj.gov.br, onde já constava a decisão do governo pela demolição de parte das instalações, reclama Saraiva. “Sim, o projeto da Castro Mello foi oficialmente incorporado pelo governo, mas não havíamos sido informados dessa mudança de intenções", completa.

Antonio Carlos Saraiva não entende as demolições como obrigatórias, desde que haja uma reordenação dos espaços para acolher as "instalações de hospitalidade", segundo a nomenclatura da Fifa. "Não existe essa exigência no caderno de encargos da Fifa, e lemos tudinho, com a maior atenção. O que se diz é da necessidade de melhorar a evacuação do local, mas para isso há soluções. De fato, o caderno de encargos não contém esta exigência. A Fifa, porém, sugere que as cidades-sede tenham áreas livres próximas ao gramado para receber os veículos e instalações da imprensa.
Saraiva argumenta que tanto os espaços externos, quanto as salas e demais compartimentos das duas arenas poderiam ser ajustados às necessidades da Fifa, antes e durante o evento. Por exemplo, as piscinas do Júlio Delamare, podem ser cobertas com pisos elevados industriais, que poderiam ser removidos ao final da Copa. Se a proposta parece razoável, por que não é aplicada?

Procurada ao longo de duas semanas, a secretaria Estadual de Turismo, Esporte e Lazer, Márcia Lins, não respondeu às questões enviadas pela reportagem do portal copa2014.org.br. No dia 8 de junho passado, em audiência na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro a secretária reafirmou a necessidade de demolir  as instalações do parque aquático e do estádio de atletismo: "É uma obrigação que tenhamos 85 mil m2 no entorno do Maracanã para uma série de estruturas provisórias, mas os projetos sociais que ocorrem nesses locais terão continuidade em outro equipamento, que será construído com recursos privados em terreno cedido pelo estado", explicou. O arquiteto Antonio Carlos Saraiva, de seu lado, questiona a promessa: "O edital só fala em demolir os edifícios, não exige que a empresa vencedora da licitação construa outro equipamento. O descontrole é parecido com o do Pan, que impede qualquer planejamento. Por trás disso, só gastos do dinheiro público, milhões envolvidos, um desperdício".

A secretária de Esporte, Turismo e Lazer do Rio, Márcia Lins, afirmou, na audiência na Alerj que o edital seria publicado até o final do mês: "Fizemos estudos de viabilidade e percebemos que o melhor é uma parceria público-privada. A empresa que vencer a licitação vai administrar o estádio por 35 anos e fará as obras", observou a secretária. Embora as empresas candidatas ainda não estejam definidas, sabe-se que o grupo baiano Odebrechet é um dos fortes concorrentes a assumir a gestão do Maracanã, ao lado do grupo Camargo Corrêa. Mas, correndo por fora, a holandesa Amsterdam Arena estaria desenvolvendo outro estudo em associação com outros arquitetos brasileiros.

Um terceiro projeto...
A licitação para a PPP ainda é uma "caixa-preta". Assim que for definida a empresa, haverá um prazo de 45 dias para a entrega dos projetos executivos de todo o conjunto, tempo considerado impossível para todos os arquitetos e engenheiros ouvidos pelo Copa2014.org.br. "Quem quer que ganhe a licitação já deve ter o projeto pronto hoje, pois não haverá como fazer esse trabalho, que é complexo e envolve centenas de fornecedores, em apenas 45 dias. Provavelmente já existe um terceiro e novo projeto que somente será divulgado após a licitação", prevê um arquiteto especializado em instalações esportivas.  

O que diz a "dona" Fifa
O texto do Caderno de Recomendações e Exigências da Fifa pede que os estádios ofereçam instalações de alta qualidade para os patrocinadores, convidados e imprensa, "numa atmosfera de sofisticação e paixão pelo futebol". Nessas "villages de hospitalidade", os parceiros e patrocinadores poderão expor, divulgar e vender seus produtos e serviços. O texto afirma que essas "villages" devem estar localizadas dentro dos estádios ou em áreas externas, abrigadas em instalações provisórias de tenso-estruturas, semelhantes às tendas de circos. Para a partida final, essa área, que soma 85 mil m2, deve estar localizada, no máximo, a 300 metros do centro do estádio.

EXIGÊNCIAS PARA A FINAL DA COPA

Commercial affiliate village
Capacidade: 5 a 7 mil pessoas
Área total 35.000 m2
Localização: a 150 m da arquibancada e, no máximo, a 300 m do centro do estádio

Commercial hospitality
Capacidade: 10 mil pessoas
Área total: 50.000 m2
Localização: a 150 m da arquibancada e, no máximo, a 300 m do centro do estádio





 
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