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Foco no transporte coletivo seria maior legado da Copa, diz engenheiro

Consultor da ANTP, Stenio Franco cita exemplo sul-africano no planejamento da mobilidade para a Copa

Franco: BRTs foram rapidamente superados em algumas cidades (crédito: Divulgação)
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Graziela Silva - São Paulo
postado em 17/01/2011 15:00 h
atualizado em 17/01/2011 15:14 h

Stenio Franco é consultor-associado da ANTP (Agência Nacional de Transportes Públicos) e integra o Grupo de Observação da Mobilidade na Copa 2014, criado pela entidade. 

Nesta entrevista, o engenheiro discute os desafios e carências da mobilidade nas metrópoles brasileiras, comparando o planejamento realizado para a Copa da África do Sul com os preparativos do Brasil para o Mundial de 2014.

Quais os principais desafios para melhorar a mobilidade urbana nas metrópoles brasileiras?
Os desafios vêm de fatores como o crescimento e adensamento das metrópoles, a falta de investimento e a indefinição de políticas públicas para priorizar o transporte público. E isso em contraponto a uma priorização do transporte individual, inclusive com incentivos fiscais.

Como os investimentos não acompanharam a demanda de espaço gerada pelo automóvel, temos um cenário que combina perda de mobilidade crescente com perda de sustentabilidade econômica de alternativas mais efetivas, como o transporte público, para melhorar a mobilidade.

Que legado pode-se esperar dos quase R$ 30 bilhões para a mobilidade urbana, em especial nas cidades da Copa?
Os recursos são significativos, principalmente se levarmos em conta o que a África do Sul investiu em mobilidade, cerca de R$ 6 bilhões. No entanto, se este montante não estiver inserido numa estratégia de longo prazo, integrado ao planejamento do uso do solo e propostas com preocupações urbanísticas, será subutilizado.

Do mesmo modo, se após a Copa não houver continuidade, os problemas atuais serão apenas minimizados e retornarão no curto prazo, entre cinco e oito anos na área de infraestrutura. A própria África do Sul elenca este como um dos maiores legados da Copa de 2010. Todos os investimentos foram realizados dentro de um plano estratégico para 20 anos.

Se a complexidade de atender as exigências para os megaeventos permitir a mudança de prioridade transporte individual para o público, teremos um legado de altíssimo valor.

A maioria dos projetos para a Copa é de BRTs (Bus Rapid Transit). Quais as vantagens e limites dessa solução?
O custo, impacto e complexidade de investimentos em modais de transporte público é extremamente alto, muito maior do que a obra em si. O primeiro fator a analisar deve ser o melhor custo-benefício. Afinal, não se justificam os montantes hoje planejados pensando apenas na Copa. No caso dos BRTs, entendo que fatores como tempo, recursos e expertise influenciaram a escolha. O Mundial começa em 2013, na Copa das Confederações. Toda infraestrutura tem que estar pronta para ser testada no evento.

"Se após a Copa não houver continuidade, os problemas atuais serão apenas minimizados e retornarão no curto prazo"

Uma das vantagens apontadas é o custo do BRT.
A relação km/capacidade é atrativo para operações do porte que foram planejadas para algumas sedes, devido a sua capacidade operacional ideal estar situada entre 15 mil a 35 mil passageiros sentido na hora/pico. No entanto, algumas cidades terão que lidar com uma saturação num prazo bastante curto, como Bogotá, que depois de 10 anos estuda a implantação do metrô.

E quanto à expertise?
O mercado brasileiro possui experiência no transporte sobre rodas, tanto na produção de veículos, quanto na operação de sistemas complexos. Rio e São Paulo têm dois dos maiores sistemas de transporte público baseados em ônibus do mundo. Além disso, existem operadores públicos e privados que tradicionalmente exportam conhecimento para diversos países. Desta forma, a escolha de um modal de maior domínio é mais uma vez uma opção mais pragmática.

Os VLTs também começam a ganhar destaque. Até que ponto essa é uma opção viável?
Entendo este modal como parte de uma matriz de soluções que envolve trem, metrô, monotrilho, BRTs, sistemas sobre rodas de tráfego misto (ônibus e microônibus), bicicletas e até mobilidade a pé. Acho uma opção bastante interessante para algumas cidades brasileiras.

Você acompanhou de perto as operações de transporte durante a Copa da África. Há algo a aprender com a experiência sul-africana?
Planejamento. Acho que é a principal recomendação baseada na experiência sul-africana. Desde o planejamento estratégico da infraestrutura, o operacional realizado com antecedência e a comunicação e informação das diferentes partes envolvidas, desde público interno e externo até a diferente gama de entidades e instituições que fazem parte desta grande festa que é a Copa do Mundo. E uma boa dose de humildade. Os sul-africanos, em nossa opinião, não se preocuparam em realizar a melhor de todas as Copas, mas em minimizar os riscos e realizar um belo evento dentro de suas capacidades. Creio que conseguiram.





 
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