A arquitetura pode perder a oportunidade de bem expressar a cultura brasileira na Olimpíada de 2016. O comitê organizador emitiu uma carta-convite para a elaboração de todos anteprojetos do Parque Olímpico em dez semanas. As exigências feitas para realizar a tarefa são apenas um portfólio resumido, as intenções de projeto e comprovar um capital de no mínimo R$ 15 mil.
É bem verdade que consta da carta-convite que o anteprojeto deve "garantir que o Parque Olímpico seja um monumento genuinamente brasileiro e único" e "mostrar ao mundo as qualidades e características da cultura, do desenho urbano e da arquitetura carioca e brasileira". Mas se equivoca ao colocar essas responsabilidades para serem realizadas por uma única firma em dez semanas.
Não acredito em uma armação adrede preparada, como se comenta à boca pequena em alguns setores da cidade, porque as instituições e pessoas envolvidas são honestas. Mas o que está errado é tão ou mais grave: humilha-se a cultura e a arquitetura, ao se achar que estas se resolvem através de soluções tão simplistas, e menospreza-se nossa inteligência.
É necessário que os anteprojetos sejam definidos com prazos e custos prefixados, a partir de concursos públicos, escolhidos por júris classificados, possivelmente internacionais, e com todos os trabalhos concorrentes expostos em lugar público. Assim será possível que a cultura brasileira bem se expresse na Rio-2016.
*Flávio Ferreira é arquiteto, professor do Prourb-FAU-UFRJ. O artigo foi publicado originalmente no jornal "Folha de S.Paulo" de 8/9/2010