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Copa e Olimpíada pedem cidades inteligentes

Tecnologia pode gerar infraestruturas urbanas mais flexíveis

Cesar Taurion: cidades inteligentes para 2014 (crédito: IBM/Divulgação)
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Cezar Taurion*
postado em 10/08/2010 16:24 h
atualizado em 11/08/2010 12:16 h

O Brasil já entrou na rota dos megaeventos esportivos, como o Pan de 2007, a Copa em 2014 e os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016. Eventos deste porte, embora tenham custos muito elevados (a Alemanha investiu mais de 1,4 bilhão de euros na construção e modernização de doze estádios), podem alavancar investimentos e melhorias nas cidades-sede. Um bom exemplo foi a Olimpíada de Pequim, em que somente uma pequena parcela dos mais de U$ 22 bilhões investidos na melhoria da infraestrutura foi direcionada às instalações esportivas. A maior parte deste orçamento foi alocada na modernização da cidade, em áreas como transporte e saneamento.

É importante que os projetos dos megaeventos sejam muito bem planejados e gerenciados. A experiência negativa do Pan tem que ser citada: do orçamento original de R$ 400 milhões, acabou-se gastando mais de R$ 3,5 bilhões, ou seja, nove vezes mais. Com um estouro orçamentário destes, qualquer estudo prévio de custo versus benefício se invalida completamente.

A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos têm o poder de serem catalisadores dos processos de investimentos em áreas cruciais, muitos dos quais já deveriam, inclusive, ter ocorrido. Uma infraestrutra deficiente -que frequentemente restringe o crescimento econômico de uma região-, quando revitalizada em virtude de um evento da magnitude de uma Copa do Mundo pode fornecer um impulso significativo de produtividade à economia desta região. Um exemplo emblemático foi a realização dos Jogos Olímpicos em Barcelona, em 1992, que demandou investimento público de U$ 6,2 bilhões, mas que contribuiu significativamente para o redesenvolvimento da cidade e da região da Catalunha. O desemprego em Barcelona caiu quando comparado aos índices da Espanha e mesmo à média europeia.

Assim, os megaeventos esportivos devem ser usados como catalizadores para a melhoria das suas cidades-sede, alavancando projetos de infraestrutura urbana, com incremento no fluxo de turismo, atração de novos negócios e geração de novos empregos. Os megaeventos podem e devem gerar, além de benefícios econômicos, um legado social, revitalizar áreas degradadas (como Londres está fazendo para a Olimpíada de 2012 e o Rio de Janeiro, com o projeto Porto Maravilha, para a Olimpíada de 2016), melhorar os valores culturais e educacionais, melhorar a qualificação da força de trabalho e a imagem e “marca” do país.

A questão do turismo é importante. O Rio de Janeiro, por exemplo, segundo dados de 2008, está em 35º lugar no ranking dos principais destinos internacionais, com cerca de 2,2 milhões de visitantes internacionais por ano. É um número bem abaixo do de Londres, primeira colocada, com 15,6 milhões de turistas. É importante lembrar que um megaevento esportivo como uma Olimpíada ou Copa do Mundo é um flash passageiro, e seu impacto, se não for acompanhado de outras ações de promoção e incentivo ao turismo, será reduzido e de curto prazo. O fluxo turístico pode voltar ao patamar anterior ao evento logo após seu término.

O setor de viagens e turismo tem grande potencial econômico e está entre os mais beneficiados pela Copa do Mundo. A Copa é o maior evento midiático do mundo e tornará o Brasil muito mais visível para todos. A Copa do Mundo de 2002, realizada no Japão e Coreia do Sul, gerou mais de 41.000 horas de programação em 213 países para uma audiência acumulada estimada em 28,8 bilhões de pessoas. Na Copa do Mundo da Alemanha, cerca de 560 milhões de pessoas de 240 países assistiram à cada um dos jogos pela TV, gerando uma audiência acumulada de mais de 30 bilhões de espectadores.

Dada esta importância, o Fórum Econômico Mundial divulga sistematicamente o Índice de Competitividade em Viagens e Turismo (Travel & Tourism Competitiveness Index, TTCI). Este índice tem por escopo “medir os fatores e políticas que tornam atrativo o desenvolvimento do setor de viagens e turismo em diferentes países”. Este índice é calculado a partir de vários indicadores e em vários deles o Brasil encontra-se bastante defasado, como, por exemplo, em segurança, infraestrutura de transporte aéreo, infraestrutura de transporte terrestre e infraestrutura de TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação).

Em segurança, entre 133 países analisados, o Brasil ficou no desonroso 130º lugar

Em segurança, por exemplo, são avaliados índices de criminalidade, violência comum, terrorismo, políticas de prevenção ao crime e de proteção ao turista proporcionados pelos serviços policiais e a incidência de acidentes automobilísticos. É um fator importante, pois muitos destinos são desconsiderados pelos turistas por serem considerados perigosos. Em 2009, entre 133 países analisados, o Brasil ficou no desonroso 130º lugar, só superando Bangladesh, Nigéria e Paquistão.

Outro indicador  em que o Brasil ocupou as últimas posições (110º) foi o da infraestrutura do transporte terrestre, vital para a movimentação do turista. Este índice leva em conta a qualidade das rodovias, ferrovias e portos, assim como a eficiência e acessibilidade de transporte para as atrações turísticas, e, no caso da Copa do Mundo, para os estádios. Outro fator primordial, dada a amplitude do território brasileiro, é a infraestrutura do transporte aéreo. Neste quesito, o Brasil ocupou a 46ª posição. E, finalmente, teremos uma Copa do Mundo movida à tecnologia, com a TV de alta definição (e 3D) e as redes sociais chegando aos celulares, o que irá gerar uma demanda bem superior à média de acessos. Para se ter uma ideia, na cerimônia de abertura do Pan-2007, no Maracanã, o entorno do estádio registrou um aumento do tráfego de celulares de 500%. Mas atenção: em infraestrutura de TIC o Brasil ocupou a 60º posição entre os 133 países analisados.

Claramente vemos que temos muito a fazer fora dos estádios. Proporcionar a infraestrutura necessária para sediar a Copa do Mundo na escala e dimensão exigidas pela Fifa é um imenso desafio. O grande fluxo de pessoas nas cidades que sediarão os jogos aumenta enormemente a necessidade dos vários serviços básicos, que na prática devem atuar de forma interdependente, pois um incidente em uma área pode acarretar sérias consequências em outras.

Mas, como agir? É indiscutível que o mundo está cada vez mais instrumentado e conectado. Instrumentado significa que temos tecnologias como sensores e etiquetas eletrônicas (RFID – Radio Frequency ID) que podem nos mostrar o que está acontecendo em tempo real. Conectado significa que estes sensores podem ser interligados pela Internet, construindo uma verdadeira “Internet das coisas”.

Alguns exemplos?

1) Já temos cerca de um bilhão de transistores para cada indivíduo do planeta. Os transistores, inventados 60 anos atrás, são a base da Tecnologia da Informação e da era da digitalização.

2)
Em breve já teremos cerca de 33 bilhões de etiquetas RFID em circulação. E em mais cinco anos teremos centenas de bilhões.

3)
Em 2011 a Internet vai conectar cerca de dois bilhões de pessoas. E trilhões de objetos e sensores. Estes objetos e sensores, equipados com processadores e softwares, vão se tornar a cada dia mais inteligentes. Combinados com nuvens computacionais na sua retaguarda, rodando softwares que permitem tratamento analítico sofisticado, vão permitir a criação de processos, sistemas e infraestruturas mais inteligentes e flexíveis.

Em vez de novas ruas, mais inteligência nas vias (crédito: Reprodução)

Em vez de abrir mais ruas e avenidas, por que não colocar mais inteligência nas ruas e avenidas atuais?

Assim, é natural que pensemos em convergir a infraestrutura física das cidades com o mundo da TIC. Estes mundos evoluíram em paralelo. A infraestrutura física sempre foi pensada analogicamente, como estradas, prédios e portos. TIC é o mundo dos datacenters, softwares e roteadores. O que propomos é integrar estes dois mundos.

Como colocar em prática esta inteligência? Usando a instrumentação e a interconexão já existentes, aplicando a eles novas aplicações e usos das TIC. Vamos olhar as TIC de forma diferente, não apenas como apoio às atividades administrativas, mas como impulsionadora de novas formas de uso da infraestrutura existente. Como seus agentes de modernização e otimização.

É indiscutível que a tecnologia pode fazer com que o sistema viário seja muito mais eficiente. Que a segurança pública aumente significativamente. Que os procedimentos nos aeroportos sejam mais ágeis. Através do uso mais eficiente das TIC podemos tornar nossas cidades mais inteligentes e deixar um legado importante para a sociedade após a Copa do Mundo.

Portanto, a realização de um megaevento deve ser tratado com muito cuidado, responsabilidade e transparência, com muito planejamento e com uma visão de desenvolvimento urbano para o médio e longo prazo. Os megaeventos não podem ser vistos em si mesmos, mas inseridos nos planos de desenvolvimento econômico e social dos países e das cidades envolvidos. Por exemplo, aqui no Brasil, os projetos das cidades-sede devem visar ao pós-Copa 2014, ou seja, devem projetar como as cidades deverão ser em 2024 ou mais à frente, em termos de mobilidade urbana, segurança pública, saúde, desenvolvimento de negócios e assim por diante. Só assim a Copa de 2014 vai deixar um legado realmente positivo.

*Cezar Taurion é economista, mestre em Ciências da Computação e gerente de Novas Tecnologias da IBM





 
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