Para o engenheiro Luiz Celio Bottura, das opções que vêm sendo aventadas para cidade de São Paulo sediar a Copa 2014, aquela que garante a certeza de dar certo ainda é o Morumbi. "É a solução mais econômica e rápida de ser executada. E o problema do acesso poderia ser solucionado, caso a prefeitura fizesse mesmo a ligação da região por metrô", ressalta.
Mas, e se não pudermos mesmo contar com o Morumbi? Para Bottura, a melhor proposta então não seria nem a do Palmeiras ou o Pacaembu, nem nas "novidades" de Pirituba e Guarulhos.
"Se tivéssemos tempo", vislumbra, "a melhor proposta seria a construção de um novo estádio, mas nas proximidades da região central". A área em questão, apontada em um estudo de sua autoria, abrange algumas quadras dos bairros da Luz e de Campos Elísios. "Uma região degradada, a chamada 'cracolândia', hoje foco de uma operação de reformulação urbana da prefeitura de São Paulo", situa o engenheiro. Entre as qualidades deste local, que justificariam a construção de um grande estádio ali, está o "sistema ferroviário, multipolar", já consolidado nesse ponto da cidade.
Multipolar, explica Bottura, porque se distribui por toda a região urbana de São Paulo e municípios vizinhos, com ligações por metrô para todos os pontos da cidade, além de já contar com mais de vinte estações. Sobre eventuais desapropriações, os custos não seriam elevados, diz o engenheiro, porque na maioria são imóveis de baixo valor, ocupações habitacionais e comerciais de fácil remanejamento.
Quanto às demais opções, Bottura aponta problemas de várias ordens. No caso do Palmeiras, por exemplo, o que complica, diz ele, é "a microposição do Palestra Itália". O estádio fica numa quadra complexa onde, se aumentar a circulação de automóveis, causará graves problemas de congestionamento. Aumentar o estádio, "seria sempre como por 'um mamute numa xícara de café'", brinca Bottura.
Já o Pacaembu, como também o Morumbi, sofreria de um 'problema de origem', na sua opinião: "Em ambos, o entorno urbanístico é incompatível com a atividade (estádio de futebol), e há conflito entre a atividade esportiva e a ocupação residencial do bairro. Acredito que para o Pacaembu, por exemplo, o melhor, pelo menos do ponto de vista do entorno urbano, é fazer o contrário: evitar seu uso, não ampliá-lo", diagnostica.
Já entre Guarulhos e Pirituba, seria preferível o primeiro, diz. O terreno em Guarulhos é do estado e ali caberia implantar um sistema de transporte não pendular, ou seja, de tipo multipolar. Os torcedores viriam de diferentes pontos, de muitas linhas e estações de desembarque, o que permitiria direcioná-los para entradas de portões diferentes. "Outros pontos a favor de Guarulhos são a proximidade com um público com algum poder aquisitivo, com condições de adquirir ingressos. Além disso, o local do estádio é relativamente próximo do centro de Guarulhos, há disponibilidade de hotéis, também no entorno do aeroporto de Cumbica, que seria um ponto de apoio ao torneio, e as desapropriações seriam poucas".
Já a área de Pirituba, avalia Bottura, é ruim, com muitas ocupações irregulares. "É quase como dizer que uma cidade precisaria ser demolida e construída de novo." O sistema de transporte, uma linha de trem suburbana da CPTM, é de tipo pendular (grandes fluxos de gente vindas de um só ponto), o poder aquisitivo na região é baixo e há problemas mais sérios de segurança. Além disso, continua o engenheiro, a rodovia Bandeirantes e o Rodoanel, que poderiam servir de acesso, não se prestam a uma concentração com pico de autos. "Em outras palavras, urbanisticamente, para preparar a região para um estádio nessa área de Pirituba, seria necessário pensar bem a longo prazo, algo para mais de 20 anos...", conclui.
*Luiz Célio Bottura é consultor de engenharia urbana e transporte. Membro do conselho do Instituto de Engenharia de SP, atua também como promotor de desenvolvimento sustentado. Foi presidente do Dersa no governo Montoro e participou dos conselhos de administração da SPTrans, CET e do próprio Dersa.