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A nova "praia" mineira

Entrevista com Gustavo Penna, arquiteto do Mineirão

Maquete virtual do novo complexo Mineirão-Mineirinho (crédito: Arquivo Gustavo Penna)
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Rafael Massimino - São Paulo
postado em 03/03/2009 11:33 h
atualizado em 09/09/2010 16:31 h

Nós projetamos a Copa
Arq. Gustavo Penna - Estádio Mineirão, Belo Horizonte

O projeto de modernização do Mineirão para a Copa de 2014 é um trabalho conjunto dos escritórios de arquitetura Gerkan, Marg & Partner (GMP), da Alemanha, e Gustavo Penna Arquiteto & Associados, de Minas Gerais. Sobre esta parceria, Gustavo Penna observa: “A equipe do GMP tem grande experiência em projetos na área esportiva. De nossa parte, assumimos a missão de interpretar o universo estético do país”.

O GMP já projetou estádios para Berlim, Pequim e para duas cidades da África do Sul, sede da Copa de 2010.  Já o escritório mineiro tem obras espalhadas por Belo Horizonte que primam pelo simbolismo e pela sutileza do desenho. Uma mistura de universal e regional que, na visão de Gustavo Penna, “tem como objetivo harmonizar e valorizar nossa cultura”.

Os escritórios foram contratados pela empresa de consultoria Ernst & Young, vencedora da licitação estadual para a reforma do complexo Mineirão-Mineirinho. A obra começa em janeiro do próximo ano e tem conclusão prevista para dezembro de 2012. Além do cronograma apertado, Gustavo Penna acredita que o grande desafio do empreendimento é adequar o projeto original aos usos contemporâneos. “Atualmente, os estádios têm novas demandas de segurança, visibilidade e conectividade. São novos critérios que adaptam o estádio para receber atividades como shows, eventos e outras modalidades esportivas”, explica o arquiteto.

No interior do estádio, as maiores intervenções serão o rebaixamento do gramado em 3,5 metros e a construção de uma cobertura feita de metal e membranas de policarbonato para a arquibancada. No entorno do estádio será construída uma ampla esplanada interligando o Mineirão ao ginásio Mineirinho, distantes cerca de 250 metros. O projeto ainda prevê pavimentos subterrâneos com espaço para shoppings, centros comerciais, área de eventos, equipamentos culturais, hotéis e estacionamentos.

A transformação do Mineirão em um grande complexo cultural, esportivo e de lazer é uma das principais apostas para atrair investimentos privados para o empreendimento. Até 30 de junho o governo de Minas Gerais abrirá processo público para a seleção de grupos de investidores interessados. E Gustavo Penna garante que o projeto já chamou atenção: “Os órgãos estatais estão sendo procurados por empreendedores internacionais atraídos pela amplitude do projeto”.

No entanto, mais do que transformar um símbolo cultural e esportivo de Minas Gerais em equipamento rentável, Gustavo Penna acredita que o importante é criar um espaço de convívio que possa incluir “uma parcela da população afastada do estádio por causa da violência”. Na visão do arquiteto, “Belo Horizonte é uma cidade montanhosa, sem praias. Nós, seus habitantes, precisamos criar nossos próprios espaços de convivência e recreação. Precisamos inventar nossas praias.”

Sua trajetória profissional é marcada pelo diálogo bem sucedido entre tradição e inovação. Como esse binômio se manifestará no novo Mineirão?
Nosso projeto parte de três pressupostos. Em primeiro lugar, o respeito à memória que envolve o estádio. Nosso projeto valoriza o trabalho dos arquitetos que idealizaram o Mineirão e o Mineirinho, suas escalas, dimensões. A imagem do futebol de Minas Gerais se confunde com a imagem do Mineirão. O estádio é um ícone cultural e devemos respeitar essa característica. O segundo ponto é a valorização do patrimônio cultural, ambiental e paisagístico da Pampulha. Além destes aspectos, o projeto incluirá a sustentabilidade e a sociabilização. É uma forma de adequá-lo às exigências ambientais contemporâneas e de promover o encontro entre as pessoas.

Como foram os contatos com a Ernst & Young e quais motivos levaram a empresa a escolher o Gustavo Penna Arquiteto e o escritório alemão GMP para o projeto do Mineirão?
Nosso escritório sempre esteve envolvido com grandes obras, como o Expominas. Também projetamos um estádio para o time do América, no Rio de Janeiro e outro em Brasília, na época da candidatura da cidade para a Olimpíada de 2000. Já a alemã GMP possui um atualíssimo know-how nessa área. Conhece bem as demandas da Fifa e, como os prazos são curtos, acredito que isso tenha influenciado para a escolha da empresa.
Na verdade, os dois escritórios se complementam. A GMP tem grande experiência na área e nós temos a missão de interpretar o universo estético do nosso país, incorporando os valores da cultura e do esporte.

O papel da Gustavo Penna Arquiteto & Associados na parceria seria o de “abrasileirar”, ou talvez o de “mineirizar” o projeto?
Nós aprendemos com Guimarães Rosa que quanto mais profunda nossa essência, mais universal nós somos. A parceria tem o objetivo de harmonizar, de valorizar nossa cultura, assim como ocorreu com a intervenção bem-sucedida no complexo da Pampulha, bem próximo ao estádio. No mundo inteiro os escritórios trabalham em parceria, mas isso ainda não é uma tendência no Brasil.

O Mineirão é um símbolo de Minas Gerais. Como a reforma irá lidar com essa questão?
A carga simbólica do estádio permanecerá inalterada. As intervenções servirão para valorizá-lo ainda mais.

Quais são os principais desafios arquitetônicos da reforma do Mineirão, um estádio de quase 50 anos e construído quase completamente de concreto?
O principal desafio é a releitura dos espaços internos e a atualização do estádio para novos usos. Atualmente, os estádios têm novas demandas de segurança, visibilidade e conectividade. São novos critérios que adaptam o estádio para receber atividades como shows, eventos e outras modalidades esportivas.

Serão utilizados outros materiais?
Nós manteremos os materiais do projeto original, mas procurando sempre mostrar o que é o contemporâneo, o novo.

O aço é outro síbolo de Minas Gerais. Esse elemento estará presente no novo estádio?
Estará presente na nova cobertura interna, que não será visualizada de fora. A estrutura será feita de metais e membranas de policarbonato.

A cobertura do estádio é um dos principais itens de conforto do público. Como está planejada sua construção?
A proposta arquitetônica é nossa e da GMP, mas contratamos a empresa alemã Schlaich Bergermann Und Partner para realizar os cálculos estruturais do sistema de cobertura.

Será preciso grande intervenção para adequar as fileiras das arquibancadas à altura e inclinação exigidas pela FIFA?
A intervenção será grande. O rebaixamento do gramado será feito inteiramente para adequar as fileiras, eliminando os pontos cegos que hoje atrapalham a visibilidade de praticamente 60% dos lugares. Além disso, acrescentaremos camarotes.

A prefeitura prometeu construir estações de metrô nas proximidades do estádio. Existem outros projetos para facilitar o acesso ao Mineirão?
O metrô será complementado com uma linha de ônibus. Serão construídos novos viadutos interligando as principais vias da cidade que formarão um sistema integrado, facilitando o acesso ao estádio e a outros pontos.

Qual será a capacidade do estádio e do novo estacionamento depois da reforma?
O estacionamento terá entre 10 e 15 mil vagas. Já a capacidade do estádio será de 62 mil lugares, um pouco menor que a atual, mas com a vantagem de todos os assentos serem demarcados conforme exige a FIFA.

Neste momento de crise econômica, o senhor vê algum risco de o projeto não conseguir captar investimentos privados e ter que ser bancado com recursos públicos?
Não acredito. Os órgãos estatais já estão sendo procurados por empreendedores internacionais atraídos pela amplitude do projeto. O Mineirão será um grande complexo cultural, esportivo e de lazer, não será apenas futebol.
Os atrativos turísticos e a importância cultural de Belo Horizonte também falam pela cidade. Acredito que o projeto é rentável porque não está sendo pensado de forma ingênua. Prevê a inclusão de clientes potenciais, uma parcela da população afastada do estádio por causa da violência.
Além disso, Belo Horizonte é uma cidade montanhosa, sem praias. Nós, seus habitantes, precisamos criar nossos próprios espaços de convivência e recreação. Precisamos inventar nossas praias.






 
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