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Para que tantos estádios novos?

A propósito do artigo de Juca Kfouri

Os elefantes brancos já estão a caminho...
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Marcos de Sousa
postado em 11/06/2009 17:59 h
atualizado em 12/06/2009 14:35 h

Juca Kfouri, em sua coluna  na Folha de S.Paulo desta quinta-feira, 11 de junho, disse algo que está na cabeça de todos neste Brasil pré-Copa: Para que tantos estádios novos, construídos com dinheiro público, sem que se saiba de sua futura utilidade para o esporte brasileiro no pós-Copa?

Juca lembrou de várias copas do mundo realizadas na Espanha, México, Itália que  tiveram todos os seus jogos realizados em estádios já existentes, alguns com muitas décadas de uso. E nem por isso, esses Mundiais lograram menos sucesso. Apenas nos últimos campeonatos, no Japão/Coréia, em 2002, e Alemanha, em 2006, houve de fato uma mobilização para a construção de novos estádios e restauro de alguns, como o de Berlim, pelo seu valor histórico.

Assim, considerando que o Brasil tem vários estádios de boa qualidade, a pressão da Fifa para tantas remodelações e construções de arenas exclusivas para o futebol não parece lá muito justa com este "país do futebol". Uma pergunta que não quer calar é por que demolir o parque aquático do Maracanã, recentememte modernizado ao custo de 10 milhões de reais? Outra: por que esse capricho de destruir as pistas de atletismo dos estádios em um país que não tem pistas de atletismo?

A Fifa que nos perdoe, mas o Brasil ainda tem uma enorme dívida social a pagar ao seu povo e não queremos ver bilhões de reais desaparecerem na construção de enormes "elefantes brancos". A Copa de 2014 pode ser mesmo uma grande oportunidade para atrair investimentos que viabilizem os projetos de transportes, energia, telecomunicações e turismo que o Brasil de fato necessita. É também uma chance única de mobilizar o país para a promoção social das pessoas. Educação, formação profissional, saúde, saneamento são as palavras-chave neste ponto.

Considerando a inegável importância do futebol brasileiro na popularização do esporte, acho que poderíamos sim "bater o pé" e pedir um pouco de respeito ao país de Carlos Alberto, Pelé, Garrincha, Tostão, Kaká, Roberto Carlos, Romário, Ronaldos etc. etc.

Leia o saboroso texto de Juca Kfouri

“Contarei aqui o que vi. Nada que ninguém tenha me contado. Desde 1982, na Espanha, cubro Copas do Mundo. Nem em Sevilha, nem em Barcelona, cidades onde a seleção brasileira jogou, havia estádios novos. Nem em Madri, palco da final. No México, em 1986, a mesma coisa: nenhum estádio novo. Já na Itália, em 1990, teve um, em Turim, o estádio Delle Alpi. E só.

Nos Estados Unidos, no país mais rico do mundo, em 1994, então, também nenhum, sendo que o Brasil jogou no estádio universitário de Stanford e em campos adaptados para o futebol. Fora os centros de imprensa feitos de madeira pré-moldada.

Na França, em 1998, de novo apenas o Stade de France, no subúrbio de Paris, mas o Parque dos Príncipes foi, naturalmente, usado. Jogou-se, aliás, até no velho campo de Marsella, construído para a Copa do Mundo de... 1938! O que originou um comentário de Ricardo Teixeira: ‘Se aqui pode ter jogo de Copa, o Brasil também pode organizar uma’. E ele tinha toda razão.

Mas, ao que parece, mudou de opinião. É bem verdade que, somente sobre o Maracanã, já mudou de opinião três vezes.

Sim, bem sei que as Copas na Ásia e na Alemanha modificaram comceitos, com a construção de uma porção de arenas, com dinheiro a rodo, modelo que a África do Sul tenta seguir – até porque não tinha estádios que pudessem receber uma Copa. Mas o Brasil tem.

Quando se argumenta, por exemplo, que o Maracanã e Morumbi não têm estacionamentos, são cometidos dois crimes: contra os fatos e contra o meio ambiente. Na Alemanha, era preciso andar muito a pé para chegar a suas modernas arenas. O novíssimo estádio do Arsenal nem estacionamento tem.Tudo de acordo com, estes sim, novos conceitos, de evitar excesso de veículos e seus gases poluentes, para proteger a natureza. O novo Wembley terá um estacionamento que será a metade do que tinha o velho Wembley. Claro, Londres tem mais de 400 quilômetros de metrô, mas é nisso que precisamos pensar para 2014, e não em estacionamentos.

O incrível nisso tudo é ver o governo federal, que pagará a maior parte da conta da eventual Copa do Mundo no país, assistir a tudo calado, como se abrisse mão de influenciar a escolha das cidades e dos locais das partidas. Locais que serão usados, no máximo, para receber três jogos da Copa, evento que dura um mês.

Precisamos mesmo de novos estádios ou de um mínimo de transparência e vergonha na cara?”

Fiz algumas supressões para adequar ao espaço disponível. Mas quando se vê que só em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre não se fala em gastar dinheiro público com estádios, fica a pergunta: valerá a pena fazer a Copa no Brasil? Juro que passo a torcer para que São Paulo, onde vivo, fique de fora.Como gostaria de ver um gesto de altivez do governador paulista e do São Paulo FC mandando a Fifa e a CBF pegar a Copa, enrolar bem enroladinha e enfiar no nariz.

(Publicado no jornal Folha de S.Paulo de 11/06/2009)





 
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