O Morumbi precisa de muitas intervenções para atender às exigências da Fifa?
O Morumbi atende hoje a 84% das exigências da Fifa. O restante foi colocado no caderno do São Paulo que foi entregue à Fifa em 15 de janeiro. Nós colocamos no projeto quais adequações são necessárias, como elas seriam feitas e apresentamos o cronograma. Tudo terminando em dezembro de 2012. Um cronograma tranquilo, porque quando o caderno foi mandado para a Fifa as obras já tinham começado. É claro que por uma estratégia de execução das obras as áreas com maior frequentação pública serão feitas mais para frente. Ou seja, não adianta arrumar toda parte de sanitários para o grande público agora porque em 2012 vai ter que fazer de novo.
O que precisa ser feito?
A área de imprensa. No caderno da Fifa é solicitada uma acomodação para 3.050 jornalistas. Isso começa no ano que vem. Colocaremos todo o cabeamento necessário para televisão, radiofonia, laptops... acho que até 2014 uma série de cabeamentos não serão mais necessários, mas não faz mal, nós vamos projetar como se fosse para hoje. Até o final do ano serão concluídos todos os camarotes do pavimento térreo e a área de circulação. Os camarotes do São Paulo são um orgulho. Nenhum estádio do mundo, nem o Emirates, o Wembley, o Allianz, o Estade de France, nenhum deles tem o camarote que o São Paulo tem. Para 2012, ficarão prontos os camarotes exclusivos da Fifa e todos os sanitários e os bares do estádio.
Em sua palestra no fórum da ESPM sobre a Copa 2014, o senhor disse que algumas reformas do Morumbi seriam revertidas depois da Copa. Quais delas?
A área de imprensa. Em final de Libertadores e jogos nacionais importantes há, no máximo, 200 jornalistas. A Fifa exige espaço para 3.050. Então, cerca de 2.500, um pouco mais, vai voltar para o clube. Nós só terminaremos a parte de imprensa em dezembro de 2012, para a Copa das Confederações e depois para a Copa do Mundo. Elas estão no anel intermediário. Depois esta parte volta para o público. Aí a capacidade, que para a Copa é de 62 mil pessoas, passa para 67 mil.
Também na sua palestra do fórum o senhor disse que o estádio não será fechado durante as reformas. Como isso funcionará?
Isso funciona com uma grande logística. Porque diferentemente dos estádios municipais ou estaduais, como Maracanã e Mineirão, que podem fechar, o Morumbi é um dos únicos estádios particulares que não dá prejuízo. Então para o São Paulo é importante que o Morumbi continue funcionando. E isso exige um bom planejamento.
Torcedores e arquitetos criticam as arquibancadas do Morumbi por ficarem muito longe do campo, atrapalhando a visão do torcedor...
Não atrapalha. Se você pega o caderno da Fifa, ela exige que a distância máxima da balisa de escanteio até o lado oposto do estádio seja 190 metros. Dentro disso, tudo bem.
E o Morumbi tem quantos metros?
Tem 191. Está no limite, mas só falta dizerem que por isso a Fifa está beneficiando o estádio.
"Os camarotes do São Paulo são um orgulho. Nenhum estádio do mundo, nem o Emirates, o Wembley, o Allianz, o Estade de France, nenhum deles tem o camarote que o São Paulo tem"
A inclinação das arquibancadas do Morumbi está dentro do padrão exigido?
Qual a exigência da Fifa? Visibilidade do estádio, qualquer que seja a inclinação da arquibancada. Eu convido qualquer jornalista a dar um passeio pelo Morumbi para ver se há algum lugar sem visibilidade. A visibilidade é total. Há um ano eu visitei rigorosamente todos os pontos do Morumbi e constatei que não há ponto-cego.
Por que o Morumbi não aproxima a arquibancada da área de jogo, como farão o Beira-Rio (Porto Alegre) e a Arena da Baixada (Curitiba)?
Porque o São Paulo teria que demolir o estádio inteiro. Isso está fora de consideração. Se houvesse algum problema para corrigir, tudo bem, mas não tem. Tanto que os camarotes estão todos no pavimento térreo.
Há críticos dos projetos das arenas para a Copa 2014 que dizem que as coberturas não são necessárias para os estádios brasileiros. Elas seriam um modismo, uma cópia dos estádios europeus, que não corresponde à realidade dos clubes brasileiros. Em sua opinião, a cobertura é um item essencial?
Mas e quando chove? A cobertura não é modismo, ela serve para dar conforto ao torcedor. A cobertura do Morumbi é projetada para cobrir 100% do público. Isso é modismo, coisa elitista? Não acho, até porque hoje 70% do primeiro e do segundo lances já são cobertos. O que está descoberto é a parte da “galera”, então vai beneficiar o grande público.
O Morumbi terá a cobertura?
O São Paulo faz todo o esforço para que sim. Não é obrigatória a construção da cobertura. Mas o São Paulo está consciente de que é importante fazer. Ela deve ser construída em dois anos. E faremos de tudo para que o estádio continue funcionando nesse período.
Após as reformas, as despesas de manutenção do estádio aumentarão. Existe alguma estratégia para que o Morumbi arrecade mais?
O uso múltiplo do estádio. Ele não será usado só para os jogos de futebol, que acontecem apenas aos domingos e quartas à noite. Um estádio super utilizado chega a 70 jogos por ano. Não é o caso do Morumbi. Então, o térreo terá os camarotes e uma área de circulação que ficará aberta todos os dias, das 10h às 10h, como se fosse um shopping. Seis ou sete camarotes estão prontos e todos os outros estão comprometidos. Serão usados por empresas, restaurantes, lojas. Até o fim do ano fechamos o anel. Chamamos esse projeto de Morumbi Concept Hall.
"O legado que vai ficar é um estádio que será usado todos os dias da semana. Também o estacionamento, que vai ajudar o estádio em dias de jogos, mas principalmente a cidade"
Qual a solução para melhorar o acesso ao estádio e amenizar o trânsito em dias de jogos?
Há vários tipos de acesso. Tem o público que chega de carro próprio e o público que chega de metrô. Até 2010 será inaugurada a estação Morumbi de metrô, distante 1,1 km do estádio. Quando você tem transporte de massa de qualidade, as pessoas que moram longe do estádio vão para os jogos de metrô, e serão a maioria. Para quem vai de carro próprio, o SPFC está pleiteando junto à prefeitura e ao governo do estado a construção de um estacionamento, numa área desapropriada pela prefeitura há 40 anos em frente à praça Roberto Gomes Pedrosa.
Como será o estacionamento?
O estacionamento aproveitará o desnível da avenida João Jorge Saad, que fica numa parte mais baixa do bairro. As avenidas Giovanni Gronchi e Jules Rimet, que também atravessam a praça, não sofrerão intervenções, pois passarão por dentro do estacionamento. Terá quatro lajes para baixo, com 3.200 vagas. Na cobertura será feito um jardim de 40 mil metros quadrados. Então, temos dois ganhos para a comunidade: são 19 km de carros que normalmente ficam ao redor do estádio atrapalhando a vida dos moradores que agora estarão dentro do estacionamento, e também o jardim.
A Fifa recomenda pelo menos 10 mil vagas para estádios do tamanho do Morumbi. Isso desqualifica o estádio para a abertura da Copa?
Se não tivesse metrô, sim. Mas com o metrô, não, porque se eu moro na Penha e vou ver a Copa, não vou de carro. Eu vou deixar o carro no estacionamento do meu bairro e vou de metrô.
O projeto também prevê a construção de um elevado na avenida João Jorge Saad ligando o metrô ao estacionamento...
É uma alternativa. O trajeto pode ser feito de van, com aquele microônibus usado em Barcelona, ou então as pessoas podem ir a pé, porque na hora que acaba o jogo, aquele tumulto de gente, se as pessoas chegam muito rápido ao metrô ele fica superlotado. Isso a Fifa chama de dissipar o público na saída.
O elevado, que servirá ao estádio, não é uma intervenção muito violenta para um bairro residencial?
Mas não é só para o estádio. Só serve o estádio no domingo e na quarta à noite, o resto do tempo é para servir a comunidade. As pessoas deixam o carro no estacionamento e vão trabalhar de metrô. 90% do uso é para o metrô, não para o estádio.
Essas intervenções estimulam uma mudança de uso no bairro?
Essa já é uma tendência. A João Jorge Saad eu acho que não tem mais nenhuma residência. Há consultórios, escritórios, uma escola. Então tem toda uma misturada de uso e pouquíssimas residências.
Existe alguma alternativa para transformar o Morumbi em um estádio sustentável?
Quando o projeto é novo você pode pensar desde o começo nesses aspectos. O Morumbi é um estádio pronto, que está acostumado com grandes eventos. Quando construirmos a cobertura, ela será adaptada para o reúso de água e captação de energia solar. Mas não com placas fotovoltaicas, que são muito grandes e interferem na leveza da cobertura.
Qual legado a Copa 2014 deixará para a cidade de São Paulo?
O legado que vai ficar é um estádio que será usado todos os dias da semana. Também o estacionamento, que vai ajudar o estádio em dias de jogos, mas principalmente a cidade. Depois, a infraestrutura. O metrô leve que liga o metrô Jabaquara ao aeroporto de Cumbica e outros projetos.