Itamar passa o bastão a Fernando Henrique
Na vida política do país, 1994 seria ano de eleição presidencial, e Fernando Henrique venceria no primeiro turno, com 54% dos votos. Chegava ao fim o mandato tampão de Itamar Franco, político mineiro e vice de Collor que assumira o cargo em 1992, após renúncia do alagoano, por impeachment. A democracia mal se estabelecia, e a esculhambação já se insinuava na política, com o aparecimento de candidatos exóticos: "Meu nome é Enéas", lembram-se?
Do governo Itamar, ficou ainda o plebiscito que reiterou a preferência da população pelo regime presidencialista, contra o parlamentarismo; e a CPI dos "anões do orçamento", que investigou o envolvimento de parlamentares em esquemas de corrupção. Bem, e após Itamar deixar o cargo, mais um fato difícil de apagar: no carnaval de 1994, o ex-presidente foi fotografado ao lado da modelo Lílian Ramos (sem calcinha) nos camarotes da Marquês de Sapucaí. A moça era destaque da Viradouro, e foi cumprimentar o presidente após o desfile, vestida só com de camiseta; deu as mãos a Itamar e, distraída, levantou os braços. Pronto...a foto indiscreta saiu em todas os revistas e jornais.
Mas a estrela do governo Itamar Franco foi seu terceiro ministro da Fazenda, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. O Plano Real derrubou a inflação e, com este feito, ele derrotou o petista Lula nas eleições. Não é para menos: a alta dos preços atingia patamares do insuportável. Em 1990, o índice acumulado do ano anterior era 1.782,90%; em 1994, o acumulado de 1993 chegava a 2.780,6%!!! A nova moeda, o Real, em paridade com o dólar, baixou a inflação para 14,7% em 1995 e 1,7%, em 1999.
Estabilidade e privatizações
O Plano trouxe aumento do poder aquisitivo, mas no curto prazo. Hoje se sabe, e na época os economistas já previam, que o processo recessivo se engendrava ali, trazendo enorme desemprego. Mas no momento, a popularidade de FHC permitia articular sua candidatura pelo PSDB. As privatizações e o desemprego, filhos do neoliberalismo, estavam em curso desde o governo de Fernando Collor. Os trabalhadores, com as centrais sindicais CUT e CGT à frente, iam de greves a manifestações em todo o país. Para repudiar o Plano Real, estudantes protestaram e foram reprimidos em Brasília, e uma greve é convocada. Telefônicos, petroleiros, metalúrgicos, funcionários dos Correios, bancários e muitos outros fizeram greves durante o ano de 1994. Em dezembro, a fábrica de aviões Embraer era privatizada.
Também na Argentina 50 mil partiam em marcha contra o neoliberalismo. No México, o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) era vendido como a salvação para a economia mexicana. O neoliberalismo e a globalização avançavam no mundo. Na política internacional, nem tudo era desalentador, e os presidentes Bill Clinton (EUA) e Boris Yeltsin (Rússia) selavam acordo para o desmantelamento das armas nucleares. Mas 1994 seguia sendo um ano de contrastes. Na África, de um lado tínhamos o líder negro Nelson Mandela assumindo a presidência da África do Sul, com o fim do apartheid. De outro, ficaria na memória o genocídio em Ruanda, um dos maiores massacres da história, com a morte de 800 mil, a maioria da etnia tutsi.