A falta perto da área se transformava em um martírio para o goleiro. Pouca distância, cara fechada e chute seco. Um míssil. Desses que explodiam em um grito único da torcida. O gol era quase certo quando Roberto Rivellino ajeitava a bola. Impiedoso, partiu da sua perna esquerda a bomba que balançou as redes do estádio Jalisco, México, pela primeira vez na Copa de 1970. Na campanha do tri ainda fez gols contra o Peru e o Uruguai. Em 74, marcou contra o Zaire, Argentina e Alemanha Oriental. Quatro anos depois, na Argentina, uma lesão no jogo inicial o impediu de jogar algumas partidas. Nem precisava. A figura mítica do craque de dribles elásticos já bastava para aquela seleção moralmente campeã.
Em seus 10 anos de seleção brasileira, Rivellino fez 122 jogos e 43 gols. O craque estreou em 1965, em Londres, contra o Arsenal. Cinco dias depois já estava no Pacaembu na vitória brasileira sobre a Hungria por 5 a 3. Porém, segundo o próprio Rivellino, sua história com a camisa amarela começou em 1968. “Foi contra o Uruguai, no Pacaembu, na despedida do Djalma Santos, que a minha vida na seleção brasileira começou de verdade”. Nesta entrevista, o craque do Corinthians e do Fluminense revela detalhes da sua gloriosa carreira na seleção e histórias das três Copas do Mundo que disputou. Além disso, analisa a atual equipe brasileira e diz que ainda é muito cedo para pensar no time de 2014.
Como aconteceu a primeira convocação, em 1965?
Eu tive a oportunidade de subir para o profissional muito rápido. Era para eu ter disputado um campeonato juvenil e de repente me chamaram para a seleção principal. Teve o jogo contra o Arsenal, em Londres. Depois foi contra a Hungria no Pacaembu, enquanto a seleção principal jogava no Maracanã contra a União Soviética, a gente jogava aqui. Fizemos um jogo fantástico e ganhamos por 5 a 3.
Foi a partir de 68 que você começou a ser chamado constantemente e fez seus primeiros gols. Como tudo isso ocorreu?
Foi contra o Uruguai, no Pacaembu, na despedida do Djalma Santos, que a minha vida na seleção brasileira começou de verdade. Fomos então jogar no exterior. Contra a Alemanha perdemos de 2 a 1. O Aymoré (Moreira) então fez um meio-campo totalmente diferente, recuou o Gérson, me colocou como meia e Tostão na frente, três canhotos. Fiz dois gols contra a Polônia. Foi uma excursão maravilhosa, pois me firmei no time.
Mesmo com 20 anos, você tinha esperanças de disputar a Copa de 1966?
Sim, eu estava bem, todo mundo falando de mim. O Edu era mais novo, tinha 16 anos e foi chamado. Eu era um pouco mais velho, podia ter ido, mas foi opção do (Vicente) Feola. Teve aquele papo de que eu ainda tinha tempo para jogar outras Copas.
Como o grupo de 1970 recebeu a troca do Saldanha pelo Zagallo?
Eu achava que o Saldanha ia continuar, pelo trabalho nas eliminatórias. Mas para mim foi importante sua saída, pois tive a oportunidade de jogar. No time dele eu não jogaria, pois ele trabalhava com dois pontas abertos. O Edu, que nas eliminatórias foi considerado o melhor jogador, perdeu espaço com o Zagallo.
"Até hoje, se o Brasil jogar uma final contra o Uruguai, falarão: lembra de 50? A crônica esportiva brasileira tem esse problema"
Contra o Uruguai, na semifinal de 1970, houve receio de que a história de 1950 se repetisse?
Até hoje, se o Brasil jogar uma final contra o Uruguai, falarão: lembra de 50? A crônica esportiva brasileira tem esse problema. Naquele jogo de 70, a qualidade da equipe do Uruguai era boa e o gol do Clodoaldo foi importantíssimo. Virar o jogo perdendo é uma coisa. Empatamos e voltamos para o jogo. Depois, com mais tranquilidade e com superioridade técnica conseguimos vencer.
Em 1974, o que faltou à seleção?
Uma semana antes da Copa, o Zagallo montou uma equipe com Clodoaldo, Jair, Leivinha, César, eu e o Paulo César Caju. O Leivinha se machucou, o César não estava bem e perdemos o Clodoaldo. Na Copa jogaram Valdomiro, Paulo César, Jair, eu e Dirceu. O Zagallo também não acreditou no Ademir da Guia. Ele podia ter jogado ao meu lado.
O time foi melhorando durante a Copa. Até acho que chegamos longe demais por esses problemas todos.
Então, nessa equipe, o Paulo César Caju foi seu maior companheiro de meio-campo?
Sim, ele era um jogador fantástico. Era moderno, jogava no meio, na ponta. Tinha facilidade, inteligência, toque de bola. Eu me dei muito bem com ele. Na seleção e depois, no Fluminense, em uma fase fantástica.
Como foi aquele gol de falta incrível contra a Alemanha Oriental? Teve algum ensaio com o Jairzinho?
Eu tinha facilidade para bater na bola, não precisava de distância e por isso os goleiros sempre achavam que eu iria lançar por cima da barreira. Mas eu batia no canto, no contra-pé. Contra a Alemanha Oriental, o Jair ficou no meio da barreira e eu fui muito feliz, peguei bem na bola justamente em cima do Jair, que se abaixou. A bola foi tão rápida que bateu na rede e voltou para fora da área. Mas se eu disser que chutei de propósito, ali no buraco, é mentira.
O Brasil entrou muito cauteloso para o jogo contra a Holanda na derrota por 2 a 0?
Perdemos dois gols no primeiro tempo, com o Paulo e o Jair. O jogo seria outro se a bola entrasse. Eles respeitaram muito Brasil, não jogaram da mesma forma do que contra a Argentina. Porque também sabíamos a maneira que eles jogavam. A Holanda merecia ser a campeã do mundo com aquele futebol dinâmico e fantástico.
Assim como o Paulo César Caju (que se transferiu para o Olimpique de Marseille), você recebeu alguma proposta do exterior depois da Copa?
Tive uma proposta somente quando estava no Fluminense. O Real Madrid quis me contratar depois de um jogo em Paris (vitória por 3 a 1 contra a seleção da Europa, em 76). Mas o presidente Horta não quis me vender.
Por que você jogou tão pouco na Argentina, em 1978?
Tive uma contusão contra a Suécia e voltei aos poucos durante a competição. Mas aquela Copa foi uma vergonha, foi programada para uma seleção ser campeã. Se a gente ganhasse de seis da Polônia, a Argentina ganharia de 10 do Peru. Foi minha última Copa e não tive oportunidade de jogar. Fiquei frustrado e triste, porque me preparei para ela.
"Futebol é momento. Pode ser que em 2014 o Neymar e Robinho não estejam bem. A qualidade e condição de trabalho do clube é o que leva à seleção. Você joga, aparece e é lembrado. Em quatro anos acontece muita coisa. O Brasil é um país em que sempre surgem grandes jogadores. A Copa de 2014 é outro papo, outra cabeça"
Para 2010, quem você considera indispensável no grupo da Copa?
O que o Neymar está jogando... Não se pode descartar um jogador desses. Ele pode entrar e em 20 minutos fazer a diferença. A seleção não tem um jogador assim...ela está muito burocrática. Eu também não descartaria o Ronaldinho Gaúcho. Em um lance ele também pode decidir. A seleção só tem jogadores táticos. O Brasil sempre teve craques que desequilibraram em Copas. O Dunga tem a cabeça dele e não abre mão de alguns atletas. É uma opção e esperemos que dê certo.
Quem poderá jogar a Copa de 2014?
Futebol é momento. Pode ser que em 2014 o Neymar e Robinho não estejam bem. A qualidade e condição de trabalho do clube é o que leva à seleção. Você joga, aparece e é lembrado. Em quatro anos acontece muita coisa. O Brasil é um país em que sempre surgem grandes jogadores. A Copa de 2014 é outro papo, outra cabeça.