Comparada com a agitação política que sacudiu o Brasil em 1978, pode-se dizer que a Copa do Mundo na Argentina, e o terceiro lugar conquistado pela seleção brasileira (Leia mais), ficaram em segundo plano na importância histórica e na atenção dispensada pelos brasileiros à época. Afinal, 1978 não foi um ano comum: a data marca a volta das greves operárias e da consolidação dos movimentos sociais que seguiram crescendo ano a ano e levaram ao fim da ditadura e ao processo de redemocratização do país, concluído em 1984.
Braços cruzados, máquinas paradas
Em 12 de maio de 1978, ocorre a greve dos três mil metalúrgicos da Scania, em São Bernardo do Campo, um marco de toda essa história. Naquele dia, os trabalhadores entraram na fábrica às seis da manhã, mas não ligaram as máquinas. Era a primeira greve que acontecia em dez anos, desde 1968, quando a repressão da ditadura chegou ao máximo de promulgar o AI 5, o mais autoritário dos atos decretados pelo regime.
A greve da Saab-Scania ficou conhecida como a dos “Braços cruzados, máquinas paradas”. Ela deflagrou uma série de outras paralisações nas fábricas do ABC (Mercedes Benz, Ford, Volkswagen) e a seguir, funcionou como um rastilho, espalhando novas greves e mobilizações de milhões de trabalhadores por mais de dois anos seguidos. Além de reajustes salariais, os trabalhadores brigavam por direitos políticos e participação democrática. Em abril de 1979, um novo avanço foi a greve geral dos metalúrgicos do ABC, a primeira de uma categoria desde 1964. Grandes assembléias lotavam o estádio da Vila Euclides, onde despontava a liderança de Lula e de onde surgiriam as bases para a formação do Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980. A partir daí, centenas de movimentos grevistas pipocaram entre operários, funcionários públicos, bancários e trabalhadores de todas as áreas, em todo o país.
Resistência à ditadura
A eclosão do movimento operário, com as greves no ABC, foi antecedida pelos movimentos de resistência que vinham abrindo espaço de manifestação, sobretudo o movimento estudantil, que renasce em 1977, com greves, passeatas e atos públicos por liberdades democráticas por todo o país. Mas a gota d'água, pode-se dizer, que levou a sociedade a reagir ao estado de letargia e medo vigentes foi o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões do Doi-Codi, no final de 1975, seguida, em janeiro de 1976, da morte do operário Manuel Fiel Filho. Assim, já em 1976 o movimento estudantil universitário e secundarista começava a organizar-se para retomar suas entidades, lutando pelo ensino público e gratuito e por liberdades. Mas a ditadura estava em pé e, em abril de 1977, Geisel fechava o Congresso Nacional. Jornais independentes, como o Movimento, Opinião, Lampião, Versus, Beijo e Avesso surgiram por todos os cantos do país, numa tentativa de romper o véu da censura à liberdade de opiniao. Artes plásticas, ciência, psicanálise, homosexualsmo, música, literatura e muita política preenchiam as páginas desses tablóides pós-Pasquim.
Invasão da PUC
Na noite de 22 de setembro de 1978, dois dias após a tentativa de realização do Encontro Nacional de Estudantes para a fundação da UNE, o campus da Universidade Católica de São Paulo foi invadido pela tropa de choque da polícia militar. Cerca de 2 mil estudantes ali reunidos foram presos, numa ação comandada pelo secretário de segurança, o coronel Erasmo Dias, que encetava uma verdadeira batalha contra o que declarava serem "os subversivos infiltrados no meio estudantil". O corre-corre dos estudantes foi geral, e o clima de terror instaurado pelos policiais tomou conta do local, com vários estudantes feridos. Mais de mil estudantes foram detidos e 700 deles foram levados ao quartel da Rota e à sede do Dops, acrônimo que significava Departamento de Ordem Política e Social. Mas as pressões e moblizações continuaram por todo o país e a ditadura cedia. Pressionado pela força dos movimentos sociais, em 30 de dezembro de 1978 Geisel revogava o AI 5.
Anistia política
Em agosto de 1979, após uma série de campanhas e manifestações de rua, o general João Batista de Figueiredo assinou a Lei n° 6.683, a chamada Lei da Anistia, que permitiu o retorno à vida social de centenas de presos políticos além do retorno de políticos perseguidos, exilados em outros países. O Brasil perdera a Copa de 1978, mas ganhava um possível caminho para a democracia.