Futebol e ditadura
O ano de 1970 traz à memória coletiva uma estranha associação entre os tempos do "melhor futebol do mundo" e arepressão política, quando muitos foram torturados nos porões da ditadura, enquanto se propagavam lemas como "país do futuro", "Brasil, ame-o ou deixe-o" e "este é um país que vai pra frente".
De um lado, o futebol instigava nos brasileiros sentimentos de alegria, otimismo e fé no futuro. De outro, o mesmo futebol era utilizado como instrumento de controle político-ideológico pela ditadura militar.
No comando do país, estavab o general Emílio Garrastazu Médici, considerado o mais repressivo governo da história do Brasil República. Enquanto governou, de outubro de 1969 a março de 1974, Médici executou à risca a tarefa dos militares de eliminar movimentos sociais e a guerrilha urbana e rural. Pessoas eram arrancadas de suas casas e sumiam, e o máximo que se ouvia eram sussuros. De outro lado, a desinformação desses fatos pela maioria da população era quase total. Em novembro do ano anterior, o decreto do Ato Institucional nº 5 havia consolidado a 'linha dura' do regime, dando poderes absolutos aos militares e suspendendo todas as garantias constitucionais. Um filme que ajuda a entender um pouco do que foi esse período é "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (Brasil, 2006), do diretor Cao Hamburguer.
Naqueles 'anos de chumbo', quem se encarregava da repressão era o ministro do Exército Orlando Geisel, que sucedeu Médici no governo. Eram também anos do 'milagre econômico', como ficou conhecido o período entre 1969 e 1973, em que houve grande crescimento econômico, à custa do aumento da concentração da renda e da pobreza. No comando da economia, estava Delfim Neto, aquele mesmo que após a ditadura prosseguiu na vida política, sendo eleito sucessivas vezes deputado federal pelo PPS.
Rock e tropicalismo
Eram tempos do fusca, da minissaia, da calça boca-de-sino; a moeda era o cruzeiro. A classe média prosperava, e com ela aumentava o consumo de bens duráveis, como geladeira e televisão. Na telinha, quem liderava a audiência nas tardes de sábado era Chacrinha, o velho guerreiro, que "buzinava a moça", e atirava bacalhaus e abacaxis para a platéia da TV Globo.
O mundo girava mais rápido... Em junho de 1969 o homem chegava à lua e, no mês seguinte, nos EUA, 500 mil jovens se reuniam para celebrar a vida, o amor, sexo, drogas e o rock and roll, no festival de Woodstock, marco do movimento hippie. O ano de 1970, contudo, também traria perdas importantes: em março, os Beatles anunciavam o fim do grupo; em setembro, morria o guitarrista Jimi Hendrix e em outubro, a cantora Janis Joplin, vítima de overdose de heroína.
A mudança comportamental, que faria da década de 70 uma era revolucionária, também no Brasil era sentida, é verdade que um tanto mais lentamente considerando o conservadorismo da época. Mas já tinha seus ícones na música e na postura irreverente dos jovens artistas do Tropicalismo, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, além de Novos Baianos, Jorge Ben e outros. Caetano e Gil sofriam nas mãos da ditadura: presos em dezembro de 1968, ficaram exilados de 70 a 72 na Inglaterra. Nessa época, Caetano compõe London, London e outros sucessos, e envia artigos para o tabloide carioca O Pasquim. Criado em 1969, o Pasquim, antes de se tornar mais político, servindo de porta-voz da oposição ao regime militar, funcionou no início como espaço para o livre debate de temas tabus como sexo, drogas, feminismo e divórcio.