bullet Notícias

Todos juntos vamos, pra frente Brasil....

A Copa do Tri, no auge da repressão militar

Brasil, Ame-o ou Deixe-o. Crianças, entre tanques e amor à pátria
Tamanho da letra
Regina Rocha
postado em 17/02/2010 15:23 h
atualizado em 20/04/2011 18:24 h

Nunca uma final de Copa do Mundo foi tão comemorada pela população, e com tanta emoção, como a do México em 1970, quando o Brasil conquistou o Tri. Aqui, como lá, de todas as partes multidões tomavam as ruas, pulando, chorando, cantando, fazendo o maior carnaval. Na chegada da seleção, o governo decretou ponto facultativo nas repartições públicas, os jogadores desfilaram em carro aberto pelas ruas do Rio de Janeiro e São Paulo, e as comemorações duraram quase uma semana.

Naquele início dos anos 70, jogadores como Pelé, Tostão e Rivelino levavam os brasileiros ao delírio, e mesmo quem não viveu aqueles dias ouviu falar de como uma nação inteira entoava, ad nauseam, o refrão: “Todos juntos vamos/Pra frente Brasil, Brasil/Salve a seleção...”, enquanto acompanhava os jogos pelo rádio e pela televisão. A transmissão pela tevê já era ao vivo, via satélite, mas ainda em preto e branco. Apenas uns poucos, convidados do governo militar, assistiram aos jogos em cores, em sessão fechada, de caráter experimental, organizada pela Embratel.

Como se disse, o futebol brasileiro apaixonava também o México. Durante todo o tempo, torcida e imprensa mexicanas dispensavam enorme carinho à seleção, até para surpresa dos brasileiros ali presentes. Um testemunho deste clima fraterno entre mexicanos e brasileiros está no livro Confissões de um Torcedor, do jornalista, compositor, agitador cultural e ainda futebólere Nelson Motta. Em 1970, o jovem Nelsinho é destacado para cobrir o evento para o jornal Última Hora, a pedido do diretor Samuel Wainer.

O trecho reproduzido abaixo mostra a euforia dos torcedores, mas também detalhes que ajudam na reconstitução daquela época:
"O Brasil dava shows de futebol em campo, a torcida arrebentava nas ruas, Wilson Simonal superlotava os maiores e mais luxuosos night clubs mexicanos, tudo conspirava a favor. Naqueles dias de calor e felicidade, desde o primeiro jogo, pela cabeça de ninguém passava a possibilidade de o Brasil não ser campeão. Mas ninguém imaginava que tudo seria tão grande e tão bonito. Era tudo baratíssimo no México, tudo muito quente e lento, nas ruas de Guadalajara uma gente meio feiosa mas simpática saía da melancolia e se animava nos carnavais brasileiros".

E prossegue o jornalista, antenas ligadas também nos bastidores da festa: "Depois da final consagradora, na celebração da vitória numa suíte de um dos hotéis mais chiques da Cidade do México, vi fascinado várias grã-finas cariocas disputando para ver quem dava primeiro para Jairzinho e Paulo César Caju".

O general Medici recebe a seleção campeã em Brasília (crédito: Arquivo Público Estado de SP)

Futebol e ditadura
O ano de 1970 traz à memória coletiva uma estranha associação entre os tempos do "melhor futebol do mundo" e arepressão política, quando muitos foram torturados nos porões da ditadura, enquanto se propagavam lemas como "país do futuro", "Brasil, ame-o ou deixe-o" e "este é um país que vai pra frente".

De um lado, o futebol instigava nos brasileiros sentimentos de alegria, otimismo e fé no futuro. De outro, o mesmo futebol era utilizado como instrumento de controle político-ideológico pela ditadura militar.

No comando do país, estavab o general Emílio Garrastazu Médici, considerado o mais repressivo governo da história do Brasil República. Enquanto governou, de outubro de 1969 a março de 1974, Médici executou à risca a tarefa dos militares de eliminar movimentos sociais e a guerrilha urbana e rural. Pessoas eram arrancadas de suas casas e sumiam, e o máximo que se ouvia eram sussuros. De outro lado, a desinformação desses fatos pela maioria da população era quase total. Em novembro do ano anterior, o decreto do Ato Institucional nº 5 havia consolidado a 'linha dura' do regime, dando poderes absolutos aos militares e suspendendo todas as garantias constitucionais. Um filme que ajuda a entender um pouco do que foi esse período é "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (Brasil, 2006), do diretor Cao Hamburguer.

Naqueles 'anos de chumbo', quem se encarregava da repressão era o ministro do Exército Orlando Geisel, que sucedeu Médici no governo. Eram também anos do 'milagre econômico', como ficou conhecido o período entre 1969 e 1973, em que houve grande crescimento econômico, à custa do aumento da concentração da renda e da pobreza. No comando da economia, estava Delfim Neto, aquele mesmo que após a ditadura prosseguiu na vida política, sendo eleito sucessivas vezes deputado federal pelo PPS.

Rock e tropicalismo
Eram tempos do fusca, da minissaia, da calça boca-de-sino; a moeda era o cruzeiro. A classe média prosperava, e com ela aumentava o consumo de bens duráveis, como geladeira e televisão. Na telinha, quem liderava a audiência nas tardes de sábado era Chacrinha, o velho guerreiro, que "buzinava a moça", e atirava bacalhaus e abacaxis para a platéia da TV Globo.

O mundo girava mais rápido... Em junho de 1969 o homem chegava à lua e, no mês seguinte, nos EUA, 500 mil jovens se reuniam para celebrar a vida, o amor, sexo, drogas e o rock and roll, no festival de Woodstock, marco do movimento hippie. O ano de 1970, contudo, também traria perdas importantes: em março, os Beatles anunciavam o fim do grupo; em setembro, morria o guitarrista Jimi Hendrix e em outubro, a cantora Janis Joplin, vítima de overdose de heroína.

A mudança comportamental, que faria da década de 70 uma era revolucionária, também no Brasil era sentida, é verdade que um tanto mais lentamente considerando o conservadorismo da época. Mas já tinha seus ícones na música e na postura irreverente dos jovens artistas do Tropicalismo, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, além de Novos Baianos, Jorge Ben e outros. Caetano e Gil sofriam nas mãos da ditadura: presos em dezembro de 1968, ficaram exilados de 70 a 72 na Inglaterra. Nessa época, Caetano compõe London, London e outros sucessos, e envia artigos para o tabloide carioca O Pasquim. Criado em 1969, o Pasquim, antes de se tornar mais político, servindo de porta-voz da oposição ao regime militar, funcionou no início como espaço para o livre debate de temas tabus como sexo, drogas, feminismo e divórcio. 






 
nosso time
realização
Mandarim Comunicação
realização
Sinaenco - Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva
tecnologia e criação
XY2 - Agência Digital
hosting
Telium Networks
segurança da informação
LSI TEC - Laboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico
 
patrocínio
Lanxess
ArcelorMittal
Gerdau
Resolução Mínima de 1024x768 - © Copyright 2009 copa2014.org.br Todos os direitos reservados.