No início, muita gente no Brasil não se deu conta do longo e sombrio período que se seguiria àquele golpe militar de 64. Mas logo intelectuais, operários, estudantes, artistas e outros setores sociais passaram a reagir à truculência do novo regime, que se apoiava em enxurradas de Atos Institucionais e emendas para cassar mandatos (inclusive de personalidades como Jânio Quadros, João Goulart e Juscelino Kubitschek), suspender direitos políticos, dissolver partidos e instituir eleições indiretas, primeiro para presidente e depois para governador. Em apenas dois anos, já estávamos nos AIs números 3 e 4, baixados seguidamente em 1966. Também não dá para esquecer que, mais dois anos, chegaria 1968 e os "anos de chumbo" da ditadura, com mais prisões, torturas, perseguições, censura... mas esta é outra história.
O fechamento político, curiosamente, não impedia a juventude de começar a "viver o seu tempo". Os jovens ganhavam espaço na mídia, impunham sua música, elegendo o rock e a guitarra elétrica; uma moda que rompia tabus, com o surgimento da minissaia e dos cabelos compridos etc. Beatles lá fora, a Jovem Guarda aqui...
É uma brasa, mora!
Lógico que ainda havia muita ingenuidade no que queria aquela turma que subia ao palco da TV Record, em São Paulo, em setembro de 1965. Afinal, o programa da Jovem Guarda, que ficou no ar até 1968, tinha um público muito jovem, adolescente, e as preferências eram namoros, carrões, alta velocidade, caras bonitos e garotas legais etc... Roberto Carlos liderava a Jovem Guarda, ao lado dos amigos Erasmo Carlos, o tremendão, e Wanderleia, a ternurinha, e de diversos outros ídolos do iê-iê-iê. Em 1966, no programa do Chacrinha, o velho guerreiro, Roberto seria conduzido ao trono e seria coroado "rei da jovem guarda".
Nesse tempo de reis, quem passava maus bocados era o rei Pelé, vítima preferencial das duras faltas cometidas contra nossos jogadores na frustrante Copa de 66, na Inglaterra, aquela que tentou proibir o cafezinho brasileiro, tachado de estimulante. Meses antes porém, em abril, o clima era de "já ganhamos o Tri". Foi quando apareceu nas bancas o primeiro número da revista Realidade, com Pelé na capa usando o chapéu preto de veludo da guarda da rainha Elizabeth.
Por falar na Realidade, uma marca da publicação era ousar, abordando temas-tabus. Por isso, em dezembro de 1966 a polícia entrou na gráfica da editora Abril, e apreendeu a edição que estava sendo impressa, com a alegação de que o conteúdo - que trazia depoimentos de uma mãe solteira e fotos inéditas de um parto - "atentava contra a moral e os bons costumes". Todos se lembram destes termos, tão característicos do jargão da ditadura.
Aliás, moralistas eram as telenovelas da época, e também bem "açucaradas". Como a novela Redenção, que durou de 1966 a 1968, e que até hoje não perdeu o título da mais longa novela da teledramaturgia nacional, com 596 capítulos! Foi transmitida pela TV Excelsior, emissora que sofreu pressões da ditadura (o que levou a endividamentos), e foi atingida por dois incêndios: um em 1966 e outro em 1969/70, que destruiu seus estúdios, fechando a emissora. Além das novelas, a Excelsior realizou dois festivais de música popular, formato de enorme sucesso nos anos 60.