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Jovem Guarda, festivais de MPB e a vida sob ditadura militar

Em 1966, Roberto Carlos e Pelé eram 'reis'. Mas no Brasil, o que avançava era a repressão política

Roberto Carlos no programa Jovem Guarda, da TV Record
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Regina Rocha
postado em 29/01/2010 12:45 h
atualizado em 30/01/2010 20:52 h

No início, muita gente no Brasil não se deu conta do longo e sombrio período que se seguiria àquele golpe militar de 64. Mas logo intelectuais, operários, estudantes, artistas e outros setores sociais passaram a reagir à truculência do novo regime, que se apoiava em enxurradas de Atos Institucionais e emendas para cassar mandatos (inclusive de personalidades como Jânio Quadros, João Goulart e Juscelino Kubitschek), suspender direitos políticos, dissolver partidos e instituir eleições indiretas, primeiro para presidente e depois para governador. Em apenas dois anos, já estávamos nos AIs números 3 e 4, baixados seguidamente em 1966. Também não dá para esquecer que, mais dois anos, chegaria 1968 e os "anos de chumbo" da ditadura, com mais prisões, torturas, perseguições, censura... mas esta é outra história.

O fechamento político, curiosamente, não impedia a juventude de começar a "viver o seu tempo". Os jovens ganhavam espaço na mídia, impunham sua música, elegendo o rock e a guitarra elétrica; uma moda que rompia tabus, com o surgimento da minissaia e dos cabelos compridos etc. Beatles lá fora, a Jovem Guarda aqui...

É uma brasa, mora!
Lógico que ainda havia muita ingenuidade no que queria aquela turma que subia ao palco da TV Record, em São Paulo, em setembro de 1965. Afinal, o programa da Jovem Guarda, que ficou no ar até 1968, tinha um público muito jovem, adolescente, e as preferências eram namoros, carrões, alta velocidade, caras bonitos e garotas legais etc... Roberto Carlos liderava a Jovem Guarda, ao lado dos amigos Erasmo Carlos, o tremendão, e Wanderleia, a ternurinha, e de diversos outros ídolos do iê-iê-iê. Em 1966, no programa do Chacrinha, o velho guerreiro, Roberto seria conduzido ao trono e seria coroado "rei da jovem guarda".

Nesse tempo de reis, quem passava maus bocados era o rei Pelé, vítima preferencial das duras faltas cometidas contra nossos jogadores na frustrante Copa de 66, na Inglaterra, aquela que tentou proibir o cafezinho brasileiro, tachado de estimulante. Meses antes porém, em abril, o clima era de "já ganhamos o Tri". Foi quando apareceu nas bancas o primeiro número da revista Realidade, com Pelé na capa usando o chapéu preto de veludo da guarda da rainha Elizabeth.

Por falar na Realidade, uma marca da publicação era ousar, abordando temas-tabus. Por isso, em dezembro de 1966 a polícia entrou na gráfica da editora Abril, e apreendeu a edição que estava sendo impressa, com a alegação de que o conteúdo - que trazia depoimentos de uma mãe solteira e fotos inéditas de um parto - "atentava contra a moral e os bons costumes". Todos se lembram destes termos, tão característicos do jargão da ditadura.

Aliás, moralistas eram as telenovelas da época, e também bem "açucaradas". Como a novela Redenção, que durou de 1966 a 1968, e que até hoje não perdeu o título da mais longa novela da teledramaturgia nacional, com 596 capítulos! Foi transmitida pela TV Excelsior, emissora que sofreu pressões da ditadura (o que levou a endividamentos), e foi atingida por dois incêndios: um em 1966 e outro em 1969/70, que destruiu seus estúdios, fechando a emissora. Além das novelas, a Excelsior realizou dois festivais de música popular, formato de enorme sucesso nos anos 60.

Castelo Branco, o 1º ditador, preside parada militar no RJ em 1966 (crédito: Tribuna/Arquivo ABI)

A era dos festivais
Depois de lançar o primeiro festival de música, em 1960, a TV Record voltaria a fazer o 2º Festival da MPB só em setembro/outubro de 1966. É quando Chico Buarque, cantando "A Banda" junto com Nara Leão, divide o primeiro lugar com "Disparada", de Geraldo Vandré e Theo de Barros, na voz de Jair Rodrigues.

Bem, um ano antes, em abril de 1965, outra emissora, a TV Excelsior, aproveitando aquela ideia abandonada há tanto tempo pela Record, realiza o seu 1º Festival Nacional da MPB, em abril de 1965. Vence "Arrastão", composição de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, na voz de Elis Regina. Ainda antes do segundo festival da Record, em junho de 1966 a Excelsior leva ao ar o seu 2º Festival, com Geraldo Vandré emplacando a (esquecida) canção "Porta-estandarte". Nesse festival, já podemos ver presentes futuras estrelas como Baden Powell e Milton Nascimento (4º lugar) e Caetano Veloso (5º lugar), por exemplo.

Mas os festivais da Record seriam o principal celeiro dos novos artistas, e já em 1966 subiam ao palco Gilberto Gil, Paulinho da Viola, MPB-4 e muitos outros. Também em 1966 surgia o FIC, Festival Internacional da Canção (realizado até 1972), transmitido do Maracanazinho pela TV Rio. O festival acontecia em duas etapas, sendo que a nacional foi vencida por "Saveiros", de Dori Caymmi e Nelson Motta, na voz de Nana Caymmi.

Vietnã, Mao Tsé-Tung e Beatles
Enquanto fazíamos festivais, lá fora os Beatles faziam seu último show, no estádio Candlestick Park, em São Francisco -EUA. Depois disso, eles mergulharam na vida de estúdios e produziram obras antológicas, como o Sgt. Peppers. Só voltaram a tocar ao vivo em 1969, no terraço da gravadora Apple. Mas o mundo fervia naqueles anos, nas artes, ns ciências e na política.

No inicío de fevereiro de 1966, a sonda soviética Luna 9, sem tripulantes, faz a primeira descida suave na lua. Aqui na Terra os conflitos eram muitos: Mao Tsé-Tung iniciava a Revolução Cultural na China, utilizando de expurgos e perseguições para impor a política nacionalista. No campo ocidental, os Estados Unidos enviavam tropas para o Vietnã, tornando a guerra iniciada em 1959 mais e mais dramática a cada dia. Na América do Sul, greves gerais de trabalhadores paravam o Chile e o Uruguai, mostrando a força da resistência contra os regimes autoritários.

No Brasil, os estudantes assumem a luta contra a ditadura. No dia 22 de setembro, a polícia militar invade a Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro e prende 600 estudantes que realizavam o Dia Nacional da Luta contra a Ditadura, organizado pela UNE. O episódio fica conhecido como "massacre da Praia Vermelha". A situação só iria piorar: Costa e Silva era eleito presidente em outubro, mandatos de vários deputados federais eram cassados e o congresso posto em recesso por um mês.





 
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