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O Brasil, no tempo do bi de 1962

A bossa nova chegava aos EUA e as Havaianas surgiam no Brasil

Turma do Pererê, em capa que saiu às vésperas da Copa de 1962
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Regina Rocha
postado em 19/01/2010 19:10 h
atualizado em 20/01/2010 16:58 h

O Brasil comemorava o título de bicampeão na Copa de 1962, conquistado meses antes, e a grande estrela do torneio, ninguém duvidava, tinha sido o genial Garrincha, com seu futebol irreverente, ousado e criativo. Mas, se era idolatrado nos campos, quando o assunto envolvia sua vida pessoal, esta era tratada na imprensa em tons maldosos e preconceituosos.

Em outubro, por exemplo, a Revista do Rádio (revista de 'fofocas' da época) alfinetava: "...o craque, sempre doido por um rabo-de-saia, tem rodado a cidade ao lado da cantora Elza Soares, com quem já tinha sido visto algumas vezes durante a Copa do Chile. Garrincha, que é casado, desmente a fofoca (...) Pelo que se sabe do histórico amoroso do jogador, a última coisa em que Garrincha anda pensando é na zaga do Flamengo...". 

Já no cenário político, nacional e internacional, assuntos bem mais sérios agitavam aquele início de anos 60. A tentativa frustrada dos Estados Unidos de invadir Cuba era a manchete principal. Rechaçado pelos cubanos, o ataque à Baía dos Porcos vinha acompanhado do bloqueio comercial dos EUA à ilha de Fidel. Como ainda não tinha acontecido o golpe militar, respirava-se no Brasil alguma democracia, e o presidente Jango (João Goulart) não titubeia em escrever ao embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, para comunicar que o Brasil se opunha à invasão da ilha.

Em outras áreas, o termômetro político esquentava no país. Greves gerais exigiam, de um lado, antecipação do plebiscito pelo parlamentarismo e, de outro, a concessão do 13º salário, resultando em quebra-quebra e saques no Rio de Janeiro. No campo, a palavra-de-ordem era 'reforma agrária'. Em março, na Paraíba, o líder da Liga Camponesa de Sapê, João Pedro Teixeira, tinha sido assassinado por ordem dos latifundiários. O enterro, acompanhado por cinco mil pessoas, e os protestos que se seguiram, foram filmados por integrantes do CPC (Centro Popular de Cultura, da UNE) e usados mais tarde no longa "Cabra marcado para morrer", dirigido por Eduardo Coutinho. Como se sabe, a equipe do cineasta foi presa e o material foi apreendido em 1964; e um novo filme-processo foi refeito de partes recuperadas desse material, quase vinte anos depois.  

Copos comemorativos do bicampeonato de 1962 (crédito: Coleção Luiz de Sousa )

Primeira sandália Havaiana
Voltando ao que houve de bom em 1962, esse é o ano de lançamento das sandálias mais famosas do mundo: as Havaianas, fabricadas pela São Paulo Alpargatas e cujo desenho foi inspirado nos tradicionais chinelos japoneses feitos de palha de arroz. Repare: o desenho e a textura do solado imitam os grãos do cereal, e as tiras, o trançado da fibra.

Sem dúvida, o Brasil vivia um momento promissor para a criatividade, assim como para a iniciativa industrial. O mercado automobilístico, por exemplo, estava em franca expansão, e a novidade era que a empresa alemã VW (Volkswagen) tinha resolvido produzir localmente os seus modelos de carros. Assim, em 62 sai da nova fábrica de São Bernardo do Campo-SP o primeiro Karmann-Ghia brasileiro, carrinho de linhas arrojadas, pouca coisa diferente do seu modelo europeu.

As oportunidades sorriam também para a nossa criativa música popular, que iria viver um grande momento em 1962. Verdade que a turma de jovens músicos que em novembro desembarcava pela primeira vez nos Estados Unidos - João Gilberto, Tom Jobim, Carlos Lyra, Agostinho dos Santos, Roberto Menescal,  Sérgio Mendes e muitos outros - não tinha ideia precisa do significado daquele show, que abriria as portas à música brasileira para o fechado mercado do entretenimento norte-americano. Ou, em outras palavras, a bossa nova conquistava a América, a partir da antológica apresentação do dia 21 de novembro no Carnegie Hall de Nova York.

Se no Brasil os jovens da bossa nova iam de vento-em-popa, nos Estados Unidos quem despontava para o sucesso eram os Beatles, que em 1962 lançavam seu primeiro disco, Please, Please Me. Estrelas surgem, e outras desaparecem: no cinema, morria Marilyn Monroe, aos 36 anos, após cometer suicídio. Já no Brasil, o cinema celebrava a consquista da Palma de Ouro no festival de Cannes, com o filme O Pagador de Promessas, do diretor Anselmo Duarte (o cineasta faleceu recentemente, em novembro passado). 

A televisão entrava também numa nova era, pois em 1962 realizava-se nos EUA a primeira transmissão de TV via satélite. As imagens foram captadas por antenas parabólicas em diversos pontos do país e do exterior, e retransmitidas a milhões de aparelhos de televisão e rádio nos Estados Unidos, França e Inglaterra.  Mas os programas só podiam ter por volta de quinze minutos de duração, uma vez que a órbita percorrida pelo satélite impedia a retransmissão de programas mais longos.

Com feitos assim, a imaginação das pessoas nos anos 60 estava envolta em certo ar futurista, que era aproveitado nos seriados, como em Os Jetsons, desenho animado produzido por Hanna-Barbera de 1962 a 1963, e exibido aqui mais tarde pela TV Excelsior, Canal 9. 





 
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