E só mesmo no país pentacampeão do mundo são mais do que comuns as coletâneas especiais sobre o esporte, pinçadas de uma variedade enorme de histórias dos mais diferentes personagens, como os da Disney (em edições de Zé Carioca relacionadas a Copas e no Disney Especial), Turma da Mônica (Pelezinho, também em edições alusivas aos mundiais e na Coleção Um Tema Só: Futebol), entre outros.
Em gibis como Cebolinha, Cascão, Os Trapalhões (tanto na Bloch quanto na Abril) e O Gordo, passando por Menino Maluquinho, Alegria, Turma do Lambe-Lambe e tosqueiras como Sérgio Mallandro, o futebol sempre deu um jeitinho de pintar nas histórias produzidas aqui. Até mesmo Senninha, um piloto de Fórmula 1, participava de peladas com sua turma.
Há outras criações tupiniquins que também amam o futebol, como Maciota, o jogador de várzea criado por Paulo Paiva; a garotinha Mutuca, de Antônio Cedraz (criador da Turma do Xaxado); a tira O Dia a Dia do Futebol, de Bruno Teixeira Lomba; o cão Jarbas, que às vezes veste a camisa da seleção ou se traja de árbitro; e o travesso Cabeça Oca, cuja roupa vermelha e branca é uma homenagem ao Vila Nova, clube para o qual torce o criador do personagem, o goiano Christie Queiroz.
E não se pode esquecer de Futebol e Raça, publicado pela Cedibra, que durou apenas três edições. Com textos de Luiz Antônio Aguiar e desenhos de Mozart Couto, as histórias tinham como protagonista um jogador aposentado.
Mesmo quando algum personagem vinha dos Estados Unidos - país conhecidamente avesso ao futebol -, os autores brasileiros tratavam de fazê-lo apreciar o esporte. Nas histórias da Pantera Cor-de-Rosa, Luluzinha, Bolinha ou algumas da Hanna-Barbera produzidas aqui, era possível encontrar pelo menos a tradicional bola de gomos pretos e brancos compondo cenários de lojas de brinquedos ou quartos de criança. Coisa que não se via nas aventuras importadas.
Em O grande jogo, história produzida nos estúdios da Editora Abril e publicada na revista Pato Donald # 1252, foram reunidos vários vilões como João Bafo-de-Onça, Dr. Estigma e Irmãos Metralha em torno de uma disputa futebolística num presídio. O melhor ficou para o final, quando todos organizaram uma partida de futebol de botão, uma invenção genuinamente brasileira.
O craque Zé Carioca
Zé Carioca, por sua vez, joga bola com muita freqüência, desde suas primeiras histórias produzidas no Brasil. Mais ainda depois que surgiu o Vila Xurupita F.C., criado por Ivan Saidenberg na década de 1970. O time punha em campo, além do papagaio, os pernas-de-pau Nestor, Afonsinho, Pedrão e outros "grossos".
Praticamente uma versão em quadrinhos do Íbis (time pernambucano que é considerado o pior do mundo), o Vila Xurupita é o maior saco de pancadas da história do futebol. Na única vez em que ganhou um troféu (disputado num jogo só, contra uma equipe formada por gorilas mal-encarados, vencido devido a um gol contra), foi obrigado a vender o prêmio para pagar os aluguéis atrasados da sede do clube.
O time alimenta ainda uma rivalidade ferrenha com o Arranca-Toco. Os jogos entre as duas equipes são o que se pode chamar de (com o perdão do trocadilho) clássico dos quadrinhos.
Como todo brasileiro que se preza, o papagaio malandro é fanático por futebol, e essa paixão foi - e continua sendo - parte marcante do gibi do personagem. Seja em menções a clubes, jogos na calçada ou "furadas de fila" no Maracanã, a revista sempre destacou o esporte bretão.
E numa dessas, foi concebida a melhor saga futebolística do Zé Carioca, a divertida Zé nos States, escrita por Gérson B. Teixeira e desenhada por Aluir Amâncio. O arco completo de histórias foi publicado na edição número 2000 da revista do personagem, e se passava na época da Copa do Mundo 94.
A aventura narrava a ida de Zé Carioca aos Estados Unidos para assistir aos jogos do Brasil. É claro que, para chegar lá sem um tostão no bolso o malandro apronta de tudo para alcançar seu intento. Uma das melhores passagens é o encontro dele com o craque Maradona num navio de passageiros. A rivalidade entre brasileiros e argentinos foi o mote para as mais divertidas confusões. O jogador, claro, sofreu nas mãos do papagaio.
Não mais que um marinheiro argentino, que não resistiu e cantou Aquarela do Brasil junto com o Zé Carioca. Acabou sendo expulso do navio pelos próprios compatriotas, que gritavam "Traidor!" a pelos pulmões. Para quem não teve a oportunidade de ler essa fantástica saga há dez anos, a Editora Abril a republicou em 2004 no título quinzenal do Zé Carioca.
Mas essa não foi a primeira vez que o papagaio assistiu in-loco aos jogos do Brasil nas Copas. Em muitas ocasiões, ele tanto fazia que acabava integrando a delegação nacional. Como em 1986, na revista Zé Carioca # 1775, em que o malandro até ensina ao técnico Telê Santana um novo posicionamento tático, baseado no famoso "carrossel holandês": a gangorra tupiniquim. Antes disso, em 1982, ele foi com Donald e Panchito à Espanha. E em 1998, lá estava o caloteiro na França, no especial Copa 98. Tantas histórias ligadas ao futebol na revista do papagaio caloteiro provavelmente não se originavam apenas do apelo comercial que o esporte possui, mas também porque a turma da Redação Disney da Editora Abril era adepta de uma pelada semanal nos anos 80.
Os quadrinhistas alugavam uma quadra na sede do Corpo de Bombeiros, em São Paulo, e os jogos rendiam inspiração não só para engraçadíssimas HQs, como para impagáveis charges sobre a Redação, nas quais um dos alvos preferidos era o rechonchudo arte-finalista Acácio Ramos. Até hoje o argumentista Gérson B. Teixeira (atualmente trabalhando nos Estúdios Mauricio de Sousa) guarda esses desenhos, uma recordação dos bons tempos da produção nacional de quadrinhos Disney.
Falando em charges, grandes nomes da área não perdem a oportunidade de brincar um pouco com o futebol. Laerte, Glauco, Luís Fernando Veríssimo e muitos outros têm em seu portfólio diversos trabalhos sobre o tema. No site Universo HQ o leitor pode se deliciar com divertidas charges que colocam famosos personagens dos quadrinhos (Demolidor, Thor, Wolverine, etc.) no mundo da bola, destacando-se as que antecederam a Copa de 2002.
Time da Mônica
Com relação a outro sucesso e orgulho nacional, a Turma da Mônica, seus gibis talvez são uma das poucas HQs nas quais os personagens torcem por um time de verdade. Não se trata de uma história isolada em que alguém revelou seu clube do coração. É algo já consolidado em diversas aventuras. Efetivamente, o Cascão é fanático pelo Corinthians, o Cebolinha torce pelo Palmeiras, o Anjinho é santista (nada mais lógico!) e por aí vai.
Há dois anos, Mauricio de Sousa anunciou que transformaria o jogador Ronaldo (sim, ele mesmo, o Fenômeno) em mais um de seus personagens. Foi até divulgado um desenho do craque ao lado de Mônica e Cascão. Até hoje, nada de concreto aconteceu.
Marcelinho Carioca, o polêmico ex-atacante do Corinthians, por pouco também não virou personagem de quadrinhos. Em 2001 ele lançou o Pé de Anjo, que só não foi para os gibis (ou para qualquer outro lugar) porque, na época, o jogador estava em crise com os torcedores.
Outro que não emplacou e acabou cedo foi o título Coringuinhas. Lançado em 2003, numa parceria entre o Corinthians e a Publishouse, o gibi tinha como atração os jogadores mirins da escolinha do clube paulista, entre eles o craque Alvinho. A equipe criativa contava com Caco Machado (roteiros), George Tutumi (desenhos), Roberto Souza (arte-final) e o saudoso Hermes Tadeu (cores). Em 1998, a Editora Abril lançou o especial de luxo Linha de ataque: Futebol Arte. Com textos dos comentaristas esportivos Armando Nogueira, José Trajano, Marcelo Fromer (que também era guitarrista da banda Titãs e faleceu há poucos anos) e Casagrande, mais os desenhos de Marcelo Campos, Octavio Cariello, Rogério Vilela e Roger Cruz, foi um dos exemplos mais significativos da junção do futebol com a nona arte. Mas não foi nenhuma obra-prima do gênero, é preciso dizer.
Dez na área
Outra produção recente sobre o tema foi lançada em 2002. Trata-se de Dez na área, um na banheira e ninguém no gol. O álbum, publicado pela Via Lettera, apresentou 11 histórias produzidas pelos craques dos quadrinhos Fábio Moon, Gabriel Bá, Allan Sieber, Custódio, Fábio Zimbres, Lélis, Leonardo, Osvaldo Pavanelli, Emílio Damiani, Spacca, Samuel Casal, Maringoni e Caco Galhardo. E ainda teve um prefácio do ex-jogador Tostão.
E em 2004 saiu pela Editora Bom texto, o espetacular A História do Futebol no Brasil através do Cartum, livro organizado pela dupla Jal e Gual que rende uma homenagem ao mais apaixonante dos esportes e à memória do traço nacional. São 340 ilustrações de várias épocas.
Para os que não puderem adquirir nenhuma dessas edições, e que desejam ler alguma HQ sobre futebol, a opção é acessar o site da Nona Arte, sempre rico em quadrinhos de vários estilos. Lá se encontra disponível para download a excelente Dia de decisão, produzida por Arthur Ferraz, Daniel Brandão e Denilson Albano.