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Entrevista: Benedito Abbud, arquiteto e paisagista

Especialista defende a urgência de projetos urbanos para 2014 e 2016

Além da ecologia: para Abbud, qualidade de vida tem prioridade (crédito: Divulgação)
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Rafael Massimino - São Paulo
postado em 29/12/2009 17:09 h
atualizado em 24/04/2010 16:07 h

Com mais de cinco mil projetos paisagísticos espalhados por Brasil, Argentina e Angola, o arquiteto Benedito Abbud foi chamado pela prefeitura do Rio para uma consultoria nas instalações da Olimpíada de 2016. A ideia é aproveitar a experiência de Jogos anteriores e capitalizar a requalificação urbana da Barra da Tijuca. Além da marioria dos estádios, o bairro carioca concentrará as vilas de atletas e de mídia, um conjunto de edifícios residenciais que serão comercializados depois do evento.

Segundo Abbud, a Rio-2016 aproveitou a questão da sustentabilidade ambiental lançada nos Jogos de Sydney, em 2000, mas acrescentou a novidade da sustentabilidade cultural para ressaltar as belezas da capital carioca e priorizar a felicidade de seus moradores. "Não adianta eu querer salvar o planeta se não tenho condições de sobreviver. Então uma das coisas que a gente achou bonito mostrar é essa relação entre o homem e a natureza", afirma Abbud. Nesta entrevista, o arquiteto apresenta ideias simples e baratas para transformar as caóticas metrópoles brasileiras em lugares onde a qualidade de vida vai além do estético ou do supérfluo.

O projeto das instalações para a Olimpíada tiveram que orientação?
Bom, quando a gente analisa, vê que a valorização imobiliária nas cidades que foram sede de grandes eventos é enorme. Foi nesse sentido que fizemos um trabalho paisagístico para o Pan-americano de 2007, na vila e na avenida do Pan. Foi um trabalho para lançar um novo bairro na Barra da Tijuca, que continua agora com o projeto da Olimpíada. É um trabalho de requalificação urbana, num grande terreno que não tem ocupação quase nenhuma.

O que faz parte dessa área?
O complexo é formado pela vila do Pan, cujos apartamentos já foram vendidos, avenida do Pan, vila olímpica e vila da mídia. Depois dos jogos, os prédios das vilas serão reformados para as Paraolimpíadas, os banheiros ficam maiores, e depois eles reformam novamente para entregar aos proprietários. Tudo isso feito pela iniciativa privada. Pois como o vetor de crescimento do Rio é essa área, então a ideia é que façam todo esse trabalho, inclusive a despoluição da lagoa da Tijuca.

Seu escritório participou de quais projetos?
O projeto que desenvolvemos engloba o paisagismo da vila olímpica e da avenida do Pan, e alguma coisa dos estádios. Na vila olímpica, o projeto foi feito pensando no bem-estar dos atletas. Propusemos lagos, áreas de lazer, áreas de contato, áreas de relacionamento. A vila terá uma ligação direta com uma praia particular para os atletas. O que a gente vê na televisão é muito “auê”, muita festa. Dá a impressão de que escolheram do nada uma cidade para a Olimpíada. Mas é claro que não é assim. Eles veem o projeto, onde ele está localizado, como ele vai ficar depois dos Jogos.

"Além da sustentabilidade, a gente achou que seria importante mostrar as belezas, as florestas urbanas, a cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro"

Aproveitaram experiências de Olimpíadas passadas?
Em 1992, Barcelona foi a cidade que usou a Olimpíada para fazer uma renovação urbana, teve um marketing muito forte. Depois disso todas as cidades usaram o evento com esse objetivo. Sydney (2000) levantou a bandeira da sustentabilidade ambiental. Então a vila olímpica e os estádios estão equipados com células fotovoltaicas, pisos drenantes, energia eólica, tratamento de água com sistema próprio...

Qual a novidade da Rio-2016?
Além da sustentabilidade, a gente achou que seria importante mostrar as belezas, as florestas urbanas, a cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro. Então em vez de ir pra tecnologia, já que a gente não terá condições de fazer um estádio como o de Pequim, que nem Londres vai ter, a gente focou na questão da sustentabilidade cultural, que envolve o relacionamento pessoal, a qualidade de vida. Veja bem, não adianta eu querer salvar o planeta se eu não tenho condição de sobreviver. Então uma das coisas que a gente achou bonito mostrar pra eles é essa relação entre o homem e a natureza.

Como o paisagismo pode contribuir para transformar as cidades brasileiras aproveitando os investimentos da Copa e da Olimpíada?
O paisagismo tem que se integrar aos outros projetos. E aqui temos algumas soluções simples e baratas que poderiam ajudar, principalmente em relação às circulações. A cidade levita através das calçadas. Elas levam o sangue, o tráfego, o alimento. Então é muito importante que se cuide dessas veias da cidade. Em paisagens antropizadas como a nossa, bastante descontínuas, com calçadas diferentes e prédios irregulares, você pode usar o verde como solução. Ele tem o poder de harmonizar, de fazer uma coisa mais organizada.

Seria o caso de aproveitar os eventos para criar uma linguagem que refletisse a identidade brasileira?
O Brasil é um país tropical, com vegetações variadas: a caatinga, a mata atlântica, o cerrado. Tem várias expressões. Não é a toa que o símbolo da Copa é uma arara, porque isso está na expressão da coisa brasileira. Então acho que a vegetação tem tudo a ver com o Brasil e que poderia ser uma característica. Mas não acho bom que seja criada uma linguagem única, porque cada região tem uma expressão e acho importante que sejam preservadas essas características.

"Então em vez de ir pra tecnologia... a gente focou na questão da sustentabilidade cultural, que envolve o relacionamento pessoal, a qualidade de vida"

A Olimpíada tem um projeto integrado, ao contrário da Copa...
Eu acho que está na hora de dar importância a esses aspectos e entendermos que esse é o momento. Os projetos devem ser contratados agora. Se os governos forem deixar para comprar as plantas na última hora terão que pagar um preço muito grande. Quantos hortos florestais nós temos espalhados? Muitos. Por que não se faz uma campanha nacional nessas cidades? A vegetação tem um tempo próprio, o que as pessoas ignoram. Se você colocar árvore de um metro, você paga certa quantia. Se você colocar árvore de dois metros, você não vai pagar o dobro, mas o quíntuplo.

É uma redução do paisagismo ao supérfluo ou ao estético?
Sim, é quase como se o estético fosse uma coisa ruim. Pensam: como um país que precisa de tantas coisas prioritárias vai cuidar da beleza? Mas essa questão está completamente errada, porque a beleza faz parte também da felicidade das pessoas. Tanto que tem aquela famosa frase do Joãsinho Trinta, de que quem gosta de miséria é intelectual. Agora, não estamos falando aqui de falta de projeto. As universidades poderiam estar projetando a custo zero. É só você organizar. O que falta é vontade de fazer a coisa de uma forma correta.

Quais as soluções para melhorar a qualidade de vida no ambiente urbano?
São coisas muito simples. Existe o conceito de calçada verde, por exemplo. Plantamos árvores onde há espaço e colocamos grelhas de metal para facilitar o escoamento da água, ajudando na drenagem. É um material caro, mas se for produzido em massa barateia. A gente propôs também a ideia de traffic calming, que é uma maneira de ganhar verde na cidade ampliando a área das esquinas, já que há calçadas muito estreitas. Onde não há espaço propomos os muros verdes, com trepadeiras, que absorvem raios de sol, melhoram a poluição, a umidade relativa do ar.

Projeto para a Vila Olímpica de 2016

"Pensam: como um país que precisa de tantas coisas prioritárias vai cuidar da beleza? Mas essa questão está completamente errada, porque a beleza faz parte também da felicidade das pessoas"

E para melhorar a acessibilidade?
Um solução, por exemplo, é a famosa lombofaixa, quando você pega a rua e faz uma lombada que fica no nível da calçada. Em vez de a pessoa descer e subir é o carro que sobe e desce. Hoje em dia bicicleta é um grande esporte, o patins também. No Canadá, onde estive há pouco, as pessoas iam pra casa de patins. As calçadas tinham uma superfície que permite andar de patins, coisa que nas calçadas brasileiras é quase impossível devido à questão da manutenção.

Como o paisagismo pode melhorar o turismo?
Essa é uma questão importante para a Copa e a Olimpíada. Os dois eventos vão trazer muito mais turistas para o Brasil. Principalmente agora com passagens mais baratas, aeroportos ampliados. A distância deixou de ser problema. Uma calçada mobiliada com totens e pontos de ônibus bilíngues, por exemplo, é essencial para a orientação do turista. Natal, que tem um aeroporto pequeno, agora vai ter um aeroporto internacional, assim como Fortaleza. Da Europa até Fortaleza é coisa de cinco horas. É muito rápido! Só que hoje você tem que fazer conexão em São Paulo e depois voltar tudo. Com essas cidades estruturadas para o turismo, nós temos que dar infraestrutura pelo menos em termos de orientação.

Os estádios da Copa terão selo Leed de construção sustentável. Existem meios de implantar esses conceitos em equipamentos maiores, como aeroportos?
Existe e inclusive o próprio Leed já está se preparando para isso. Na verdade, tem pouquíssimos projetos com selo Leed e acho que a gente tem que falar em graus de sustentabilidade. Isso é bem complicado, porque cada um entende sustentabilidade de uma forma. Por exemplo, tem materiais que são mais sustentáveis do que outros; o que é sustentável para uma região não é para outra. Existe a ideia de criar uma certificação de materiais, com uma pontuação. Para cada material deveremos saber quais são as preocupações com ele, o que vai acontecer com esse produto quando ele deixar de ser usado. Isso também varia regionalmente, porque uma televisão produzida na Zona Franca tem pontuação diferente se for consumida em Manaus, que está do lado da fábrica, ou em São Paulo.

Saiba mais sobre Benedito Abbud no site www.beneditoabbud.com.br






 
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