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Capitão 7, Getúlio e Miss Brasil: o país na Copa de 54

A televisão crescia, mas os jogos do Brasil mal chegavam pelo rádio

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Regina Rocha
postado em 21/12/2009 17:58 h
atualizado em 20/04/2011 17:54 h

No avião em que viajava a seleção brasileira de 1954, ia também de primeira classe o feliz ganhador do concurso que a Rádio Nacional do Rio de Janeiro promovia para levar um brasileiro à Copa na Suíça. Para concorrer, bastava enviar uma embalagem do comprimido Melhoral, nome e endereço do remetente. O sortudo, um paranaense, se por um lado não viu o Brasil ser campeão, ao menos livrou-se de acompanhar daqui a transmissão ruim, com o rádio saindo do ar a todo momento, para desespero e irritação do torcedor.

Foi o que aconteceu no jogo Brasil x Hungria, quando o som do rádio falhou logo no início do jogo e, retornando 10 minutos depois, deixou a todos confusos, inclusive os locutores, porque o Brasil já perdia por dois a zero. Melhor era a situação dos europeus, que assistiam à primeira Copa do Mundo televisionada. Se fosse a cores, veriam a seleção brasileira estrear seu novo uniforme verde e amarelo. O país foi mal na Copa, derrotado ainda nas oitavas de final pela equipe da Hungria, que fez uma bela campanha, mas acabou derrotada pela Alemanha, na final, uma das decisões mais injustas da história.

Corinthians, a última vitória em 22 anos, 8 meses e 7 dias
Aqui no Brasil, o Corinthians Paulista vencia mais uma vez o campeonato paulista e consagrava-se como Campeão do 4º Centenário - referência aos 400 anos da cidade de São Paulo. O time vivia uma fase gloriosa, mas aquela foi a última vitória do alvinegro, que amargou quase 23 anos sem vencer qualquer campeonato até a queda do tabu, em 1977.
Para além das glórias e tristezas do futebol, a população queixava-se de falta de energia elétrica. O problema, crônico, logo seria mitigado graças à inauguração da hidrelétrica do rio São Francisco e da usina de Paulo Afonso. Também surgia a Petrobras, para permitir o desenvolvimento da produção de petróleo no país. Eram ações do governo nacional-desenvolvimentista de Getúlio Vargas. Vinha aliás do caudilho a notícia mais bombástica daquele 1954: o suicídio no Palácio do Catete, então sede do governo na capital federal Rio de Janeiro. Com o país inteiro em grande comoção, e enormes manifestações de rua, esquerda e direita ficavam sem ação, e os planos golpistas da oposição udenista eram postos de lado.    

Vida moderna
A década de 50 era também o auge do otimismo pós-Guerra. A vida moderna, de olho no american way of life, oferecia vantagens irresistíveis, tais como os eletrodomésticos, o automóvel, a moda de Paris e até um jeito mais prático de se alimentar, com comida industrializada... No elegante salão de chá do Mappin, tradicional loja de departamentos no centro de São Paulo, era lançado o Nescafé, por exemplo. A novidade do preparo instantâneo seria imediatamente comentada nos comerciais da TV Tupi, canal 3, juntamente com propaganda de Nescau e do leite Ninho. Para seduzir melhor o telespectador, criava-se a figura da garota-propaganda, com anúncios ao vivo. Já para a compra destes novos gêneros, surgia o supermercado. O primeiro supermercado brasileiro foi o Sirva-se, aberto um ano antes, em 1953, em São Paulo, na região da avenida Paulista.

Capitão 7, o super-heroi brasileiro
O noticiário, radioteatro e programas de auditório tinham surgido junto com o rádio nos anos 40, mas iram migrar rapidamente para a tevê, em formato adaptado para a telinha.
A televisão, cuja primeira transmissão em 1950 passara praticamente despercebida, já tinha em 1954 duas emissoras no Rio e duas em São Paulo, e uma programação variada: noticiário, humorismo, teleteatro, programas infantis, esportes e variedades. Para medir a audiência, era criado o Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião e Pesquisa) em 1954. 

Também os seriados de aventuras, que tinham se popularizado no cinema, onde eram exibidos em capítulos, começavam a ser produzidos para a televisão. Coube à TV Record lançar, em outubro de 1954, o Capitão 7, primeiro seriado de aventuras brasileiro, com o ator Ayres Campos no papel do herói, um misto de Capitão Marvel e Super-Homem. Foi tanto sucesso, que a série ficou no ar até 1966 e rendeu até revista em quadrinhos. Detalhe: os capítulos iam ao ar ao vivo, pois ainda não existia o vídeo-tape. 


Corinthians, campeão do IV Centenário, em 1954. Depois, só em 1977 (crédito: Arquivo S.C. Corinthians Pta. )

Miss Brasil
Nas páginas das revistas O Cruzeiro e de sua nova concorrente, a Manchete, se viam estampadas com destaque as fotos da bela baiana Marta Rocha, vencedora do primeiro concurso de Miss Brasil, realizado em 1954. Mas a beldade só conquistou o segundo lugar no concurso de Miss Universo, assunto que rendeu até música na época:   

"Por duas polegadas a mais,
passaram a baiana pra trás.
Por duas polegadas,
E logo nos quadris.
Tem dó, tem dó, seu juiz."

A marchinha de Alcir e Pedro Caetano foi gravada pela própria Marta Rocha para comentar, com bom humor, a sua derrota no concurso por apenas 2 polegadas. Se de um lado a busca da beleza era parte do universo feminino de 1954, com modelos da Dior revelando a cintura fina das moças daquele tempo, de outro o que se lia nas revistas femininas também eram ‘pérolas’, tais como: “O lugar da mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza” (Revista Querida, 1955). Pode-se supor que o “Segundo Sexo”, livro escrito cinco anos antes pela feminista francesa Simone de Beauvoir, estava longe de ser um best-seller nos trópicos.

Niemeyer e Burle Marx
Por outro lado, o Brasil de 1954 olha para a frente, e a modernidade é uma aspiração entre os pensadores, governos e contagia a todos, pelo menos nas capitais. A industrialização batia às portas de São Paulo, e as comemorações do IV Centenário refletem este desejo de progresso. O melhor exemplo era o Parque Ibirapuera, inaugurado em agosto de 54. A comissão que anos antes havia elaborado o programa do parque, liderada por Francisco Matarazzo Sobrinho, o "Cicillo", tinha como conceito básico unir modernidade urbana com arquitetura arrojada e projeto paisagístico não menos avançado. O convite do projeto arquitetônico é  feito ao arquiteto Oscar Niemeyer e o paisagismo, em total consonância com a arquitetura, fica sob responsabilidade de Roberto Burle Marx.

Também em 1954 as viagens de avião se tornavam mais usuais, e antes mesmo do termo "ponte aérea" ser adotado alguns anos depois, os aeroportos do Rio e São Paulo viam necessidade de expandir suas instalações. Em 1954, o aeroporto de Congonhas, na capital paulista, recebia obras dos artistas plásticos Emiliano Di Cavalcanti e Clóvis Graciano, para compor o novo Pavilhão de Autoridades, de embarque e desembarque de celebridades. Pairava o "espírito moderno, que poucos anos depois, em 1956, iria dar início às obras da nova capital, Brasília. Neste ano de 1954, porém, morria na cidade de São Paulo, em outubro, o guru da Semana de Arte Moderna de 22, Oswald de Andrade.

Brasil Bossa-Nova e o começo do Rock, nos EUA
Já a nossa música popular resistia aos boleros e sambas-canções, mas vale lembrar que o baiano João Gilberto já estava pelo Rio, desde 1949, e gestava secretamente uma nova música. Tom Jobim, por sua vez, em 1954 mudava-se para a Rua Nascimento Silva,107 apartamento 201, em Ipanema, e lançava seu primeiro álbum, "Sinfonia do Rio de Janeiro", em parceria com Billy Blanco. A Bossa Nova, propriamente dita, haveria de esperar ainda uns anos até que a turminha de Carlos Lyra, Bôscoli, Menescal e Nara Leão crescesse um pouco mais e se projetasse de Copacabana para o mundo. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o rock and roll engatinhava: Bill Haley lançava em 1954 o sucesso Shake, Rattle and Roll e, no ano seguinte, surgia no cenário musical o rei do rock Elvis Presley.





 
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