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Futebol de rua: o prazer de jogar, nos quatro cantos do globo

Fotógrafo Caio Vilela revela a alegria e liberdade de bater bola

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Regina Rocha - São Paulo
postado em 11/12/2009 17:21 h
atualizado em 14/12/2009 16:04 h

O paulistano Caio Vilela, autor de 37 fotos da exposição Ora Bolas, no Museu do Futebol, e do livro Futebol Sem Fronteiras (Panda Books), é antes de tudo um viajante. Desde 1994, ele fotografa para cadernos de turismo e, em paralelo, desenvolve projetos pessoais como este. Foi assim que, durante cinco anos, ficou atento a flagrantes do futebol de rua, praticado em lugares tão distantes como o Yêmen, o Tibete ou a Dinamarca, e até nas areias de Peruíbe, no litoral paulista, onde retratou uma partida de mulheres. Diversidade cultural, e um futebol feito de liberdade e alegria, é o que se depreende de suas belas imagens.  

Como começou na fotografia?
Era estudante de geografia, fotografava por hobbie, até que em 1994 fui convidado a trabalhar pelo Jornal da Tarde, que estava interessado em revelar novos destinos do ecoturismo. Comecei colaborando numa coluna quinzenal, e em 1995 fiz minha primeira grande viagem: seis meses pela Ásia e Oriente Médio. Logo vi que o que queria mesmo era fotografar estes lugares e pessoas pelo mundo afora. No momento, por exemplo, estou em Rondônia, à espera de uma autorização da Funai para visitar uma aldeia indígena uruewa. Faço muitos trabalhos na área de turismo, mas permaneço freelancer, para poder desenvolver meus projetos, que já resultaram em várias exposições, como esta agora no Museu do Futebol.

Em quantos países você já esteve?
Já viajei bastante, uns 55 a 60 países. Alguns passei rapidamente, outros estabeleci vínculos de interesse maior, como no Irã, Iêmen e Japão, os que mais gostei e onde estive mais de uma vez. O Irã, por exemplo, é o oposto do que se divulga na mídia: o país mais receptivo do mundo, com um povo educado, culuralmente sofisticado. Já o Yêmen, não menos interessante, é um país pobre e por isso mais difícil e perigoso de circular. E o Japão, o que posso dizer?, é um “outro planeta”, um universo de descobertas, que ainda quero explorar melhor.


Foto de pelada em Bagna, Mianmar, que integra a exposição 'Ora, bolas' (crédito: Caio Vilela)

Como surgiu a ideia de fotografar o futebol de rua? Você é fã do esporte?
Gosto de futebol, mas não sou fanático. Tive a ideia há uns cinco anos, quando comia um sanduíche numa praça da província de Yazd, no Irã, e observei a garotada jogando bola, tendo ao fundo uma bela fachada de arquitetura islâmica. Me empolguei e passei a registrar as peladas que encontrava pelo caminho, em todos os lugares que ia passando, como Everest, Egito... Sempre que ia a trabalho para um lugar, também ficava de antenas ligadas para o futebol. E o jogo cria situações curiosas, como tentei mostrar na exposição. Mesmo agora, estava aqui em Ji-Paraná (Rondônia) e reparei numa pelada: o gol era, de um lado, feito com duas sandálias Havaianas, e de outro, um sapato e uma garrafa de refrigerante.

Quais as diferenças entre o futebol jogado aqui, e num país distante do Oriente, por exemplo? 
O que posso dizer é que quanto mais pobre o país, mais tem futebol de rua. Em países ricos, como a Áustria e a Dinamarca, vemos o futebol na quadra, num parque, organizado com chuteira e tudo mais. Na África, no Brasil, é o futebol de pé descalço, anárquico mesmo. O futebol está no coração destes povos. Mesmo na África do Sul, onde o esporte oficial é o rugbi, a população negra adora futebol. E olhe que a mídia não promove, mas os pobres jogam bola naquelas praias cheias de rochedos, pedregosas, que na época do apartheid eram reservadas a eles. Na Birmânia, atual Mianmar, o povo ama o futebol, mas o país é governado por uma ditadura, e o controle e a prática de apadrinhamento político prejudica o futebol, de modo que nunca se classificaram para uma Copa. Só o futebol feminino, fora da mira política, é forte, e já foi campeão três vezes na Copa da Ásia. O futebol  também é o jogo preferido das meninas do Nepal; já os meninos, que frequentam mais as escolas, tem críquete na hora do recreio, por isso estão mais por fora do jogo de bola. 

Como é este futebol praticado lá fora? Dá para perceber alguns talentos?
Futebol de qualidade, mesmo, só vi no bairro Boca, no subúrbio de Buenos Aires, onde em qualquer campinho de praça você várias feras entre os jovens. Já no Yêmen, onde 60% da população tem menos de 15 anos, e toda criança praticamente nasce e cresce nas ruas, onde se joga muito futebol, só se vê perna-de-pau. 

Do ponto de vista do fotógrafo, qual o prazer de documentar o futebol de rua?
Bem, começa que é sempre uma surpresa, tudo pode acontecer e por isso é preciso clicar muito, para flagrar o melhor momento. Também busco inventar ângulos, por exemplo tirar a foto a partir do fundo da rede, ou em cima de uma árvore, com as pirâmides do Egito ou outro cenário característico ao fundo. Com o tempo fui vencendo a timidez, e às vezes chego bem perto das pessoas; outras vezes, fico bem de longe, depende. Em geral, as pessoas são receptivas, e ao verem a câmera à frente até é comum se esforçarem para fazer aquela jogada genial, como uma bicicleta que flagrei um garoto aqui de Rondônia fazer. Aproveitando o momento da Copa 2014, já estou reunindo material para um segundo livro de futebol de rua, desta vez só no Brasil. 






 
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