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"Londres deu exemplo de planejamento"

José Roberto Bernasconi aplaude preparação londrina para 2012 e critica atraso no Brasil

Para Bernasconi, o Brasil já perdeu dois anos de planejamento (crédito: Divulgação)
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Marcos de Sousa - Bruxelas
postado em 20/10/2009 03:28 h
atualizado em 20/10/2009 12:41 h

Integrante de uma comitiva de brasileiros que visitaram a Inglaterra agora em outubro, o engenheiro José Roberto Bernasconi voltou certo de que o Brasil teria muito a ganhar se conseguisse desenvolver o planejamento adequado para as obras da Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Tomando o exemplo de Londres, Bernasconi mostra que o legado dos eventos esportivos podem ser colhidos bem antes do início dos jogos na forma de metrôs, trens urbanos, renovação de aeroportos, hotéis e sobretudo empregos e mudanças na economia dos países-sede. Nesta entrevista, ele fala da viagem e põe o dedo na ferida: o Brasil não está fazendo nada para aproveitar os ganhos que 2014 e 2016 podem trazer

Qual foi o principal legado de sua viagem à Inglaterra?
A grande lição é planejamento e adoção de sistemas de controle desde o início dos trabalhos. Sem isso, o Brasil não irá a lugar algum. A Inglaterra planejou com antecedência seus eventos esportivos  e isso é um exemplo para nós brasileiros. Viajamos a convite do governo britânico por iniciativa da UK T&I, agência de exportação do Reino Unido, ligada ao Ministério de Relações Exteriores. Estava acompanhado da representante do Comitê da Copa de Minas Gerais, Andreia Queiroga, e do vice-prefeito de Porto Alegre José Fortunati. Também participamos de um seminário no evento Leaders of Football, que reuniu atletas, técnicos, ligas de futebol e a própria Fifa. Nesse encontro os brasileiros expuseram os planos para a Copa de 2014 para mais de 80 empresários britânicos. Depois das palestras foram realizadas rápidas reuniões para conhecimento mútuo e intercâmbio de algumas informações. Visitamos o estádio de Wembley, conhecemos as novas instalações esportivas na cidade de Manchester e tivemos a oportunidade de uma entrevista com a equipe do Comitê dos Jogos Olímpicos de Londres.

Que outras cidades foram visitadas?
Uma das visitas mais interessantes foi à cidade de Manchester, antigo polo industrial da Inglaterra, que entrou em decadência e sofreu muito com as mudanças econômicas e sociais propostas no governo da ex-primeira-ministra Margareth Tatcher. As indústrias de Manchester - baseadas na mineração e siderurgia - eram altamente poluidoras e foram desativadas ao longo dos anos 80 e 90. Na virada do século, os dirigentes da cidade desenvolveram uma proposta para sediar os Jogos da Commonwealth, que aconteceram em 2002, o que exigiu a construção de um velódromo, um parque aquático e o desenvolvimento de um novo estádio de futebol, o Manchester City. Então nós vimos que com planejamento foi possível transformar uma cidade poluída em um centro de serviços para o esporte. E esse foi o grande legado desses jogos para a cidade.

"No Brasil, não estamos fazendo nada. Perdemos 2008, perdemos 2009, e 2010 é ano de eleição, com todas as limitações que isso pode trazer"

A experiência de Manchester serviu para Londres e poderia servir para o Brasil?
Neste momento a Inglaterra está em campanha para sediar a Copa do Mundo de 2018 e o assunto é uma das grandes prioridades do país, depois dos Jogos Olímpicos, é claro. Londres está adiantada no cronograma para a Olimpíada. A área escolhida para a construção da Vila Olímpica foi usada durante 400 anos como lixão de todo tipo de resíduo. Como a cidade foi escolhida para a Olimpíada em julho de 2005, eles imediatamente criaram comissões de trabalho e iniciaram o planejamento. Durante esses dois anos de projetos de engenharia e arquitetura eles começaram a demoliar as edificações antigas e escavar o terreno para resolver os problemas de contaminação do solo e das águas subterrâneas. Com os projetos dos principais equipamentos prontos, começaram  as construções em julho de 2008, para aproveitar o verão e devem concluir as obras em julho de 2011, ou seja, com um ano de antecipação. Assim, até 2012 eles terão um ano para o treinamento das equipes.

E as ações no Brasil?
No Brasil, não estamos fazendo nada. Perdemos 2008, perdemos 2009, e 2010 é ano de eleição, com todas as limitações que isso pode trazer. Em Londres, para começar o preparo dos jogos, eles criaram uma Agência da Olimpíada, que desenvolveu um plano diretor e foi ao mercado mundial buscar investidores. Aqui no Brasil, salvo raras exceções, não temos ainda uma modelagem para os estádios e não existe uma autoridade que tenha uma visão plena dos preparativos para 2014. Por exemplo, quem tem uma planilha que mostre o controle dos projetos e obras em todo o Brasil? Não temos isso aqui. A Fifa tem suas exigências e os projetos têm que ser preparados a tempo. Mas qual projeto está pronto? Cada cidade teria que mostrar o que vai fazer e tornar isso público. Aliás, já passou da hora de cada cidade mostrar o que será feito para a Copa de 2014 e explicar como será o processo de licitação. Quem deveria saber é o Ministro do Esporte, Orlando Silva Jr.

"A Olimpíada poderá, por exemplo, acelerar a ligação Rio-São Paulo pelo Trem de Alta Velocidade"

Como o senhor vê a conquista da Olimpíada de 2016 pelo Rio de Janeiro. Isso poderá atrapalhar os planos para a Copa?
Não, de forma alguma. É melhor ter os dois - Copa e Olimpíada - para uma ação sinérgica. A infraestrutura, a hotelaria, a formação da mão de obra, tudo isso será valorizado e potencializará o investimento no Brasil e no Rio de Janeiro. A Olimpíada poderá, por exemplo, acelerar a ligação Rio-São Paulo pelo Trem de Alta Velocidade. Tenho a esperança de que todo o profissionalismo demonstrado no marketing para conquistar a Copa e a Olimpíada será transposto para a gestão das obras e dos projetos. O que temos que fazer é  planejamento, com o apoio da engenharia. A liderança do processo cabe aos políticos, mas eles precisam buscar a consultoria de empresas que consigam dar concretude aos sonhos, desenvolver projetos detalhados, com especificações claras, e bem orçados. A longo prazo, o projeto é um excelente instrumento para o acompanhamento dos gastos de dinheiro público. Não adianta o Tribunal de Contas ou o Ministério Público baterem sem ter um projeto executivo na mão. Com o projeto bem desenvolvido o fiscal poderá verificar cada etapa da obra, tanto do ponto de vista da qualidade como do dinheiro dispendido.

Suas declarações parecem mostrar que o setor de obras no Brasil está em completa desordem. Quando foi que o país perdeu a capacidade de planejar?
Sem dúvida, foi durante os anos 1980 e 1990, quando a crise econômica do país paralisou as grandes obras e praticamente destruiu o setor de projetos. As empresas desmancharam suas equipes e perderam muito da experiência que foi construída nos anos 60 e 70. Apesar disso, algumas grandes empresas, como a Vale do Rio Doce e a Petrobras conseguem ser bons exemplos de gestão e planejamento.

O país está muito defasado em relação à tecnologia aplicada na Inglaterra, por exemplo?
Passamos 20 anos sem fazer grandes obras, o que nos deixou com um certo atraso tecnológico. Os europeus participaram de várias Olimpíadas e jogos, em vários locais do mundo, e obviamente desenvolveram soluções que são novidade por aqui. Assim, todos os contratos que forem fixados com empresas estrangeiras devem propiciar a transferência de tecnologia para as empresas brasileiras de projeto e também para a indústria. Um dos palestrantes ingleses insistiu nessa tese e mostrou que a parceria com empresas brasileiras é a melhor forma deles se aproximarem do mercado local.






 
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