Enquanto as polícias civil e militar da Bahia realizavam uma megaoperação contra o tráfico de drogas em Porto Seguro, ícone do turismo no Brasil, na capital baiana, cidade-sede do Mundial de 2014, o governo do estado, por meio da secretaria da Copa (Secopa), apresentava o projeto "Legados Sociais para a Copa do Mundo".
A proposta da Secopa parte da formação de uma rede de entidades não governamentais, com o objetivo de fortalecer as organizações sociais com vistas a uma maior participação no Mundial. “A Copa é de todos nós. Temos que descer das arquibancadas e ir para o campo jogar e marcar os gols”, afirmou o secretário Ney Campello, responsável pela iniciativa.
A ideia central do projeto é traçar um diagnóstico dos territórios da cidade, formar gestores e incentivar a estruturação de organizações sociais. Com isso, pretende incentivar a prática esportiva, reduzir o tráfico, a violência, o crime e outras mazelas sociais que atingem especialmente a população mais jovem.
Entre as ações previstas está a qualificação e capacitação profissional, intercâmbio de informações, participação cidadã durante a Copa, e promoção de ações de responsabilidade sócio-ambiental.
"[A iniciativa] é uma resposta à tentativa de criminalização do Terceiro Setor desencadeado pela mídia nos últimos meses”, disse Campello, que é dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). A sigla foi envolvida em uma série de escândalos ligados ao Ministério do Esporte, que terminou com a saída do ministro baiano, Orlando Silva, do mesmo partido.
Diferente da apresentação dos legados físicos, como a Arena Fonte Nova, os projetos de mobilidade, a ampliação do Porto de Salvador e do Aeroporto Internacional Luiz Eduardo Magalhães, já em curso, a apresentação do programa “Legados Sociais”, no entanto, não conteve uma descrição clara de quais serão os projetos, qual o orçamento previsto para a realização deles, ou mesmo quais atividades econômicas serão incentivadas ou quantas pessoas serão beneficiadas nos próximos três anos.
Participação Social e Cultura
O workshop de apresentaão do programa reuniu cerca de 500 pessoas, representantes de movimentos populares e entidades ambientais, esportivas e culturais. Durante o encontro, os líderes comunitários pediram maior participação no conjunto da preparação do evento. “Temos que nos preparar, como agentes sociais, para sermos atores e não apenas coadjuvantes do processo de construção do evento”, disse João Pereira, representante da Federação dos Bairros de Salvador (FABS).
A FABS já deu um passo à frente e instituiu o Comitê Popular da Copa nos bairros do Bonfim, Boa Viagem, Ribeira, Uruguai e Massaranduba, que formam a Península de Itapagipe, um dos locais mais belos de Salvador, mas completamente abandonado pelo poder público. “Se a Copa é boa, eu também quero”, disse o líder comunitário. “Nosso povo tem que estar preparado para atender às demandas que estão por vir. Não podemos nos dar o luxo de ficar de fora do evento.”
A cantora Margareth Menezes, presente ao evento, foi além e afirmou que a inclusão social passa pela valorização da cultura. “Sabemos que nem todo mundo terá acesso aos jogos, mas é possível impregnar a consciência coletiva do mundo com a nossa cultura, com as belezas do nosso povo. Esse pra mim é o principal legado”, afirmou a artista. “É a oportunidade de destacar os valores do nosso povo e aproveitar a referência que somos para o Brasil.”