A indecisão sobre qual será o estádio de São Paulo para a Copa de 2014 continua. Depois que o Morumbi foi descartado, a construção de uma nova arena começou a ser debatida. Agora, os governos municipal e estadual hesitam em erguer uma nova arena, o que exigiria muito dinheiro. A mesma dúvida que enfrenta as autoridades paulistas já fez parte da preparação da Cidade do Cabo para o Mundial de 2010. O preço foi a perda do jogo de abertura e um palco com um futuro discutível.
O tema faz parte da obra “Player e Referee - Conflicting interests and the 2010 Fifa World Cup” (sem edição em português, mas que pode ser entendido como “Jogador e Árbitro – Interesses Conflitantes e a Copa do Mundo Fifa 2010”) e é apresentado pelos jornalistas Karen Schoonbee e Stefaans Brümmer no capítulo “Perda pública, ganho da Fifa – Como a Cidade do Cabo conseguiu seu elefante branco”.
Newlands e o baixo custo
Antes da construção do Green Point, o principal município turístico sulafricano tinha o estádio Newlands, tradicional palco de rúgbi que abrigaria 40 mil torcedores durante a Copa, como o estádio local no livro de candidatura entregue à Fifa. Estruturado e localizado em um bairro rico, apenas pequenas reformas a baixo custo seriam necessários para se adequar às exigências dos organizadores do torneio.
Contratado pela prefeitura para avaliar os custos de estádios na ocasião, o professor Barry Standish, da Universidade da Cidade do Cabo, mostrou que a alternativa mais barata seria essa, cujas adaptações girariam em torno 177 milhões de randes (R$ 44,25 milhões).
Athlone e o social
Mas a preferência da prefeitura e do governo da província de Western Cape era o estádio Athlone, que suportaria o mesmo número de torcedores que o Newlands. Contudo, a arena fica localizada em uma área mais pobre e teria um valor simbólico na história e no desenvolvimento da vizinhança onde o futebol local nasceu.
“Por que escolhemos o Athlone não foi somente por causa do futebol, mas porque transformaria a cidade, teria impacto sobre o conto de duas cidades [de um lado as favelas, concentradas naquele bairro, e de outro as mansões, mais próximas do centro]”, contou o então secretário de esporte e recreação do município, Gert Bam.
A arena, que custaria 482 milhões de randes (R$ 120 milhões) pelas reformas nos cálculos de Standish, passou a ser considerada só depois porque foi inaugurada oficialmente há três meses antes da entrega da proposta de candidatura sulafricana à Fifa no dia 30 de setembro de 2003. Na inauguração, amistoso entre a África do Sul e a Jamaica, que terminou empatado e sem gols.
A mudança de sede não agradou aos cartolas da entidade máxima de futebol, que chantagearam o governo local ao sinalizarem para a realização de apenas cinco jogos – a cidade abrigou oito jogos desta Copa – e sem possibilidade para semifinal, uma vez que a Fifa exigia estádios com mais de 60 mil lugares para esta fase do Mundial.
“Danny Jordaan, chefe do Comitê Organizador Local ligou [para Ebrahim Rasool, então governador da província de Western Cape] e disse que a delegação da Fifa não estava convencida que Athlone pudesse ser um dos estádios da Copa e que consideravam que a Cidade do Cabo não estava dando o seu máximo”, revelou Laurine Platzky, coordenadora da província para a Copa.
Foi então que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, visitou a Cidade do Cabo e se reuniu com o presidente sulafricano na ocasião, Thabo Mbeki. Um dia depois do encontro, um dos ministros avisou Rasool sobre a necessidade da construção de um novo estádio.