A África do Sul, que tem o rugby como esporte nacional, trocará as mãos pelos pés a partir do dia 14 com a disputa da Copa das Confederações, reunindo oito seleções dos cinco continentes - incluindo Brasil, Espanha e Itália.
A equipe sul-africana de rugby, cujo apelido é Springbok - uma espécie de antílope da fauna local - é uma das cinco maiores seleções do esporte e ostenta os títulos de campeã da Copa do Mundo em 1995 e 2007.
Enquanto a África do Sul compartilha a hegemonia do rugby no hemisfério sul com Austrália e Nova Zelândia e está à altura das equipes das Ilhas Britânicas e da França, seu papel é de muito menos destaque no mundo do futebol.
Na segunda metade do século XIX, quando ambos os esportes tomaram caminhos diferentes pouco tempo após surgirem de um conceito esportivo comum, o rugby cresceu muito mais.
A célebre frase britânica que diz que "o futebol é um jogo de cavalheiros praticado por vândalos e o rugby um jogo de vândalos praticado por cavalheiros" teve mais conotações raciais que sociais ou esportivas na África do Sul.
Algumas das diferenças entre o futebol e o rugby partem da época do "apartheid" (política de segregação racial desenvolvida em território sul-africano).
"O rugby não era o esporte da África do Sul negra", afirmou o escritor britânico John Carlin no livro "The Human Factor: Nelson Mandela and the Game that Changed the World". ("O Fator Humano: Nelson Mandela e o Jogo que Mudou o Mundo", tradução livre).
A obra explica como o líder sul-africano Nelson Mandela, recém-eleito presidente, usou o rugby como forma de tentar unir brancos e negros em 1995, quando o país sediou a Copa do Mundo do esporte e venceu.
Isso não significa que o futebol fosse o esporte nacional entre a população negra do país. Tradicionalmente os integrantes dos Springboks eram brancos - mais precisamente africâners (descendentes dos colonos holandeses) -, e os negros gostavam mais de futebol.
Carlin afirma em seu livro que Mandela, que finalmente aproveitou o esporte da bola oval para juntar a população, sentiu uma "clara antipatia" pelo rugby ao longo de sua vida.
Segundo o autor do livro, o ex-presidente sul-africano considerava que era um esporte "branco e, especialmente, dos africâners", e os negros viam a seleção de rugby sul-africana como "um símbolo da opressão do apartheid".
Hoje rugby e futebol convivem lado a lado no país, mas internacionalmente os Springboks têm muito mais fama que os Bafana, Bafana ("Os rapazes"), apelido da seleção nacional de futebol - comandada atualmente pelo técnico brasileiro Joel Santana.
Durante muitos anos, o apartheid também deixou os negros fora da prática do futebol. Até a Fifa excluiu a África do Sul do organismo pela política de discriminação racial. Mas isso não impediu certa estrutura do esporte no país, com competições profissionais desde 1959 - contudo, exclusivas para os brancos.
A federação sul-africana de futebol existe desde 1991, como parte de um longo processo de unificação que erradicou qualquer rastro de divisão racial do esporte do país. A admissão da África do Sul na Fifa se deu há 17 anos, em junho de 1992.
Em 1996, a África do Sul ressurgiu no cenário do futebol internacional ao conquistar a Copa Africana de Nações como anfitriã, e pouco depois foi aos Mundiais de 1998 e 2002. Em 2006, não conseguiu vaga à Alemanha.
Agora a África do Sul espera não fazer feio ao receber o primeiro Mundial de futebol no continente africano, em 2010, e quer apresentar seu cartão de visitas com uma boa participação na Copa das Confederações.