Para muitos, Carlos Alberto Torres é o melhor lateral-direito da história do futebol mundial. Foi um dos protagonistas, no papel de capitão, de uma seleção com nomes como Pelé, Rivelino, Tostão, Jairzinho entre muitos outros, que conquistou o tricampeonato Mundial em 1970. Isso já mostra sua capacidade de liderança, dentro e fora de campo.
O capitão do Tri, que defendeu em sua carreira como jogador times como Fluminense, Santos, Flamengo, Botafogo, Cosmos (EUA) e Newport Beach (EUA), conversou com o Portal da Copa sobre a infraestrutura dos estádios e das cidades brasileiras para a Copa de 2014. “Aqui no Brasil as pessoas veem os estádios feitos lá fora e querem copiar, mas acho que não é por aí”, disse Carlos Alberto, levando sua crítica a prefeitos e governadores que defendem projetos de estádios cobertos, iguais aos da Europa, como um modelo a ser seguido no país.
Técnico do Flamengo campeão nacional em 1983 e das seleções de Omã, Nigéria e Azerbaijão, Carlos Alberto parou de exercer a função de treinador desde que não conseguiu salvar o Payssandu, de Belém, do rebaixamento para a série B do campeonato brasileiro. No momento, ele apoia a candidatura de Campo Grande como sub-sede da Copa de 2014 na disputa que a cidade trava com Cuiabá, pelo direito de representar o Pantanal na competição. “Setenta e cinco por cento do Pantanal está no Mato Grosso do Sul. Da perspectiva do turismo, acho que isto é motivo suficiente para Campo Grande ser a sede do Centro-Oeste no campeonato”, afirma. A seguir, confira a entrevista completa com Carlos Alberto Torres.
Em quais estádios você mais gostou de jogar durante a sua carreira?
Na época em que eu jogava futebol, e até mesmo depois, quando virei treinador, estive em quase todos os grandes estádios do Brasil. É evidente que o Maracanã continua sendo o templo do futebol, onde todo jogador, até mesmo o estrangeiro, sonha um dia pisar no gramado. Eu tenho simpatia pelo Morumbi, Pacaembu, Mineirão, Beira-Rio, pelo estádio novo do Atlético Paranaense, e também gostava do Fonte Nova, na Bahia, que infelizmente precisa ser renovado. Mas asseguro que o grande estádio em que tive mais prazer de atuar, tanto como jogador como treinador, foi mesmo o Maracanã.
Mais pelo glamour ou pelas qualidades técnicas do estádio?
O gramado do Maracanã, naquela época, não era tão bom como o atual. Mesmo assim, entrar naquele campo sempre foi o sonho de todo jogador. Muitos ficam abismados com o tamanho do gramado, querem tirar fotos. Infelizmente, a Fifa exige que o gramado do Maracanã seja reduzido para a Copa do Mundo e o campo de jogo sofrerá uma redução bastante grande. De qualquer maneira, ele é o melhor estádio em que já atuei como jogador e treinador.
E os piores estádios?
Não vou citar nomes, mas antigamente havia estádios muito pequenos, com péssimas condições de higiene, não digo nem do gramado, mas com vestiários em péssimas condições. Mesmo hoje (e nem tanto em São Paulo, que tem estádios importantes no interior), principalmente aqui no Rio de Janeiro, se tirarmos o Maracanã e o São Januário, os clubes não oferecem estádios que tragam bem-estar para os times, a começar pelos vestiários, como já disse. Nem falo do gramado, porque nesse item os dirigentes são obrigados a mantê-lo dentro de alguns padrões mínimos, por causa das regras do futebol. Já do ponto de vista do torcedor, o que se oferece àquela pessoa que sai de casa para assistir a um jogo com prazer ainda são estádios muito ruins.
Você comentou sobre vestiários. Para um jogador, o que seria um vestiário ideal?
O vestiário, tanto no centro de treinamento como no campo da partida, tem que oferecer conforto. O jogador tem que sentir bem, para preparar-se calma e tranquilamente para a partida. Tem que ter boa higiene nos toaletes, e isso, infelizmente, muitos estádios ainda não oferecem, nem para o jogador nem para o torcedor. Essa é uma preocupação da Fifa ao escolher as cidades-sede para a Copa do Mundo. A Fifa olha muito esse quesito, preocupa-se com que o torcedor encontre no campo as mesmas condições de prazer que ele teria se visse o jogo em sua casa.
Você já jogou em partidas com mais de 100 mil pessoas no estádio. Esse número hoje é difícil de ser atingido, até porque se trabalha mais pelo conforto dos torcedores, e menos por quantidade nas arquibancadas. O que acha desta tendência?
Com a evolução da mídia televisiva, o que acontece é que muita gente prefere o conforto de assistir ao jogo pela tevê, em casa, a comparecer aos jogos. Principalmente com a situação de violência nos estádios, mas também pelo horário dos jogos, às dez da noite em dia de semana. Somado à adequação dos estádios às regras da Fifa, com assentos individuais, acho que estes seriam motivos também para o número de torcedores vir diminuindo. Isto é até compreensível, mas acho também que, mesmo com toda a facilidade que a televisão oferece, ainda temos jogos que atraem grandes públicos.
Para o jogador e para o técnico é melhor que a torcida esteja mais próxima do campo, como acontece em estádios como a Vila Belmiro e o São Januário, ou mais afastada do jogo, como no caso de Mineirão e Morumbi?
É lógico que por uma questão de cultura dentro do esporte, trabalhar como treinador na Europa é mais fácil. Os bancos dos clubes ficam quase no meio da torcida, e o torcedor respeita a figura do profissional. Aqui no Brasil não, mas quem vive do esporte tem que se acostumar com isso. Quanto mais próxima a torcida está do campo, mais aconchegante é o ambiente do jogo.
Você já comentou que em 2014 teremos uma Copa com “a cara do Brasil”, diferente da que houve na Alemanha, diferente da que houve no Japão e na Coréia. Qual seria a cara de uma Copa no Brasil?
De fato, acho que tem quer ser assim. O que a gente tem acompanhado nos noticiários é que os prefeitos e governadores querem uma cópia dos estádios da Europa, aquele sistema com cobertura. Mas, todos nós sabemos que os estádios europeus são quase totalmente cobertos para que o torcedor não pegue chuva, neve ou sinta frio. Para as condições deles, fizeram estádios quase totalmente fechados. Aqui, no Brasil, as pessoas veem os estádios lá de fora e querem copiar. Acho que não é por aí... Lembro que nos EUA, em 1994, só tinha um estádio coberto, em Detroit, e ele já existia coberto, eles não fizeram a cobertura para a Copa do Mundo. Todos os estádios eram descobertos porque era verão nos EUA. Quando a Copa for disputada, em 2014, não vai ser verão, mas não temos tanta chuva, nem faz frio como na Europa. O inverno não é sinônimo de chuva no nosso país e sim de um friozinho em algumas cidades. Temos que construir estádios dentro dos conceitos de modernidade que a Fifa exige. Isto deve ser traduzido assim: conforto na chegada dos jogadores, sala de imprensa, auditório para conferências de imprensa, estacionamentos... É com isso que deveríamos nos preocupar.
Entre Campo Grande e Cuiabá, que concorrem como sub-sedes do Pantanal para a Copa, você declarou sua preferência por Campo Grande. Por quê?
Desde antes de o governador do Mato Grosso do Sul me convidar para defender a candidatura de Campo Grande, eu já viajava pelo mundo defendendo as cidades que oferecem entre um jogo e outro bem-estar para o torcedor, condições para ele se divertir. Então, eu sempre falei do Pantanal. Depois, quando fui chamado a apoiar a candidatura da cidade, passei a ver tudo o mais que Campo Grande tem a oferecer aos turistas. Percebi que 75% do Pantanal está dentro do Mato Grosso do Sul. Então, da perspectiva do turismo, penso que esta capital deve ser uma das sedes da Copa do Mundo no país.