Posts de 27 de setembro de 2011

Com a divulgação do estudo “Ranking do Saneamento” percebemos que, apesar da retomada nos investimentos, o país ainda avança lentamente na prestação de serviço de água e coleta e tratamento dos esgotos. É preciso que haja um maior engajamento e comprometimento dos governos para atingir a meta de universalização do saneamento básico.

O levantamento foi elaborado com base no SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, analisado o ano de 2009 – o ultimo estudo de abrangência nacional divulgado pelo Ministério das Cidades que considera as informações prestadas voluntariamente pelas prestadoras de serviço.

Para classificar o posicionamento no ranking, o Instituto Trata Brasil avaliou as 81 maiores cidades com mais de 300 mil habitantes, privilegiando os avanços em coleta e tratamento de esgoto, por serem os indicadores que mais geram impactos negativos, tanto sociais, quanto ambientais.

Em relação ao serviço de abastecimento de água mais da metade das cidades (61) informaram atender 80% da população, dentre estas, 20 afirmaram contemplar 100% da população com este serviço, o que sinaliza um avanço para a universalização no atendimento.

Dentre as cidades-sedes da copa, Curitiba chama atenção ao retornar para o grupo das 10 melhores cidades. Em 2005 ocupava o pior posicionamento estando em 55º e hoje conquistou a 5º posição.

Este avanço é reflexo do aumento de investimentos no setor. Em 2005 foram destinados cerca de 64 milhões, enquanto que em 2009 este valor triplicou e atingiu a marca dos 220 milhões. As mudanças podem ser percebidas, principalmente, no tratamento de esgoto. Segundo o estudo, 83% de esgoto, referente à água consumida, recebe tratamento, um avanço de 71 pontos percentuais em relação 2005. Isto coloca Curitiba no restrito grupo das 8 cidades brasileiras que tratam acima de 80%.

Curitiba

 Parabéns ao Rio Tietê: vitrine de uma cidade-sede da Copa?

20 de setembro de 2011 por Édison Carlos | São Paulo

O turista que comparecer aos jogos de futebol da copa de 2014 na cidade de São Paulo infelizmente ainda se surpreenderá negativamente ao desembarcar no Aeroporto de Guarulhos. Está à sua espera, além do trânsito costumeiro, o rio Tietê, um dos maiores cartões postais da cidade.

O Tietê faz aniversário na próxima quinta-feira (22.09) e nunca foi tão pertinente o debate sobre a despoluição de suas águas diante da visibilidade turística que a cidade alcançará no período dos jogos.

Em entrevista realizada pelo Instituto Trata Brasil com a Dra. Dilma Pena, presidente da Sabesp, ficaram evidentes os vários desafios da empresa e do estado para despoluir este ícone da cidade; um símbolo de décadas de despreparo e falta de planejamento. Um rio que atuou e ainda atua como destino dos esgotos de vários municípios às suas margens.

Quando analisa a responsabilidade das várias cidades, a Dra. Dilma Pena explica: “Não há uma lei clara que determine que o saneamento seja metropolitano e que, portanto, têm que se submeter a interesses gerais e não específicos, então gera este problema!”. Enquanto a Sabesp avança em seus investimentos no Projeto Tietê, vários municípios não atendidos pela empresa caminham lentamente, ajudando a perpetuar o problema.

Ela explica ainda: “A despoluição dessa grande bacia que é o Tietê demanda certo tempo. Nós elaboramos quatro etapas. Atualmente estamos na terceira e prevemos que a finalização de todas as etapas será cumprida em 2018. Então, no decorrer desta década, toda a infraestrutura de coleta, transporte e tratamento de esgoto estará implantada na região metropolitana e nas cidades que deságuam ao longo do rio”, destacou a Dra. Pena.

Apesar destes esforços, o projeto Flutuador da Rede Globo novamente está medindo os índices poluição do Tietê e os resultados mostram a lentidão na melhoria. O jornalista Carlos Tramontina, coordenador desta série de reportagens, expressou seu inconformismo em recente entrevista ao Trata Brasil: “É inaceitável conviver com esta condição. Estamos prestes a receber uma grande quantidade de jornalistas e turistas que vão passar pelo Rio Tietê e presenciar esta situação”.

Vários países conseguiram mudar esta situação e hoje os rios são motivo de orgulho para seus habitantes. Isso mostra que é possível resolver o problema. Cabe-nos, então, fazer a nossa parte, cobrando empenho das partes envolvidas: autoridades, poder público, entidades não-governamentais, empresas e população juntas pela despoluição do nosso querido Rio Tietê.

 Em Natal, 0% do esgoto é tratado

13 de setembro de 2011 por Édison Carlos | Natal

Dr. Kleber LuzNo último post, em que publiquei a tabela das cidades-sedes com dados do SNIS 2009 (Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento), me chamou atenção o fato de a cidade de  Natal ter declarado não tratar nada do seu esgoto coletado (Veja aqui).

A cidade é reconhecida internacionalmente como o “Ar mais puro das Américas”, segundo levantamento da Nasa, em parceria com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), também foi eleita pela Aviesp (Associação das Agências de Viagens Independentes do Estado de São Paulo) como melhor destino turístico do Brasil em 2007 , além de ser uma das cidades com o maior número de leitos turísticos do País (aproximadamente 28 mil).

É inegável que os investimentos na área de saneamento básico são mais do que necessários. A Copa de 2014 justifica maior atenção para esta área como princípio básico para uma boa infraestrutura da cidade, aumento no número de turistas, e, principalmente, garantia de melhor qualidade de vida para a população.

Em uma conversa com o professor de infectologia da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Kleber Luz, que também é Embaixador do Trata Brasil, pude explorar melhor o tema e ter a opinião de uma pessoa que presencia, quase que diariamente, o impacto da falta de saneamento básico na vida dos moradores de Natal. Compartilho com vocês os principais pontos de nossa conversa:

Blog - A escolha de Natal como cidade-sede da Copa do Mundo tem trazido avanços no saneamento?

Kleber Luz – Apesar de não ter feito parte das exigências da FIFA, o saneamento da cidade está sendo apresentado pelas autoridades como uma prioridade para o ano de 2014. Com relação às doenças, estarão na dependência da conclusão das obras. Caso isso aconteça o número desses problemas provavelmente se reduzirá.

Blog – E sobre a universalização do saneamento, quais benefícios trariam para saúde da população da região metropolitana de Natal?

Kleber Luz – É provável que haja uma redução considerável no quadro de doenças da cidade e principalmente do Estado. Consequentemente os gastos, antes destinados ao tratamento de pessoas com essas doenças, poderiam ser revertidos na potencialização de outros serviços, inclusive na própria saúde pública.

Blog – As doenças decorrentes da ausência do saneamento se destacam no quadro de internações médicas da cidade e do Estado?

Kleber Luz - São episódios que ocorrem freqüentemente, principalmente nas regiões mais marginalizadas.

Blog – Como as deficiências do saneamento são percebidas pelos médicos na região metropolitana de Natal? Há uma mobilização destes profissionais para mudar este quadro?

Kleber Luz – O contingente de pacientes que adquiriram doenças provindas da falta de saneamento básico, em Natal, revela uma situação típica de uma região que apresenta baixos índices desse serviço. Os médicos da cidade, assim como os demais cidadãos, se preocupam com o bem estar social e assumem o compromisso de contribuir na concretização do direto ao acesso aos serviços públicos por toda a população.

Blog – Cada vez mais a imprensa noticia a contaminação das praias mais belas do Brasil, também as do RN. Esta poluição é percebida também pela sociedade local?

Kleber Luz – Infelizmente, não só o Rio Grande do Norte, como outros estados do Brasil têm suas praias cada vez mais comprometidas pela poluição.  Muitas vezes por falta de informação, as populações praieiras acabam fazendo das beiras das praias um ambiente propício ao despejo de resíduos.

A edição 2009 do estudo “Diagnósticos dos Serviços de Água e Saneamento”, baseado no SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – divulgado recentemente pelo Ministério das Cidades revelou que a maior parte das cidades-sede da Copa 2014 precisa correr e encarar grandes desafios se quiser um legado real para a sua população,
melhorando os serviços de coleta e tratamento de esgoto.

Das doze cidades-sede, cinco oferecem coleta de esgoto para menos da metade da população.  Manaus (AM) e Natal (RN) apresentam os piores índices, 12% e 32% respectivamente.  Cuiabá (MT), Recife (PE) e Fortaleza (CE ) apesar de estarem um pouco acima, ainda oferecem coleta para menos de 50% da população. Apenas 39% dos moradores de Recife (PE) e Cuiabá (MT) tem acesso a coleta de esgoto e em Fortaleza (CE) somente 43% dos habitantes podem contar com este serviço.

Confira a tabela com o índice de coleta e tratamento de esgoto de todas as cidades-sedes da Copa 2014

Cidades-Sedes da Copa 2014

É importante ressaltar que nem tudo que é coletado é respectivamente tratado; quando mencionamos o índice de coleta equivale dizer que é a porcentagem da população que possui encanamento domiciliar, porém na maioria das vezes estes encanamentos não estão direcionados para as ETE’s – Estação de Tratamentos de Esgotos.

É triste perceber que os resultados do estudo não demonstram um grande avanço em relação ao setor, principalmente no que diz respeito ao tratamento de esgoto. Muito esgoto continua sendo jogado diretamente nos cursos de d’agua sem nenhum tratamento ou qualquer tipo de preocupação com o resultado desta negligência.

Diante desses resultados, é hora de nós, brasileiros e eleitores, cobrarmos de nossos governantes a prioridade nos investimentos em saneamento básico, em especial de coleta e tratamento de esgotos. Não podemos mais assistir a construção de estádios grandiosos, com tanta tecnologia e materiais de ponta, quando ali, do lado do estádio, muitos
moradores ainda não tem acesso a água tratada e, muitas vezes, não tem se quer um banheiro em casa.