Posts da categoria ‘Copa do Saneamento’

Recentemente o Ministério das Cidades publicou os dados mais recentes de saneamento através de seu Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Os dados são referentes ao ano de 2010 e dizem respeito aos mais de 5 mil municípios brasileiros. Apesar da defasagem, são esses os dados oficiais mais recentes que temos. No último Domingo, o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, publicou um artigo onde faço uma análise desses dados. Compartilho aqui o artigo na íntegra como um convite para refletirmos sobre a situação do saneamento no Brasil.

*Édison Carlos

A RIO+20 já é passado… E infelizmente um passado nada animador, nem para o Brasil quanto mais para o planeta. Muita conversa, muita reunião, muito compromisso futuro, mas nenhuma urgência ambiental ou social foi suficiente para alterar o pano de fundo principal da Conferencia, ou seja, os problemas econômicos dos países desenvolvidos.

Os resultados mostraram que nem mesmo as maiores carências dos países mais pobres, entre elas a pobreza e a falta de saneamento básico, foram suficientes para sensibilizar os mais ricos, deixando ainda mais claro que no mundo atual cada um que cuide se seus problemas.

Por aqui, a prova mais concreta de que temos que voltar nossos olhos para nosso universo de pais sócio e ambientalmente atrasado são os mais novos indicadores sobre o avanço do saneamento básico no Brasil, publicados pelo Ministério das Cidades. Novos é a maneira de dizer porque, na verdade, são os dados de 2010 recém publicados através do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). É ruim falarmos de dados com mais de 18 meses de defasagem, mas é o que temos e vamos a eles.

Numa rápida interpretação de como anda o país no que ha de mais básico em atendimento ao cidadão, ou seja, no acesso a água tratada, coleta e tratamento dos esgotos, vemos que 2 em cada 10 brasileiros ainda não recebem água potável. Na Região Norte são 4 pessoas em cada 10 e no Nordeste, 3 em 10, ou seja, uma distorção enorme quando comparado ao Sudeste onde mais de 90% das pessoas possuem o serviço.

Apesar dos números de acesso a água potável serem alarmantes, o que dizer dos índices dramáticos do atendimento em coleta dos esgotos. É absurdo e incrível, mas pelos números divulgados para 2010, no Brasil 54% da população ainda não é atendida por coleta de esgoto. De 2009 para 2010, mesmo com uma maior cobertura da imprensa e debates com autoridades, conseguimos progredir apenas a inexpressiva cifra de 1,7 pontos percentuais.

O que dizer de uma taxa de crescimento tão pequena quando falamos de uma carência básica de décadas, cuja falta traz contaminação brutal as águas, com doenças e gastos enormes a saúde publica dos cidadãos e municípios brasileiros?

Esta chaga do Brasil é social, mas derivada de uma gigante poluição ambiental. Do pouco esgoto que se coleta no país, os dados divulgados mostram que somente 38% são tratados, ou seja, a continuar neste ritmo a grande maioria dos esgotos do país continuará sendo jogada na natureza da forma que saem dos nossos banheiros. São bilhões de litros jogados “in natura” por dia sem tratamento nos rios, bacias hidrográficas, lagoas e aquíferos brasileiros.

Mesmo nas áreas urbanas, sempre melhores atendidas pelos serviços de infraestrutura, as estatísticas também são ruins para o saneamento. Nelas a água tratada chega a 92% das pessoas (72% na Região Norte) e somente 53% possuem coleta de esgotos (26% na população urbana do Nordeste). Esta carência do saneamento, associada a grande proximidade das pessoas com os resíduos nas áreas mais adensadas, tem causado cada vez mais surtos de doenças, principalmente no verão, e tendo as crianças como as maiores vitimas.

Com estas tristes estatísticas é possível dizer, sem o risco de ser chamado de alarmista ou catastrófico, que o Brasil continuará a ser comparado, nos indicadores sociais e IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – muito mais com países africanos e asiáticos do que com os países desenvolvidos. Ou seja, por muito tempo o Brasil tende a fazer parte do G8 da Economia, mas do G100 Social… Lembrando que o Brasil, mesmo com o progresso na Economia, ocupa a posição de número 84 no IDH mundial, justamente porque o indicador considera a melhoria na saúde e educação, e não apenas na renda.

Ha crescimento destes serviços? Sem dúvida que há. O Governo Federal tem feito um esforço pela melhoria do saneamento, principalmente colocando recursos significativos através do PAC, mas empresas e cidades não tem conseguido usar estes recursos em sua plenitude.

Em 2010 a soma dos investimentos em saneamento se aproximou dos R$ 9 bilhões, o que significou um avanço de R$ 1,1 bilhão comparado com os R$ 7,8 bilhões de 2009; sem dúvida um avanço. Apesar disso, o valor investido está muito longe da real necessidade do país, que deveria estar aplicando entre R$ 15 a R$ 17 bilhões por ano, valores necessários para cumprir a meta do Plano Nacional de Saneamento Básico do Ministério das Cidades que é o de levar água e tratar adequadamente os esgotos em todo o país ate 2030.

A frieza dos números mostra ainda um cenário injusto nacionalmente, uma vez que aumenta a cada dia a distância entre o atendimento ao cidadão nas diversas regiões, com destaque para o avanço forte do Sudeste onde mais de 70% das pessoas já possuem coleta de esgotos. Mesmo esta região, mais poderosa e organizada, não escapa dos péssimos números em tratamento do esgoto coletado (41% somente).

Divulgado há alguns dia pela Agência Nacional de Águas, o relatório “Panorama da Qualidade das Águas Superficiais 2012″ reforça o quadro nacional de poluição as águas, apesar de mostrar um certo alento ao mostrar que 75% das águas monitoradas estavam em boas condições.  Os indicadores da avaliação da qualidade das águas nas áreas urbanas, no entanto, mostram condições bem piores. Outro ponto positivo a se ressaltar no estudo da ANA  foi ver que lentamente alguns importantes rios brasileiros começam a melhorar, caso de rios da Bacia do Tietê em SP, do Rio das Velhas em MG, entre outros. É certo que muito desta melhora está no forte papel de grandes empresas de saneamento como a Sabesp em SP e a Copasa em MG, mas seria preciso que este esforço fosse nacional e não apenas local.

Em resumo, por qualquer base de dados que se publique é possível ver que avanços estão ocorrendo, mas insuficientes para a velocidade que o Brasil precisa em saneamento básico. A se lamentar que ainda existam mais de 2.800 cidades que sequer enviam suas informações sobre a situação dos esgotos ao Ministério das Cidades, o que mostra o despreparo e falta de transparência de muitas autoridades.

Neste quadro de poucas alegrias e muita tristeza, vale lembrar que estamos num ano de eleição para Prefeitos, justamente as autoridades responsáveis pela solução dos problemas. Nos cabe, então, torcer para que o brasileiro considere o compromisso com o saneamento básico na hora de escolher seus candidatos. Que abra um espaço entre suas prioridades tradicionais (saúde, educação, segurança, drogas, desemprego, etc.) para cobrar o básico do básico. Somente assim conseguiremos que este tema seja realmente importante e não acabe ficando para ser resolvido por nossos netos.

*Édison Carlos é Presidente Executivo do Instituto Trata Brasil

O Instituto Brasil de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na última sexta-feira, 25, um novo estrato do Censo 2010 que investigou as condições no entorno das residências em áreas urbanizadas. Como era de se esperar, no que diz respeito ao saneamento básico, os dados são preocupantes: pelo menos 18,5 milhões de brasileiros vivem em áreas urbanas com esgoto a céu aberto no entorno de suas moradias.

Segundo os novos dados, investigados pela primeira vez pelo Censo, 11% das moradias do País em áreas urbanas estão próximas a valas ou córregos onde o esgoto domiciliar é despejado diretamente. Isso representa um universo de 5,1 milhões de residências.

Entre as cidades-sede da Copa, as que apresentam situação mais preocupante são Manaus, com 20,2% dos domicílios em tal condição, seguida por Fortaleza, com 19,3% e Recife, com 16,7%. Mais preocupante do que o fato em si, só mesmo o fato de que, ao invés do País estar preocupado em reverter essa situação e garantir o mínimo de dignidade a essa população, o País continue dando mais atenção em atender as exigências da Fifa, que em nada está preocupada com a população brasileira.

SiteEnquanto as obras, e consequentemente os gastos, com os estádios para a Copa do Mundo aumentam a cada dia, o setor de saneamento básico continua sofrendo com a falta de vontade política. Maior fonte de recursos do setor de saneamento, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), continua avançando muito lentamente.  É o que revelou o novo relatório de acompanhamento de obras de saneamento/esgoto do Instituto Trata Brasil divulgado na manhã desta segunda-feira.

Segundo o estudo, que monitorou 114 obras de coleta e tratamento de esgoto nas maiores cidades brasileiras, com mais de 500 mil habitantes, apenas 7% das obras foram concluídas até Dezembro de 2011. O monitoramento aponta ainda que 60% das obras estão paralisadas, atrasadas ou não foram iniciadas.  Vale lembrar que essas obras fazem parte da primeira fase do PAC e deveriam estar concluídas até Dezembro de 2010.

O estudo ainda evidencia que as cidades que tem infraestrutura de saneamento mais precárias são as mais prejudicadas por obras paralisadas, atrasadas e não iniciadas. Enquanto que nas cidades que já contam com uma boa rede de coleta e tratamento de esgoto as obras tendem a avançar mais rapidamente. Segundo o monitoramento, o Norte tem 100% das obras do PAC paralisadas, seguido por Centro-Oeste (70%) e Nordeste (34%).

Vale lembrar que muitas dessas grandes cidades que não conseguem avançar com as obras de saneamento receberão jogos da Copa do Mundo. Com estádios e aeroportos belíssimos, mas o que esperar das praias? Essas com certeza estarão inundadas com dejetos e lixo da população local, que há anos tem negado um direito básico que lhes tira toda a dignidade: acesso ao saneamento básico.

Clique aqui para acessar o estudo completo e conhecer as obras monitoradas pelo Instituto Trata Brasil.

Um levantamento realizado pela Folha de S. Paulo e publicado em reportagem deste mesmo jornal no último domingo, 11.03, aponta que as arenas da Copa-2014 já consumiram R$ 1,5 bilhão, sendo que boa parte desses recursos é vinda dos cofres públicos. Segundo o levantamento, não está incluso nesse valor o estádio do Corinthians. Os dados foram levantados junto à página da Controladoria Geral da União (CGU).

Segundo a reportagem do jornalista Rodrigo Mattos, os 11 estádios já contrataram serviços ou produtos que consumirão R$ 5,4 bilhões. No entanto, alguns itens ainda não foram contabilizados em diversos projetos, como é o caso de tecnologia de informação, placares eletrônicos e gramados. Além disso, a maioria dos estádios ainda está com o orçamento em revisão, o que certamente implicará em novos gastos.

Enquanto os gastos com estádios não param de subir e, o mais preocupante, usando verbas públicas, questões essenciais que afetam diretamente a vida do brasileiro continuam esquecidas, como é o caso do saneamento básico. Investimentos nessa infraestrutura básica e de extrema importância socioeconômico estão sendo, mais uma vez, esquecidos pelo poder público.

Algumas cidades-sede litorâneas, como é o caso de Recife e Natal, por exemplo, vão receber milhares de turistas em praias famosas, mas contaminadas por esgotos. Além da imagem das valas negras serem vergonhosas por si só, ainda há o risco de contaminação e proliferação de doenças.

Cabe a nós, sociedade civil, mudar esse cenário vergonhoso e impedir que o dinheiro público seja utilizado em obras visivelmente desnecessárias. Está na hora da sociedade cobrar que, ao final de tanto desperdício de dinheiro público, sobre alguma coisa realmente importante para o Brasil e os brasileiros.

De que o dinheiro público será o maior financiador da Copa do Mundo no Brasil não restam dúvidas. Sobram dúvidas, no entanto, sobre quanto custará aos cofres públicos a realização deste Mundial. Quando se trata do uso de dinheiro público, o cidadão brasileiro deveria ter o direito de saber como os recursos vêm sendo gastos, mas no que se refere à realização da Copa o brasileiro tem dificuldades.

Não é por falta de fontes de informações, uma vez que há pelo menos cinco diferentes portais na internet com dados globais sobre o evento – um criado pela Controladoria Geral da União (CGU), outro no Senado Federal, Tribunal de Contas da União (TCU), Ministério do Esporte e o do Instituto Ethos. Apesar de a iniciativa ser positiva visando dar transparência ao evento, na prática o esforço esbarra na falta de comunicação entre as esferas do governo e na falta de atualização dos dados.  Cada uma das cinco fontes citadas acima apresenta um número diferente para os investimentos que estão sendo realizados, porém, todas apontam a lentidão da programação dos investimentos e na liberação dos recursos.

Além dos problemas citados, vale chamar a atenção de que as fontes de informação falam dos investimentos em estádios, segurança, telecomunicações, infraestrutura energética e turística, saúde e até mesmo sobre qualificação profissional. Não falam no entanto, nada sobre uma infraestrutura de extrema importância para a qualidade de vida e saúde da população – o saneamento básico. Ampliar o atendimento em água tratada, coleta e tratamento dos esgotos nem de perto parecem ser responsabilidades ligadas à Copa de Futebol. Nem falar do tratamento ao lixo ou à drenagem das águas de chuva.

Apesar dos dados comprovarem que a universalização do saneamento básico seria o grande legado que a Copa do Mundo poderia deixar à população brasileira, as autoridades das cidades sede desconsideram sua melhoria para os jogos. É certo que continuará prevalecendo a visão de que estádios e aeroportos resolverão nossas carências mais imediatas.

Saneamento

 O verão chegou… E a contaminação também

11 de janeiro de 2012 por Édison Carlos | Copa do Saneamento, Turismo

Sol, mar e água fresca. Esse é o sonho mais comum dos brasileiros quando chega o verão. Nem mesmo o trânsito é capaz de nos impedir de ir passar o final de semana na praia. O problema, porém, é que não é só você e seus amigos que sonham com isso. Muita gente, ou melhor, milhares de pessoas das cidades metropolitanas, também sonham com isso.  E o resultado é uma imensa migração da população para as cidades litorâneas, que aumentam em muito o seu número de habitantes.

É claro que, apesar de já saber que isso acontece todo o verão, as cidades litorâneas não estão preparadas para receber tanta gente, e ai, o que acontece? Falta água e sobra muito lixo nas ruas. Só nas ruas? Não, nas areias e no mar também. E não só porque as pessoas ainda não criaram o hábito de levar sua sacolinha para a praia pra jogar o seu lixo, mas porque há um déficit na coleta e tratamento de esgoto nessas cidades, e o esgoto das residencias, bares, hotéis e outros estabelecimentos acabam sendo lançados diretamente no mar, poluindo e tonando-o impróprio para o banho.

O resultado desse cenário você já conhece: os banhistas são expostos a bactérias, vírus e protozoários. As crianças e os idosos são os mais atingidos. A doença mais comum associada a água poluida é a gastroenterite, que causa enjôo, vômitos, dores de cabeça e febre. Se o mar estiver muito poluído o grave fica mais grave: desinteria, hepatite A, cólera e febre tifóide.

Portanto, olho aberto: se você pretende passar os finais de semana na praia, verifique as condições da mesma antes de dar um mergulho, afinal, ninguém quer perder a viagem por causa de uma infecção.

Para as cidades sem praia, valem os mesmos cuidados, pois os grandes centros e as cidades turísticas recebem grande número de visitantes no verão, sobrecarregando os esgotos. Nas cidades onde a coleta e/ou o tratamento do estão não cobre a maior parte da população, o perigo aumenta.

Boa Viagem_Recife (2)

Daiane dos SantosNa semana passada, dia 11 de dezembro, aconteceu em Betim (MG) o encerramento oficial do calendário da Ginástica Olímpica no Brasil, evento tradicionalmente conhecido como “Ginástica de Gala”. Promovido pela Confederação Brasileira de Ginástica, o evento reuniu mais de 4.000 pessoas e 200 atletas coreografados em um lindo espetáculo que teve como tema “Despoluição dos mares”, aproveitando que 2012 será o Ano Internacional da Água. A apresentação abordou a água como fonte de vida, a necessidade da preservação, além de condenar a falta de saneamento básico, a pesca indiscriminada e os depósitos irregulares de lixo.

A ginasta Daiane dos Santos, que também é Embaixadora do Instituto Trata Brasil, participou da apresentação e concedeu entrevista por telefone ao Instituto falando sobre a importância da preservação de nossas águas e da necessidade de expandir rapidamente o saneamento básico. Acompanhem:

ITB – Qual foi o maior desafio para contextualizar esse tema da poluição das águas nas modalidades da ginástica?  

Daiane – Nossa maior preocupação foi em fazer uma apresentação capaz de despertar a atenção das pessoas para esse problema. A poluição dos nossos rios é cada vez maior e o homem se preocupa cada vez mais consigo mesmo.

ITB – Qual o sentimento de usar sua arte em prol de uma causa como a despoluição das águas?

Daiane - Foi uma sensação incrível. Nós queríamos chamar a atenção do público de uma maneira diferente. Mostramos através da ginástica que todos somos responsáveis por nossas matas e águas e que apenas nós podemos fazer algo que mude esse cenário de poluição.

ITB – Na apresentação vocês retrataram a poluição dos rios, em sua opinião o que a sociedade pode fazer para mudar essa realidade?

Daiane – Cada vez mais precisamos falar sobre esse tema, principalmente para mobilizar grandes empresas que têm papel fundamental na manutenção dos recursos ambientais. Todos devem lutar para preservar ao máximo porque se não fizermos nada agora, amanhã pode não haver mais nada a ser feito.

ITB – Você observa algum contraste da falta de saneamento básico entre as regiões e países que você tem viajado?

Daiane – Eu cheguei a conhecer alguns lugares sem nenhum saneamento. Muitas vezes não preciso ir muito longe para presenciar cenas como essa. Em algumas comunidades as famílias vivem sem rede de esgoto, algumas acabam bebendo água da chuva, é até triste de falar. Cada vez mais observamos o Brasil evoluindo em diversas áreas, mas quando olhamos para a questão do saneamento, principalmente em cidades com menos recursos, esse serviço é inexistente.

ITB – As crianças são as maiores prejudicadas com a falta de saneamento, você acredita que além de comprometer a saúde, a falta desse serviço acaba impedindo que venham a se tornarem futuros atletas?

Daiane – A falta de saneamento compromete a saúde de todos, não apenas no desenvolvimento de novos atletas, mas na qualidade de vida de todas as pessoas. O saneamento básico deve ser obrigatório e não visto como um capricho, o próprio nome já diz que se trata de um serviço básico, então todos devem ter tratamento de esgoto, abastecimento de água, coleta de lixo, isso é o básico para sobrevier. Precisamos lutar por isso para garantir uma vida mais saudável e com mais qualidade.

Na última terça-feira, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) lançou uma ferramenta na Internet apresentada como “jurômetro” e que tem como objetivo alertar o cidadão sobre os gastos do Governo Federal com o pagamento de juros da dívida externa. O aplicativo calcula a dívida em tempo real e ainda faz relação do valor com possíveis benefícios para a população.

Até a publicação desse post, os gastos com os juros do pagamento da dívida externa estavam em torno de R$ 220 bilhões. Esse valor, se aplicado em obras para fornecimento de água tratada, construção de redes de coleta e no tratamento dos esgotos, resolveria 80% dos problemas com estes serviços. Dados do PLANSAB – Plano Nacional de Saneamento Básico, em análise pelo Ministério das Cidades, mostram que seriam necessários, até 2030, cerca de R$ 270 bilhões para garantir a universalização da água e dos esgotos trazendo enormes benefícios à saúde das pessoas e ao meio ambiente.

No último levantamento feito pelo Instituto Trata Brasil, tratando da situação do saneamento nas cidades-sedes da Copa, e que que teve como base o SNIS 2008 (Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento), mostrou-se que o investimento com dinheiro público que está sendo aplicado nos novos estádios resolveria os problemas de coleta dos esgotos na metade das sedes. As cidades de Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Natal, Salvador e Rio de Janeiro, por exemplo, conseguiriam universalizar este serviço, poupando recursos em saúde pública.

Continua grande a movimentação para que haja recursos e se cumpram os prazos de construção dos estádios, bem como as discussões quanto às exigências da Fifa, mas infelizmente nada se fala sobre qual será o real legado que esta Copa deixará aos brasileiros. E o “jurômetro” é mais um instrumento para nos fazer refletir sobre isso.

 Os rios e as cidades-sede da Copa

30 de novembro de 2011 por Édison Carlos | Copa do Saneamento, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo

Na última quinta-feira, 24 de novembro, foi celebrado o Dia do Rio, infelizmente sem muita repercussão. Pensando bem, não há mesmo o que comemorar, a não ser a capacidade destes cursos d´água permanecerem minimamente vivos a qualquer sinal de redução da poluição. No fundo, o ideal seria comemorarmos no dia em que a sociedade consiga olhar para os nossos rios com o mesmo interesse com que olha para os grandes eventos, com a mesma indignação que demonstra para o custo dos preparativos da Copa 2014, com a mesma perplexidade com que observa a lentidão de muitas obras. Infelizmente isso ainda está longe.

Recentemente, dados do IDS – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, publicados pelo IBGE, mostraram a triste situação de alguns dos rios mais emblemáticos do Brasil, caso do Tietê em São Paulo, dos rios Capibaribe e Ipojuca em Pernambuco, do Rio Iguaçu no Paraná, dos rios dos Sinos e Gravataí no Rio Grande do Sul, das Velhas em Minas Gerais, do Paraíba do Sul entre São Paulo e Rio de Janeiro, entre outros.

Se ao invés da Copa do Mundo de Futebol estivéssemos recebendo o Campeonato Mundial de Vela, talvez nossos olhares estivessem mais atentos à qualidade da água de nossos rios, lagoas, bacias, praias e do oceano. Não se trata de dizer que o Mundial de Futebol não devesse acontecer aqui, pois é importante receber um grande evento em nosso país, mas somente comparar a importância que damos ao futebol com outros temas tão importantes para a vida, mas que ficam em segundo plano. Talvez fosse necessário que desde criança cada um de nós adotasse um rio como sendo seu, zelasse por ele, cuidasse e respeitasse, da mesma forma que gostamos de um determinado time de futebol.

Em uma recente conversa com o campeão olímpico e velejador Lars Grael, que é também Embaixador do Trata Brasil, comentei sobre a relação entre saneamento e esporte. Lars disse: “No esporte muitas vezes verificamos investimentos em infraestrutura em que o próprio saneamento, compatível com a obra, não acontece. Pior que isso é observarmos que o Rio de Janeiro, por exemplo, vai sediar os jogos olímpicos em 2016 e, por falta de investimentos em saneamento, coleta e tratamento de esgoto, temos uma Baía de Guanabara linda, porém emporcalhada, sem oferecer condições técnicas para competições de vela, competições de remo e canoagem. Estas modalidades também estão de alguma forma, comprometidas devido à péssima qualidade de água”.

Com base em sua larga experiência internacional, Lars Grael acredita que o Brasil devia encarar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 com o mesmo foco dado em Barcelona, que transformou áreas degradadas em locais totalmente revitalizados e ambientalmente corretos. Infelizmente, parece que a lição deles não está sendo bem entendida por aqui.

 *Um Brasil de contrastes

8 de novembro de 2011 por Édison Carlos | Copa do Saneamento

Cada vez mais me espanta o rápido avanço da Internet móvel, da banda larga. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil) foram mais de 50 milhões de acessos em banda larga no Brasil, apenas no último mês de setembro. Se considerarmos os últimos 12 meses, o acesso a esse serviço cresceu 94% e quadriplicou nos últimos dois anos, um aumento de 440%, o que nos coloca na oitava posição entre os países com maior base de acessos em banda larga móvel. Em setembro também, o governo anunciou investimento de R$ 200 milhões em infraestrutura nas cidades-sedes da Copa do Mundo de 2014 para oferecer internet rápida via celular.

Se dependesse só da economia ou do acesso à Internet é certo que estaríamos caminhando a passos largos para abandonar de vez o famoso título de “país em desenvolvimento” para sermos “país desenvolvido”… Mas para isso não bastam a evolução da economia e da Internet. A imagem de um Brasil sólido não resiste quando as comparações seguem para o que há de mais essencial ao cidadão e isso ficou evidente quando vimos que nosso país subiu apenas quatro posições no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2009 para 2010. Ainda ocupamos a posição de número 73 entre as 169 nações deste ranking, criado há 20 anos. O índice brasileiro (0,699), apesar de situar o país entre os de “alto desenvolvimento humano” ainda está abaixo do conjunto dos países da América Latina e Caribe (0,704) e muito inferior aos primeiros colocados, como a Noruega, Austrália e EUA.

Ainda somos atrasados, e muito, no que há de mais básico. Somente 45% da população está conectada a uma rede de esgotos, segundo o próprio Ministério das Cidades, e do pouco esgoto que se coleta somente 1/3 é tratado. Significa que jogamos diariamente bilhões de litros de esgoto “in natura” em nossos cursos d´água gerando doenças e danos ao meio ambiente. Pelos números do próprio Governo Federal, e que constam no PLANSAB – Plano Nacional de Saneamento Básico – precisaríamos de R$ 420 bilhões para resolver as quatro áreas do saneamento (água tratada, coleta e tratamento dos esgotos, lixo e drenagem); destes, R$ 270 bilhões somente para universalizar o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário.

É imprescindível, portanto, recuperar duas décadas de descaso com o saneamento e que criaram este déficit gigante. Mesmo para o fornecimento de água, tratada como prioridade, ainda existe carência em várias cidades, seja por falta de rede distribuidora, vazamentos, medição inadequada, roubos ou “gatos”. A perda média de água no país beira os 40%.

Vivemos, então, num Brasil de contradições: da mobilidade virtual e das verminoses, das cirurgias a distância e das diarreias, Não se trata, portanto, de comparar coisas incomparáveis mas não é mais possível esquecer do básico. É preciso prestar conta ao cidadão da infraestrutura mais elementar, preencher o vácuo de nossas necessidades imediatas. E a nós, cabe cobrar o que nos é de direito.

* publicado originalmente no Jornal da Tarde 08.11.11