Posts de 29 de setembro de 2010

 A lebre e a tartaruga, ou melhor, o Bahia e o Sport…

29 de setembro de 2010 por Carlosergipe | Futebol Nordeste
A lebre Bahia está dormindo demais...

A lebre Bahia está dormindo demais...

Uma das fábulas mais conhecidas pela sociedade é ”a lebre e a tartaruga’’, que, para que não conhece ou não está lembrado, é aquela que conta a história de uma lebre que desafiou uma tartaruga para uma corrida, argumentando que era mais rápida e que a tartaruga nunca a venceria. Desafio aceito, a tartaruga começou a treinar enquanto era observada pela lebre. Dias depois, chega o tão esperado  dia da corrida. A lebre e a tartaruga se posicionam, e, após o sinal, partem em direção à linha de chegada. Mesmo a tartaruga correndo o máximo que poderia, foi facilmente ultrapassada pela lebre que, percebendo que estava bem na frente, se deitou a dormir. Enquanto isso a tartatuga não só estava chegando, como passou a frente da lebre, que acordou, brincou de ir e voltar, e, quando se deu conta, a lenta mas persistente tartaruga já havia ultrapassado a linha e vencido a corrida.

Lendo isso, mais uma vez você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o futebol nordestino, não é? Na realidade do nosso futebol, a lebre é o Bahia, que desde o início da Série B povoa as primeiras posições e se mostra como um dos favoritos ao tão sonhado acesso à Série A do Campeonato Brasileiro. Já a tartaruga é o Sport, que chegou a estar na zona do rebaixamento para a Série C e hoje está no pelotão da frente, chegando bem devagar, paciente, mas constante e consciente do seu objetivo.

Se, por um lado, em termos de títulos nacionais e torcida, a lebre, ou seja, o Bahia é o maior clube do Nordeste, é também o time que mais coleciona aproveitadores e gestores incompetentes. Isso pode ser constatado claramente sempre quando analisamos a fase do tricolor baiano após o título brasileiro de 1988, marcada por rebaixamentos para segunda e terceira divisão, viradas de mesa, e hegemonia estadual do maio rival, o Vitória. Deixando o passado recente de lado, o presente do Bahia é muito estranho. Ao mesmo tempo que, fora de casa, vence times grandes como Figueirense e Ponte Preta, empata em casa com Brasiliense, Bragantino, Vila Nova, etc.

Sendo assim, pode ser que, mais uma vez na reta final, descuide-se e fique de fora, mas o time é bom: os goleiros são bons; a zaga comandada pelo capitão Nem é boa; as laterais são eficientes, com o veloz Ávine e o irregular Jancarlos, que resolveu o problema crônico da ala-direita do Bahia; o meio-campo é bom, com destaques positivos para os meias Ananias e Rogerinho, e negativo, para o caro e ciscador Morais; e o ataque é um dos melhores da Série B, como Jael e Rodrigo Gral.

Mas se você me perguntar em quem eu mais confio para subir para a elite do futebol nacional, mesmo sabendo que o Bahia conquistou, no último sábado, uma grande vitória em cima do Leão pernambucano em plena Ilha do Retiro, eu respondo a tartaruga Sport do Recife. Até porque aquele time, que elogiei antes da Série B, anunciando até que era o candatíssimo ao título, voltou de vez. Os lesionados Daniel Paulista, Dutra e Wilson voltaram e acrescentaram muito ao time. O craque do rubro-negro, que no primeiro semestre havia sido Eduardo Ramos, agora é um melhor ainda: Marcelinho Paraíba. E com este homem de cabelos descoloridos distribuindo bola por onde bem quiser, a eterna promessa Ciro fica ainda mais inspirada.

Contudo, a moral desta fábula pode servir como gabarito na segundona deste ano, quando poderemos ver mais uma vez o Bahia cair de rendimento, como tem feito nos últimos anos, e não subir, e o Sport, manter a ascenção contínua e não só ir para a Série A, como conquistar o título da Série B. Dá para acreditar em fábula? Na minha opinião, nesta sim. E você, o que acha?

Sempre me interessei bastante em analisar o papel da mídia em relação à sociedade como um todo, principalmente na maneira como ela se comporta e nas conseqüências que ela causa. E quando vim morar em São Paulo procurei entender ainda mais esse processo, até porque cheguei aqui com uma ideia e na verdade vi que a cidade era outra. Isso tudo acontece por diversos fatores, mas principalmente pelos efeitos que alguns programas de TV com muita audiência causam em todos nós. Aí você deve estar se perguntando: ‘’Mas o que isso tem a ver com futebol nordestino?’’.

Vamos lá… Na minha tese de Mestrado abro uma discussão sobre o porquê da imprensa só destacar coisas negativas em seus espaços midiáticos, e de repente, percebo que essa coluna vem fazendo o mesmo nas últimas semanas. Mas aqui é diferente. Passa semana, mês, semestre, e está cada vez mais difícil falar bem do futebol nordestino. Não é questão de escolha ou destacar polêmicas para chamar a sua atenção, e sim de dever com a nação nordestina que tanto ama o nosso futebol e não quer que ele se acabe ou continue como está…

E depois de destacar os fracassos dos gigantes Santa Cruz, CSA, Treze e Fluminense-BA, essa semana foi a vez do Fortaleza acabar com qualquer chance de eu conseguir escrever algo alegre e positivo neste espaço. Sim, parece mentira, mas o Tricolor de Aço foi eliminado da terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Não está errado não: terceira. Que decepção! Que vergonha! E sabe quem passou para a próxima fase no lugar que normalmente seria do Fortaleza e está a dois jogos do acesso a Série B? Águia de Marabá! Com todo respeito, não dá para agüentar coisas como esta… Da mesma forma que diretoria do Santa Cruz teve a faca e o queijo na mão para alcançar os objetivos do clube, a do Fortaleza não fica atrás. Ainda mais sabendo que a Série C deste ano tem pouquíssimos times capazes de pensar em uma manutenção de Série B, por exemplo.

Fato é que o título estadual maquiou algo que a diretoria não quis ver: o time era muito fraco. O tratamento de choque que Zé Teodoro, ex-técnico do Fortaleza, deu na ocasião foi um mal necessário para aquele momento conturbado que o time vivia numa semana decisiva contra o rival Ceará. Tanto que em nenhum momento empolgou o torcedor do Fortaleza na Série C. Com empates em casa e um futebol só para a sogra ver, o Fortaleza terá agora que pensar numa reestruturação completa no elenco e na diretoria.

O pior de tudo é que agora temos que ouvir dos personagens dessa palhaçada que foi essa eliminação do Fortaleza que eles perderam para eles mesmos. Ou seja, até eles perceberam que o objetivo do acesso era fácil de mais para ser verdade, e brincaram, acharam que só com a camisa subiriam… Porém, infelizmente, não foi o que aconteceu. E o resultado de tudo isso é mais um ano no purgatório, entre o inferno e o paraíso, entre a cruz e a espada.

Contudo, através desse espaço, peço encarecidamente aos times nordestinos que me dêem uma alegria na próxima semana, para que na próxima quarta-feira eu possa deixar as notícias ruins de lado, ok?

 Toma vergonha, futebol nordestino!

15 de setembro de 2010 por Carlosergipe | Copa 2014, Futebol Nordeste

Enquanto alguns insistem em bater palmas e levantar bandeiras pró-Copa de 2014 no Nordeste (uma comitiva baiana apresentou um projeto para abrir a Copa), o futebol nordestino está de mal a pior. Problemas estruturais e financeiros a parte, no último final de semana foram eliminados de uma vez só na quarta divisão do futebol nacional, os gigantes CSA-AL, Fluminense-BA, Treze-PB e Santa Cruz-PE. E deste modo, mais uma vez, no dia seguinte somos obrigados a ouvir: ‘’É trabalhar para que no próximo ano o objetivo seja alcançado’’. Ou seja, enquanto houver ‘’próximo ano’’ continuaremos no inferno do futebol brasileiro.

Sim, é assim que está sendo chamada a quarta divisão do Campeonato Brasileiro. Neste inferno, seguem como representantes nordestinos o Sampaio Corrêa-MA e o Guarany de Sobral-CE, que eliminaram, respectivamente, o maior campeão alagoano e o tradicional tricolor pernambucano. A eliminação do CSA, apesar de ter feito uma grande primeira fase, não assusta tanto, pois o time hoje está na segunda divisão do campeonato alagoano e só entrou na Série D por causa das ‘’maracutaias’’ que costumam acontecer em Alagoas. Já o Santa Cruz ter caído foi, definitivamente, uma vergonha, uma tragédia sem proporções!

Afinal, todos sabem do poder aquisitivo que o Santa Cruz tem, pois é um time que há alguns anos estava na elite do futebol nacional e que tem uma torcida que costuma colocar mais de 20 mil torcedores por jogo, fato este que coloca um time que está na Série D entre as cinco maiores médias de público do país (levando em conta todas as divisões). Fato este também que não é aproveitado pela incompetente diretoria do Santa Cruz, que disse que a gestão do ano passado foi uma bagunça e por isso houve o fracasso, e que este ano seria diferente, ou melhor, que em 2014 estaria na Série A. Agora, meu amigo, só dá para chegar lá em 2014 se houver alguma virada de mesa…

Quanta incompetência! Da mesma forma que um Corinthians da vida entra numa Série B com muita vantagem pela torcida e pela visibilidade na mídia (o que traz patrocínios milionários), o Santa Cruz também entra na Série D assim e até hoje não conseguiu chegar sequer à terceira fase da competição. Outro time que se encaixa perfeitamente nesse exemplo é o Bahia, que ao invés de brigar nos últimos anos pelo G-4 da segundona, acabou ficando na parte de baixo da tabela. Hoje, o tricolor baiano está no pelotão de frente, mas uma campanha com empates em casa contra times ridículos como Brasiliense e Bragantino ligam o sinal de alerta do Bahia, que mais uma vez tem um dos times mais caros da Série B, e mesmo assim alterna bons e maus momentos (o meia Morais é, diga-se de passagem, a maior enganação do futebol brasileiro).

A ingerência dos nossos administradores é tão impressionante que essa semana o Vitória contratou novamente Ricardo Silva como técnico, aquele mesmo que há um mês foi demitido. Sim, o planejamento foi para o ‘’saco’’ há muito tempo. Contudo, são coisas como esta que fazem do nosso futebol um verdadeiro caos perdido no inferno. Pense… Quantos técnicos nordestinos se destacam nacionalmente? Quantos árbitros nossos são de ponta? Quantos jogadores de times nordestinos vestiram a camisa amarelinha nos últimos 15 anos, por exemplo? Difícil responder, hein? O que sabemos é que só temos dois clubes na primeira divisão e que mesmo com toda a crise que vivemos, ainda temos comandantes que preferem fechar os olhos para os problemas, colocar a sujeira debaixo do tapete e pedir empréstimo para não ficar de fora da farra da Copa do Mundo…

 O poder público deve interferir no futebol profissional?

8 de setembro de 2010 por Carlosergipe | Copa 2014

A discussão sobre a funcionalidade do dinheiro investido na Copa do Mundo de 2014 nas sedes e nas possíveis subsedes nordestinas estão a todo o vapor. Ouvi e li muitos depoimentos aflorados tanto a favor, como contra, o que vem sendo feito para que o castelo nordestino da copa esteja muito bem construído em 2014. A grande questão continua sendo o quão isso pode influenciar no crescimento da estrutura do futebol nordestino, mas hoje gostaria de entender até que ponto o poder público deve ajudar os clubes que representam o seu Estado?

Os dois maiores times do Rio Grande do Norte, América-RN e ABC, recebem ajuda do poder público para a montagem de elenco para o Campeonato Brasileiro. No Ceará a situação não é diferente, Fortaleza e Ceará recebem cada um, uma quantia mensal do governo Estadual. Na Bahia e em Pernambuco, onde estão os representantes de maior tradição do futebol nordestino, há anos o futebol profissional é tido como investimento de alto escalão para os governantes, ou seja, são milhões de reais depositados na conta bancária dos principais times da região.

Agora chegou o momento de você, caro leitor, parar, pensar e analisar: até que ponto é positivo injetar milhares de reais nos clubes do seu Estado? Se levar em conta que o último título brasileiro de um time nordestino aconteceu há mais de 20 anos (Bahia em 1988); que o máximo que o Nordeste consegue colocar na Série A são dois ou três representantes por ano; ou até que a maioria dos nossos clubes vivem dando vexame nas Séries A, B e C, a exemplo do América-RN em 2007, e do CRB-AL e do Santa Cruz em 2008, o dinheiro público está sendo jogado fora.

Mas se levarmos em conta, por exemplo, que Sergipe não tem sequer um representante na Série C do futebol nacional; que o futebol alagoano tem seu maior campeão na segunda divisão do Estadual; que o futebol do Piauí e do Maranhão só existem para tomar goleada dos times do sudeste na Copa do Brasil; e que todos os Estados supracitados que recebem investimento estão com seus principais times (a exceção do Santa Cruz) nas séries A e B, o dinheiro público está sendo muito bem utilizado.

E olhe bem! Seu colunista aqui acredita que o dinheiro sendo bem empregado deve sim ajudar o futebol profissional, mas de uma maneira transparente e acima de tudo, inteligente. E não ficar realizando torneios estaduais ridículos onde os times utilizam os reservas ou a equipe júnior, ou até construir sonhos de verão como é essa Copa do Mundo no Nordeste. Em contrapartida, alguns acreditam que o fato de maus dirigentes afundarem os grandes times não pode abrir precedentes para o poder público interferir financeiramente, e eu concordo. Mas se houver uma política realmente voltada para a valorização do esporte e se o que é feito na federação de futebol for transparente, dá para ajudar a começar a solucionar esse problema. Por fim, a discussão está apenas começando…

 A Copa de 2014 no Nordeste é que nem castelo de areia…

1 de setembro de 2010 por Carlosergipe | Copa 2014
kkkk

Em Natal e em Fortaleza, os estádios Machadão e Castelão nem sequer foram fechados. Já em Recife e em Salvador, nada foi construído.

Depois que a última coluna “O futebol sergipano ainda existe?” foi publicada aqui, recebi vários emails de companheiros da imprensa nordestina destacando a situação precária do futebol em seus respectivos Estados, e depois disso uma pergunta não saiu mais da minha cabeça: não era melhor que os empréstimos e os investimentos que estão sendo feitos para a Copa 2014 no Nordeste fossem utilizados para a reconstrução do futebol nordestino como um todo? Sim, seria no mínimo inteligente. Esse negócio de Copa do Mundo no Nordeste está cada vez mais claro para mim que acontecerá da mesma forma que ação de prefeitura quando vai para bairro carente fazer um dia de ação social. Vai lá, leva sua infra-estrutura de alimentação, esportes, lazer em geral, e transforma aquele dia-a-dia sofrido num dia de sonhos.

É o que acontece com Natal, por exemplo, que atualmente tem um time na Série B e outros dois na Série C, tem um fraco campeonato estadual e, incrivelmente, foi a sede brasileira que mais gastou no quesito projeto para a Copa de 2014: R$ 27 milhões (quase o dobro da terceira que mais teve custos). Isso sem falar no custo de cerca de R$ 400 milhões que o Estádio das Dunas vai trazer e todas as outras ações do governo do Rio Grande do Norte, nas áreas de mobilidade urbana, aeroportos, turismo, etc. Aí eu pergunto: do que vai adiantar tudo isso se quando o encanto da Copa acabar voltaremos para os nossos estaduais esvaziados, para os nossos times sem estrutura, para o nosso futebolzinho amador?

E não adianta vir com esse papo que toda essa estrutura vai impulsionar o crescimento do nosso futebol, que eu não caio nessa balela! Afinal você já viu alguém dá um jatinho a um menino pobre e ele saber utilizar? Você já viu alguma pessoa sem instrução ganhar R$ 20 milhões na loteria e fazer esse dinheiro render? Já imaginou como um milionário e gigante Estádio das Dunas (capacidade: 45 mil lugares) será mantido só com o clássico ABC x América-RN? E um Baptistão reformado para receber mil pagantes (e dois mil não pagantes…) para ver Confiança x Sergipe?

Detalhe é que desde o início de 2009, quando comecei a fazer a cobertura jornalística das sedes e das possíveis subsedes nordestinas para o Portal Copa 2014, ouvi promessas que as licitações estavam prontas e que o trabalho estava acelerado e, inclusive, à frente de outras regiões do Brasil. Tudo conversa fiada! Natal ainda está em fase de licitação para o Estádio das Dunas. Recife conseguiu só essa semana a liberação ambiental para começar as obras da Cidade da Copa. Já a nova Fonte Nova, em Salvador, e o novo Castelão, em Fortaleza, estão na mesma e preocupante situação.

Segundo o cantor Lulu Santos, “Nada do que foi será, de novo, de um jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará, a vida vem em ondas, como um mar”. Mas me desculpem os fãs de Lulu e todos aqueles que acham que isso é verdade. Desse jeito, a fase negra do futebol nordestino não vai mudar, e se isso acontecer, vai mudar para pior (tem como?). Pois o castelo de areia com certeza vai ficar imponente, brilhoso, lindo (com os investimentos fantásticos do poder público e dessas parcerias privadas que vão lucrar por 30 anos), mas quando a onda chegar, ou melhor, quando a Copa passar, ele vai desmoronar…

E “quem espera que a vida, seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão, é preciso ter cuidado, para mais tarde não sofrer, é preciso saber viver”. Contudo, dá para ultrapassar essa gigante pedra num caminho com várias flores com espinhos? Enquanto você pensa na resposta, eu faço questão de repetir: é preciso saber viver futebol nordestino…