Por Bruno Bonsanti
A Copa acabou e, apesar da tristeza que se apossou de todos os nossos corações, chegou a hora de fazer um balanço sobre ela. Tendo assistido a boa parte dos 64 jogos, gostei bastante do que vi, mas vamos por tópicos.
Cruyff é, sim, campeão do mundo
Antes da partida entre Holanda e Brasil, o craque Johan Cruyff criticou a seleção brasileira. O auxiliar técnico Jorginho, por sua vez, disse que o holandês não sabia o que estava falando, pois não foi campeão do mundo. Mesmo desconsiderando que Cruyff comandou um dos melhores times da história, a Holanda de 1974, transformou o Ajax em time grande com o tricampeonato europeu e oito titulos holandeses e, portanto, tem seu nome muito mais marcado na história do que muito jogador que venceu a Copa – como Jorginho, inclusive – em 2010 o líder da Laranja Mecânica foi campeão do mundo, sim.
Sua filosofia fez parte das duas equipes que chegaram à final. É desnecessário falar da influência de Cruyff na seleção holandesa, mas é bom lembrar que a base ideológica do time supercampeão do Barcelona na primeira década do século XXI vem do início dos anos 90, quando o holandês treinou a equipe catalã. Dos onze que iniciaram contra a Holanda, sete jogam no Barça: Pique, Puyol, Xavi, Iniesta, Pedro, Villa e Busquets. Então não é absurdo nenhum dizer que Cruyff deu uma ajudinha à Espanha, sim.
O gol é um detalhe
Com o gol de Iniesta, a Espanha chegou a oito na competição, e se tornou a campeã do mundo com o pior ataque da história, abaixo do Brasil-94, Itália-38 e Inglaterra-66, que fizeram 11 . Números são legais e tudo mais, mas o time de Xavi e Iniesta é imensamente melhor ao treinado por Parreira, por exemplo, que foi justamente quem proferiu a frase que dá título a esse tópico. A Espanha pecou nesta Copa pela falta de objetividade e pela má forma física de Fernando Torres, que poderia ter elevado o número de gols, mas, de qualquer forma, jogou um futebol maravilhoso de se ver e foi campeã com todos os méritos.
É preciso talento
Ter um grupo unido e comprometido é importante quando se joga uma competição como a Copa do Mundo, formada por seleções que não pagam os salários dos jogadores, e é inevitável que ele demonstre mais vontade de jogar pelo seu clube do que pela sua pátria. Entretanto, sem o talento não adianta nada ter jogadores voluntariosos. O título da Espanha mostra isso, e até o vice da Holanda também, nas figuras de Sneijder e Robben. Em 1994, por exemplo, o Brasil tinha a garra e tinha os pés de Romário. Em 2010, também tinha a garra, mas tinha os pés de Felipe Melo cravados na coxa de Robben. Está aí a diferença.
O dez
Virou moda dizer que o mundo não tem mais camisa 10. Os únicos exemplos citados são o de Riquelme, Veron e etc. Essa Copa, porém, teve três grandes camisas 10 entre os quatro semifinalistas: Ozil, na Alemanha, Xavi, na Espanha, e Sneijder na Holanda. Podemos citar também o Messi, na Argentina, que fez bom mundial. Camisa 10 há, mas é evidente que ele não é tão abundante como a água.
Tática
Assim como em 2006, quando as duas finalistas utlizavam o esquema 4-2-3-1, esta Copa foi mais uma demonstração que esses são os números da moda. A Alemanha jogou com Podolski na esquerda, Ozil no centro, Muller na direita e Klose à frente. A Espanha, na mesma ordem, com Villa, Xavi, Iniesta e Torres. A Holanda, por sua vez, teve Kuyt, Sneijder, Robben e Van Persie. Dos semifinalistas, quem destoa novamente é o Uruguai, que apostou na formação com três zagueiros.
Retrospecto
Tem muita gente que odeia retrospecto. Realmente, muitas vezes não importa os números do passado, mas esse mundial desmentiu essa ideia. A Holanda chegou à final no Soccer City com 25 jogos de ivencibilidade, e a Espanha venceu 49 dos últimos 54 jogos, empatou 3 e perdeu apenas 2, curiosamente, ambos na África do Sul, contra os Estados Unidos pela Copa das Confederações, e contra a Suíça, na primeira rodada. Quem olhasse apenas para os números, conseguiria prever a decisão da Copa de 2010. Talvez o polvo Paul tenha feito isso.
De dentro ou de fora
Outra questão que foi desmistificada nessa Copa do Mundo é a velha história de convocar mais jogadores que jogam dentro do país ou fora. Tivemos os dois casos. A Espanha chegou à final com todos os jogadores, menos Fabregas, disputando La Liga. Já a seleção holandesa, tinha apenas três jogadores do time titular batendo bola no seu país de origem. Outras seleções, como Inglaterra e Itália, por exemplo, também convocaram os 23 de suas ligas nacionais e fizeram péssimas campanhas. A conclusão que se tira é que não dá pra concluir nada sobre isso.
Os mitos
Bom, caíram muitos. Um deles é a força constante que dão aos campeões do mundo. Talvez por, de fato, dificilmente alguém novo conseguir ganhar a Copa do Mundo, os comentaristas adoram dizer, sem a menor análise, que a Itália sempre vem forte, e que não podemos nos descuidar com a França. Ambas caíram na primeira fase e, mesmo a Alemanha que jogou um ótimo mundial, parou nas semifinais. As seleções que já venceram a Copa geralmente são as candidatas porque têm os melhores jogadores do mundo, mas é um erro descartar outras, como Espanha e Holanda, por exemplo, que fizeram a final. O erro, na verdade, é não analisar e ir apenas nos estereótipos e preconceitos. Não sei com que time os espanhóis virão ao Brasil, mas projeto que para muitos passarão a ser favoritos, mesmo que convoquem o time inteiro do Almeria.
Maldição do melhor do mundo
Incrível. O melhor do mundo não consegue mesmo ganhar a Copa. Desde 1958, quando a France Football inventou a Bola de Ouro e, mais tarde, em 1991, com o prêmio de melhor do mundo da FIFA, os consagrados não levantam a taça. É bom lembrar que até os anos 90, a revista francesa premiava apenas os europeus. Os jogadores que falharam foram o espanhol Di Stefano (58), o italiano Omar Sívori (62), o português Eusebio (66), o italiano Rivera (70), o holandês Cruyff (74), o dinamarquês Simonsen (78), o alemão Rumenigge (82), o francês Michel Platini (86), o holandês Marco Van Basten (90), o italiano Robertto Bagio (94), o brasileiro Ronaldo (98), o português Luis Figo (2002), o brasileiro Ronaldinho Gaúcho (2006), e agora o argentino Lionel Messi. Todos eles venceram os prêmios dos anos anteriores, pois a Copa é em julho e a premiação acontece apenas no fim do ano.
Os que chegaram mais perto foram Cruyff, naquele crime que ocorreu em 74. Rumenigge, dizimado por Paolo Rossi em 82 e Ronaldo, assolado por uma convulsão em 98, todos na final. Além, claro, de Baggio, que poderia ter mudado a história caso acertasse o pênalti que cobrou.
Não faltou craque
Cada um tem seu conceito de craque, mas, no meu, o que não faltou nessa Copa foram eles. Entre os dez muito bem indicados pela FIFA antes da final, todos fizeram bons mundiais e seriam vencedores honrados. O meu voto vai para Diego Forlan, que fez uma Copa irretocável, e fico feliz que a FIFA também percebeu e lhe deu o prêmio, quebrando a tradição de escolher apenas jogadores do time campeão.
Nível técnico
Esse tópico será polêmico, pois muitos foram enganados pela primeira fase. É evidente que uma Copa com Argélia e Grécia está sujeita a jogos ruins, mas quando as principais seleções do mundo se enfrentaram, não houve decepção. Algumas com estilos mais defensivos, como Portugal, outras mais ofensivas, como a Argentina, proporcionaram bons jogos. Não foi o melhor mundial da história, mas sem dúvida não foi o pior.
A melhor geração do mundo
Sempre se fala que o Brasil tem os melhores jogadores do mundo. Discordo. A melhor geração do planeta é a espanhola. Se fizesse uma mistura entre os chutadores de bola dos dois países, não tenho dúvidas que a predominância seria vermelha. Por exemplo: Júlio César; Daniel Alves, Lúcio, Piqué e Capdevilla; Xabi Alonso, Xavi, Iniesta e Kaká; Fernando Torres e David Villa. O técnico eu não vou nem falar quem eu escolheria…
A razão da superioridade espanhola é a categoria de base. Enquanto o Brasil a trata com o maior descaso possível, a Espanha faz um trabalho fortíssimo de formação de jogadores, e os frutos já começaram a aparecer, não só no futebol, mas também no automobilismo, com Fernando Alonso e Jorge Lorenzo, no tênis, com Rafel Nadal, no basquete, com Pau Gasol, e por aí vai…
Arbitragem
Mais polêmica. Não achei que os árbitros foram tão ruins. Houve erros crassos, evidentemente, como o gol de Tevez e o de Lampard, que foi mas não foi. Entretanto, no geral, a arbitragem soube controlar os jogos e não inteferiu na maioria das partidas. Um exemplo é a semifinal entre Espanha e Alemanha, que teve sua primeira falta aos 27 minutos. No Campeonato Brasileiro, essa partida já estaria com mais de 30 interrupções…
A final da Copa foi um caso à parte. Quem acompanha o Campeonato Inglês já está acostumado com o excesso de conversa do apitador Howard Webb. É o estilo dele e, na
Premier League, costuma dar certo, mas os holandeses e espanhóis não estavam afim de parar de bater.
Surpresas e decepções
A principal decepção foi, sem dúvida nenhuma, a Inglaterra. Imaginava que ela pudesse até ter jogado domingo com a Espanha, mas os ingleses não conseguiram parar os meninos da Alemanha. Mais do que isso, jogaram em um nível muito abaixo do esperado, principalmente jogadores chaves como Wayne Rooney e Frank Lampard. Além do English Team destaco também a campanha pífia da França, que não era pra ser campeã do mundo, mas não era para sair do que jeito que saiu .
Eu esperava muito menos do que a Alemanha demonstrou. Sem o capitão Ballack e com um time muito jovem, achei que pararia nas quartas, mas Ozil, Muller e Schweinsteiger surpreenderam. Além dos alemães, destaco as campanhas asiáticas, de Coreia do Sul e Japão, que estão tomando o lugar dos africanos como terceiro continente no futebol. Mas, sobre a maior surpresa, falarei mais detalhadamente no post seguinte.
Celeste olímpica
Que Copa fez o Uruguai! Principalmente na figura de Diego Forlan, que chamou a responsabilidade para si em todos os jogos. Luis Suárez também fez um mundial irretocável, e deve ir para um time grande da Europa na próxima temporada. Jogando com muita garra e com um sistema defensivo bem montado, embora não brilhante, os uruguais conseguiram seu papel de protagonista do futebol mundial de volta, pelo menos em 2010. Além de Suárez, outros jovens como Godin e Cavani, por exemplo, podem manter a chama celestial acesa por mais tempo, como na Copa América de 2011.
Fora de campo
Além do bom futebol jogado nos gramados da África do Sul, vários destaques apareceram nos arredores. O polvo Paul, que acertou todos os palpites e rendeu matéria de portais brasileiros sobre a sua vida sexual, ao contrário de Mick Jagger, que torceu sempre pro time errado. Houve também Larissa Riquelme, a paraguaia de palavra que encantou o mundo. Sem falar das chatíssimas vuvuzelas e da Jabulani, a pior bola da história das Copas. Mas o ápice não-futebolístico foi a entrada de Nelson Mandela em campo antes da decisão. Faltando exatamente uma semana para completar 92 anos, ele foi aplaudido pelo estádio inteiro. Suspeito, inclusive, que tenha sido aplaudido pelo resto do mundo também.
2014
Faltam quatro anos para a próxima Copa do Mundo, e isso me entristece muito, mas já arrisco algumas projeções. Posso estar muito enganado, mas imagino que Alemanha e Argentina chegarão muito forte ao Brasil. A primeira já demonstrou ter uma geração talentosa, que precisa apenas de amadurecimento. A segunda, por sua vez, tem seus principais jogadores no começo dos 20 anos, e se conseguir um mínimo de consistência tática, pode ser campeã do mundo mesmo com Maradona no comando técnico.Agora, não se surpreendam se a Espanha conquistar o bicampeonato no Maracanã. Dos 11 que começaram contra a Holanda, apenas Puyol, Capdevilla e Xavi podem não ter condições de jogar em 2014.
Numerologia
- Holanda chegou a sua terceira final de Copa. Ultrapassando Tchecoslováquia (34, 62), Hungria (38, 54), Uruguai (30, 50) e França (98, 06)
- A Espanha, jogando de azul, foi a primeira campeã do mundo com o segundo uniforme desde 1966, e a décima primeira seleção a vencer a Copa vestindo essa cor.
- Com o gol de Iniesta a Copa da África do Sul chegou a 145 gols, e a uma média de 2,29 por jogo. A Copa da Alemanha, em 2006, teve 2,3. A pior continua sendo a da Itália, em 90, com 2,21, e a melhor foi em 1954, com 5,38 tentos por partida.
- Sexta final que vai para a prorrogação. As outras foram em 34, 66, 78, 94, 06. Apenas duas foram para os pênaltis, a dos Estados Unidos e da Alemanha.
- A Nova Zelândia foi a única invicta da Copa de 2010, tendo empatado seus três jogos contra Eslováquia, Itália e Paraguai.
- A Espanha conquistou o décimo quinto título de um país que fala uma lingua oriunda do Latim em 19 Copas do Mundo.
- Além de Heitinga, que tomou 2 cartões amarelos, outros 12 foram advertidos, marcando um recorde em final de Copa do Mundo. A última decisão com tantos cartões foi em 86, quando o árbitro brasileiro Romulado Arppi Filho deu 6 cartões amarelos para Argentina e Alemanha. O zagueiro do Everton também foi o quinto a ser expulso em finais, juntando-se a Monzon (90), De Zotti (90), Zidane (06) e Desailly (98).
- A final da Copa do Mundo teve 14 cartões, dois a menos que Holanda e Portugal, em 2006, o jogo mais violento da história dos mundiais.
- Com a vitória sobre a Argentina por 4×0 a Alemanha chegou pela terceira vez seguida a uma fase de semifinal pela terceira vez na história, superando o Brasil que conseguiu o mesmo feito em 1970-78 e em 1994-02. Além disso, os alemães já somam 12 Copas do Mundo entre os quatro primeiros, duas a mais que o Brasil. Curiosamente, eles só chegaram juntos às semifinais em quatro oportunidades: 1958, 70, 74 e 2002.
- A Espanha foi a única campeã do mundo após perder a partida de estreia, e a sexta a vencer a sua primeira final, após Uruguai-30, Itália-34, Alemanha-54, Inglaterra-66 e França-98.
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