Por Bruno Bonsanti
O técnico Dunga divulgou hoje a lista de 23 jogadores que ele levará à África do Sul para disputar a Copa do Mundo. E decepcionou boa parte do país, descartando Neymar, e colocando Ronaldinho Gaúcho e Paulo Henrique Ganso apenas na lista de suplentes. Além disso, irritou muita gente com convocações de jogadores que passam por má fase em seus clubes.
Doni foi o goleiro do título da Copa América, competição que ratificou, ou até salvou, o emprego do técnico. Na semifinal, contra o Uruguai, pegou pênaltis, no momento mais crítico da caminhada brasileira rumo ao caneco, quando Pablo García teve em seus pés o pênalti da desclassificação canarinho.
O problema é que há muito tempo Doni não joga. Perdeu a posição na Roma para o também brasileiro Júlio Sérgio. Como aponta Braitner Moreira, do site Quatro Tratti, especialista em futebol italiano, o ex-goleiro do Corinthians disputou apenas sete jogos no Campeonato Italiano deste ano, vencendo três, empatando um e sendo derrotado em outras três oportunidades. Na Liga Europa, entrou no meio da partida contra o Panathinaikos, e falhou nos três gols que decretaram a vitória dos gregos por 3×2, no jogo de ida dos 16 avos de final. Na volta, os italianos seriam eliminados.
Dunga justificou essa convocação dizendo que Doni brigou com o clube para jogar a Copa América, mostrando comprometimento. Diego e Rafinha, nas Olimpíadas, também entraram em atrito com Werder Bremem e Schalke 04, respectivamente, mas nunca mais foram lembrados após o fracasso em Pequim. A ausência do lateral-direito é compreensível, pois já há dois bons jogadores para a posição, mas Diego poderia ser uma boa alternativa caso Kaká se machuque.
Outro caso que chama a atenção é Kleberson, convocado apenas três vezes por Dunga, e que iniciou o ano como reserva do meio-campo do Flamengo. Fez duas boas partidas, contra Corinthians e São Paulo, mas, mesmo assim, jogou muito pouco para merecer uma convocação para o mundial. Ramires, Elano e Daniel Alves poderiam jogar na mesma posição do meia campeão do mundo em 2002 em caso de necessidade, além de serem opções para segundo volante, onde Kleberson também joga.
Além dos jogadores em má fase, há também os que foram convocados fora de suas atuais posições. Michel Bastos era lateral-esquerdo no Figueirense, mas, desde que desembarcou na França, jogou no ataque, tanto no Lille como no Lyon. Gilberto, por sua vez, foi meia-esquerda no Tottenham, antes de assumir a camisa 10 e a função de principal articulador do Cruzeiro
Enquanto isso, no Barcelona e no Real Madrid, que certamente figuram na lista dos times mais importantes do mundo, há dois laterais-esquerdos jogando bem: Maxwell e Marcelo. O último está apenas na lista de suplentes, caso alguém se machuque. E ele nem pode mais argumentar que o ex-jogador do Fluminense joga mais como meia do que como lateral – como já fez em outra oportunidade.
O que também preocupa é quem substituirá Kaká, caso o meia se machuque, como ocorreu várias vezes nesta temporada. O mais provável é Julio Baptista, mas ele também não é unanimidade na Roma e, diferente do que disse Dunga, não é por causa de Totti. Há muito tempo o capitão romanista vem jogando mais partidas no comando de ataque do que no meio-campo, posição de “La Bestia”, que não jogou 90 minutos em nenhuma partida das 23 que disputou no Campeonato Italiano. Em 19, entrou no segundo tempo, também de acordo com dados de Braitner Moreira.
A alternativa poderia ser Paulo Henrique Ganso, mas segundo o técnico da seleção brasileira, ele não foi devidamente testado. Por outro lado, Grafite jogou apenas 28 minutos em um amistoso chinfrim contra a Irlanda. Posso concluir, então, que Dunga acredita que meia hora em um jogo que não vale nada é teste suficiente para jogar uma Copa do Mundo. Além disso, colocou o meia do Santos na lista de suplentes, logo, se alguém se machucar, Ganso automaticamente já terá experiência suficiente para jogar o mundial.
Outra opção seria Ronaldinho Gaúcho, mas Dunga, ironicamente, claro, disse que o atacante do Milan disputa posição pelo lado-esquerdo do ataque, onde a mídia inteira acha que ele devia jogar. Sendo assim, ele prefere Nilmar, que é reserva do Villarreal, ao jogador que levou um Milan bagunçado e fraco a disputar o título italiano o máximo que podia. E é bom dizer que não estou aqui argumentando contra a convocação do ex-atacante do Internacional. Caberiam os dois.
O capitão do tetra pretende provar que uma seleção de pouco talento, mas com muito comprometimento e garra pode vencer não só uma, mas duas Copas do Mundo. Essa seleção, principalmente no meio-campo, lembra muito a de 1994 e, como disse o jornalista Juca Kfouri, Kaká é o Raí desta geração, único jogador mais criativo no setor.
O respaldo de Dunga para essas decisões estranhas é muito pequeno. Fosse Luis Felipe Scolari a convocar os mesmo jogadores, o público confiaria mais, pois ele já é um treinador consagrado, que tem cancha para bancar suas convicções.
O técnico se apóia nos resultados que, indiscutivelmente foram bons, mas ele conseguiu apenas metade do objetivo do treinador do Brasil. A segunda parte, que consiste em jogar bem e agradar o público que gosta de um bom futebol, nem passa pela cabeça do treinador.
Acredito que o comandante da seleção brasileira, profissional do futebol mais pressionado do mundo, tem todo o direito de levar alguns jogadores de sua confiança para o mundial, mas há limites. Ao convocar um número tão grande de atletas apenas porque eles mostraram comprometimento e o ajudaram nas horas difíceis, preterindo o talento, Dunga vai na contra-mão da história do futebol brasileiro e, mesmo que vença a Copa do Mundo da África do Sul, o povo tupiniquim não se sentirá representado pelos onze que vestirão a camisa amarela.
Veja a convocação da seleção brasileira:
Goleiros: Júlo César (Inter de Milão-ITA), Doni (Roma-ITA) e Gomes (Tottenham-ING)
Laterais: Daniel Alves (Barcelona-ESP), Maicon (Inter de Milão-ITA), Gilberto (Cruzeiro) e Michel Bastos (Lyon-FRA)
Zagueiros: Lúcio (Inter de Milão-ITA), Luisão (Benfica-POR), Juan (Roma-ITA) e Thiago Silva (Milan-ITA)
Meio Campo: Gilberto Silva (Panathinaikos-GRE), Felipe Melo (Juventus-ITA), Josué (Wolfsburg-ALE), Kleberson (Flamengo), Ramires (Benfica-POR), Elano (Galatasaray-TUR), Julio Baptista (Roma-ITA) e Kaká (Real Madrid-ESP)
Atacantes: Luis Fabiano (Sevilla-ESP), Robinho (Santos), Nilmar (Villarreal-ESP) e Grafite (Wolfsburg-ALE)
Suplentes:
Alex (Chelsea-ING), Diego Tardelli (Atlético-MG), Ronaldinho Gaúcho (Milan-ITA), Sandro (Internacional), Paulo Henrique Ganso (Santos), Carlos Eduardo (Hoffeinhein-ALE), Marcelo (Real Madrid-ESP)
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