
Tenho recebido inúmeras perguntas em relação aos motivos de não encontrarmos muitos gramados artificiais no Brasil e no Mundo. Para ilustrar a dimensão da recusa a esse tipo de gramado, vou citar um caso recente. Durante a pré-temporada europeia 2009, o Real Madrid foi ao Canadá enfrentar o Toronto Futebol Clube em amistoso. E o estádio BMO Field, com gramado sintético, foi coberto por um piso “de grama de verdade” apenas para este jogo por exigência do clube madrilenho. A justificativa: Kaká, Cristiano Ronaldo e companhia não podiam “correr riscos”. A operação custou US$ 250 mil. Depois da partida, a grama natural foi retirada e doada para escolas de Toronto.
É fato que jogadores, técnicos, médicos e dirigentes apresentam reservas ao gramado artificial. Segundo os jogadores, o piso é muito duro, o quique da bola é diferente, a movimentação mais difícil, e o atrito da pele com a fibra sintética (nylon, polyester etc.) provoca queimaduras.
Técnicos, preparadores físicos e médicos alardeiam o aumento das contusões atribuído ao piso mais duro do gramado sintético. Além disso, os dirigentes que, via de regra, são avessos a grandes investimentos em infraestrutura de centros de treinamentos e gramados, reclamam do custo da grama sintética.
Todos esses fatores, conjugados à natural resistência humana a aceitar mudanças, têm inviabilizado uma maior difusão dos gramados sintéticos, mesmo em situações em que impedimentos climáticos tornariam mais lógico o seu uso.
Não há, de fato, registro de partidas oficiais importantes (Copas do Mundo) em estádios com gramados artificiais. Nem mesmo a Copa de 1994, nos EUA, país de grande difusão dos gramados artificiais, teve jogos nesse tipo de piso.
Custos / durabilidade
Analisando puramente o custo do item grama, o gramado natural é mais barato que o artificial. No modelo mais caro de plantio (tapetes ou rolos), o gramado natural custa, em média, seis reais o metro quadrado. Este valor cai se os sistema de plugs ou sprigs foram utilizados para o plantio. Já o gramado sintético, de qualidade, dificilmente custará menos de trinta reais o metro quadrado.
A durabilidade de um gramado natural bem construído e mantido é indefinida. Não é exagero falarmos de dez, 20 ou mesmo 30 anos de vida útil. Já o gramado sintético tem uma garantia média dos fabricantes de três a cinco anos, quando deve ser trocado. Claro que o gramado natural tem custo de manutenção. . .
No entanto, isso não significa que o gramado natural seja, necessariamente, superior ao artificial, que leva vantagem em pelo menos dois quesitos: capacidade de suporte de pisoteio e viabilidade em condições climáticas ou de iluminação adversas.
Além disso, a evolução de qualidade dos gramados artificiais tem sido enorme nos últimos dez anos. Com o passar do tempo é provável que ganhem cada vez mais espaço – primeiramente nos centros de treinamento (CTs) e em estádios com impedimentos ao gramado natural.
Gramados híbridos
Extrapolando um pouco a análise, temos ainda os gramados híbridos, que, na verdade, são gramados naturais com um certo percentual de fibra sintética (de até 7% – limite estabelecido junto com as federações internacional e europeia).
Os híbridos já são usados nos EUA e na Europa, onde o caso mais emblemático é o do inglês Emirates Stadium. A custo menor que o do gramado artificial, este novo tipo de gramado promete grandes vantagens: quique da bola igual ao do gramado natural, aumento do suporte de pisoteio em até 5 vezes, maior resistência a condições climáticas e de iluminação adversas, redução de ocorrência de áreas carecas, além de outras.
Mas há também desvantagens. Os híbridos são muito mais caros e não facilitam algumas operações importantes de manutenção.
Tudo isso promove a franca preferência pelos gramados naturais no mundo inteiro. No entanto, cada estádio é um estádio, e os operadores devem avaliar suas opções na tênue linha entre o tecnicamente adequado e o economicamente viável.
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